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Livro inacabado

Sexta-feira, 29 Dezembro, 2017 - 4:38

 

ShowImage.jpgLivro Inacabado

Rabino Jonathan Sacks

 

Diferentes culturas contam diferentes histórias. Os grandes romancistas do século XIX escreveram ficção que é essencialmente ética. Jane Austen e George Eliot exploraram a conexão entre personagem e felicidade. Há uma continuidade palpável entre seu trabalho e o livro de Ruth. Dickens, mais na tradição dos profetas, escreveu sobre a sociedade e suas instituições, e a forma como elas podem deixar de honrar a dignidade e a justiça humanas.

Em contraste, o fascínio com histórias como Star Wars ou Senhor dos Anéis é visivelmente dualista. O cosmos é um campo de batalha entre as forças do bem e do mal. Isso é muito mais próximo da literatura apocalíptica da seita de Qumran e dos pergaminhos do Mar Morto do que qualquer coisa no Tanach, a Bíblia hebraica. Nessas narrativas de conflitos antigas e modernas, a luta é "lá fora" e não "aqui": no cosmos, em vez de dentro da alma humana. Isso está mais perto de mito do que de monoteísmo.

Há, no entanto, uma forma de história muito rara, da qual Tanach é o exemplo supremo. É a história sem um final, que espera por um futuro aberto, em vez de alcançar o encerramento. Desafia a convenção narrativa. Normalmente, o que esperamos de uma história é que crie uma tensão que seja resolvida na página final. Isso é o que dá à arte um senso de conclusão. Não esperamos que uma escultura seja incompleta, que um poema se rompa a meio caminho, que uma novela acabe no meio. A Sinfonia Inacabada de Schubert é a exceção que comprova a regra.

No entanto, é isso o que a Bíblia repetidamente faz. Considere o Chumash, os cinco livros Mosaicos. A história judaica começa com uma promessa repetida a Abraão de que ele herdará a terra de Canaã. No entanto, quando chegamos ao fim do Deuteronômio, os israelitas ainda não atravessaram o Jordão. O Chumash termina com a cena pungente de Moisés no Monte Nebo (no Jordão atual), vendo a terra – para a qual ele viajou por quarenta anos, mas está destinado a não entrar – de longe.

 

Nevi’im (Profetas), a segunda parte do Tanach, termina com Malaquias prevendo o futuro distante, entendido pela tradição como significando a Era Messiânica:

"Vejam, Eu lhes enviarei o profeta Eliahu antes da vinda do dia fantástico e impressionante do Senhor. Ele apontará os corações dos pais para seus filhos e os corações dos filhos para seus pais..."

Nevi'im, que inclui os grandes livros históricos e proféticos, não conclui nem no presente nem no passado, mas na expectativa de um tempo ainda não alcançado. Ketuvim (Escritos), a terceira e última seção, termina com o rei Ciro da Pérsia concedendo permissão aos exilados judeus na Babilônia para retornar à sua terra e reconstruir o Templo.

Nada disso é um final no sentido convencional. Cada um deles nos deixa com uma sensação de promessa ainda não cumprida, uma tarefa ainda não concluída, um futuro visto de longe, mas ainda não alcançado. E o caso paradigma – o modelo em que todos os outros se baseiam – é o final do livro de Bereishit, na parashá desta semana.

Lembrem-se de que a história das pessoas da aliança começa com o chamado de D’us para Abraão para deixar sua terra, seu lugar de nascimento e a casa de seu pai e viajar "para uma terra que Eu vou lhe mostrar". Ainda assim, mal ele chega e é forçado pela fome a ir ao Egito. Esse é o destino repetido por Jacob e seus filhos. Gênesis não termina com a vida em Israel, mas com uma morte no Egito:

Então, José disse aos irmãos: "Estou prestes a morrer. Mas D’us certamente virá em seu auxílio e os levará para fora desta terra, para a terra que Ele prometeu em juramento a Abraão, Isaac e Jacob. "Então, José fez os filhos de Israel jurar e disse: "D’us certamente virá em seu auxílio, e então vocês deverão levar os meus ossos deste lugar." Então, José morreu aos cento e dez anos. E depois que o embalsamaram, ele foi colocado em um caixão no Egito.

Mais uma vez, uma esperança ainda não realizada, uma viagem ainda não terminada, um destino além do horizonte.

Há alguma conexão entre essa forma de narrativa e o tema com o qual a história de José termina, qual seja, o perdão?

Devemos à Hannah Arendt, na sua obra A Condição Humana, uma visão profunda da conexão entre perdão e tempo. A ação humana, ela argumenta, é potencialmente trágica. Nunca podemos prever as consequências de nossos atos, mas uma vez feitos, eles não podem ser desfeitos. Sabemos que aquele que age, nunca sabe bem o que está fazendo, que ele sempre se torna "culpado" de consequências que ele nunca pretendia, nem mesmo prevera, e que não importa quão desastrosas sejam as consequências de sua ação, ele nunca poderá desfazê-la... Tudo isso é razão suficiente para afastar-se com desespero do domínio dos assuntos humanos e desprezar a capacidade humana da liberdade.

O que transforma a situação humana da tragédia para a esperança, ela argumenta, é a possibilidade do perdão:

Sem ser perdoado, liberado das consequências do que fizemos, nossa capacidade de agir seria, por assim dizer, limitada a uma única ação da qual nunca poderíamos nos recuperar... Perdoar, em outras palavras, é a única reação que não apenas re-age, mas age de forma nova e inesperada, incondicionada pelo ato que a provocou e, portanto, liberando de suas consequências tanto a quem perdoa quanto a quem é perdoado.

A expiação e o perdão são as expressões supremas da liberdade humana – a liberdade de agir de forma diferente no futuro do que se fez no passado e a liberdade de não ficar preso em um ciclo de vingança e retaliação. Somente aqueles que podem perdoar podem ser livres. Somente uma civilização baseada no perdão pode construir um futuro que não seja uma repetição infinita do passado. Certamente, é por isso que o Judaísmo é a única civilização cuja idade de ouro é no futuro.

Foi esse conceito revolucionário do tempo – baseado na liberdade humana – que o Judaísmo contribuiu para o mundo. Muitas culturas antigas acreditavam no tempo cíclico, em que todas as coisas retornam ao seu início. Os gregos desenvolveram uma sensação de tempo trágico, no qual a nave dos sonhos está destinada a encontrar as rochas duras da realidade. A Europa do Iluminismo introduziu a ideia do tempo linear, com seu primo próximo, o progresso. O Judaísmo acredita no tempo da aliança, bem descrito por Harold Fisch: "A aliança é uma condição da nossa existência no tempo... Nós cooperamos com seus propósitos, nunca sabendo exatamente o que nos levará, pois ‘a prontidão é tudo’. "Em uma frase encantadora, ele fala da imaginação judaica como moldada pela ‘memória inabalável de um futuro ainda a ser cumprido’.

A tragédia dá origem ao pessimismo. O tempo cíclico leva à aceitação. O tempo linear gera otimismo. O tempo da aliança dá origem à esperança. Estas não são apenas emoções diferentes. São formas radicalmente diferentes de se relacionar com a vida e o universo. Elas são expressas nos diferentes tipos de história que as pessoas contam. O tempo judaico sempre enfrenta um futuro aberto. O último capítulo ainda não foi escrito. O Maschiach ainda não chegou. Até então, a história continua – e nós, juntamente com D’us, somos seus co-autores.

PELO RABINO JONATHAN SACKS

O rabino Jonathan Sacks é o ex rabino-chefe da Grã-Bretanha e da Commonwealth britânica. Para ler mais escritos e ensinamentos de Lord Rabino Jonathan Sacks, ou para se juntar à sua lista de e-mail, visite www.rabbisacks.org.

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