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Fazendo e ouvindo

Quarta-feira, 07 Fevereiro, 2018 - 21:48

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Fazendo e ouvindo

Mishpatim

Uma das frases mais famosas da Torá faz sua aparição na parashá desta semana. Muitas vezes, tem sido usada para caracterizar a fé judaica como um todo. Consiste em duas palavras: na'asê venishmá, literalmente, "nós faremos e ouviremos" (Ex. 24: 7). O que isso significa e por que isso importa?

Existem duas interpretações famosas, uma antiga, a outra moderna. A primeira aparece no Talmud da Babilônia1, onde essa frase caracteriza o entusiasmo com o qual os israelitas aceitaram de todo o coração a aliança com D’us no Monte Sinai. Quando eles disseram para Moisés: "Tudo o que o Senhor falou faremos e ouviremos", eles diziam, de fato: Tudo o que D’us nos pede, faremos - dizendo isso antes de terem ouvido qualquer um dos mandamentos. A palavra "ouviremos", implica que ainda não tinham ouvido – não os Dez Mandamentos, ou as leis detalhadas que se seguiram, conforme estabelecido em nossa parashá. Tão entusiasmados estavam eles, que demonstraram seu consentimento a D’us, concordando com Suas demandas antes de saber quais elas eram.2

Esta leitura, adotada também por Rashi em seu comentário à Torá, é difícil porque depende da leitura da narrativa fora da sequência cronológica (usando o princípio de que "Não há antes nem depois na Torá"). Os eventos do capítulo 24, nesta interpretação, ocorreram antes dos do capítulo 20, o relato da revelação no Monte Sinai e os Dez Mandamentos. Ibn Ezra, Rashbam e Ramban discordam disso e leem os capítulos em ordem cronológica. Para eles, as palavras na'asê venishmá significam “faremos e obedeceremos.”

A segunda interpretação – não o sentido literal do texto, mas, no entanto, importante – foi dada frequentemente no pensamento judaico moderno. Nesta visão, na'asê venishmá significa: "Nós faremos e entenderemos"[1]. A partir disso, chegam à conclusão que só podemos entender o Judaísmo praticando-o, cumprindo os mandamentos e vivendo uma vida judaica. No começo, há a ação.[2] Somente então vem o entendimento, a percepção, a compreensão.

Este é um sinal e um ponto substantivo. A mente moderna ocidental tende a colocar as coisas na ordem oposta. Nós procuramos entender com o que nós estamos nos comprometendo antes de assumir o compromisso. Tal atitude é boa quando o que está em jogo é a assinatura de um contrato, a compra de um novo celular ou de uma subscrição, mas não quando se trata de fazer um profundo compromisso existencial. A única maneira de entender liderança é liderando. A única maneira de entender o casamento é se casando. A única maneira de entender se um certo plano de carreira é ideal para você é realmente experimentá-lo por um período prolongado. Aqueles que ficam boiando na borda do compromisso, relutantes em tomar uma decisão até que todos os fatos estejam postos, acabarão por descobrir que a vida passou por eles.[3] A única maneira de compreender um modo de vida é correr o risco de vivenciá-lo.[4] Então: na'asê venishmá, "Nós faremos e, finalmente, através de uma prática estendida e exposição prolongada, entenderemos."

Na minha Introdução ao Pacto e Conversação deste ano, sugeri uma terceira interpretação bastante diferente, com base no fato de que os israelitas são descritos pela Torá como tendo ratificado a aliança três vezes: uma vez antes de ouvirem os mandamentos, e duas vezes vezes depois. Há uma diferença fascinante entre a forma como a Torá descreve as duas primeiras dessas respostas e a terceira:

Todas as pessoas responderam juntas: "Nós faremos [na'asê] tudo o que o Senhor disse" (Ex. 19: 8)

Quando Moisés foi e contou ao povo todas as palavras e leis do Senhor, eles responderam com um voz: "Tudo o que o Senhor disse, faremos [na'asê]" (Ex. 24: 3)

Então ele pegou o Livro da Aliança e leu para o povo. Eles responderam: "Nós faremos e ouviremos [na'asê venishmá] tudo o que o Senhor disse. "(Ex 24: 7)

A partir disso, deriva-se uma consequência importante. O Judaísmo é uma comunidade do fazer mais do que de "ouvir". Existe um código autoritário da Lei Judaica. Quando se trata de halachá, o modo judaico de fazer, buscamos o consenso.

Em contrapartida, embora existam indubitavelmente princípios de fé judaica, quando se trata de espiritualidade não há uma única abordagem normativa judaica. O Judaísmo teve seus sacerdotes e profetas, racionalistas e místicos, seus filósofos e poetas. O Tanach, a Bíblia hebraica, fala em uma multiplicidade de vozes. Isaías não era Ezequiel. O livro de Provérbios vem de uma mentalidade diferente da dos livros de Amós e Oséias. A Torá contém lei e narrativa, História e visão mística, ritual e oração. Existem normas sobre como agir como judeus. Mas há poucas sobre como pensar e sentir-se como judeus.

Nós experimentamos D’us de maneiras diferentes. Alguns O encontram na natureza, no que Wordsworth chamado "um sentido sublime/de algo muito mais profundamente inserido,/cuja morada é a luz de crepúsculos,/E o oceano redondo e o ar vivo." Outros o encontram em emoção interpessoal, na experiência de amar e ser amado – o que Rabi Akiva quis dizer quando falou que em um verdadeiro casamento, "a presença Divina está entre" marido e mulher.

Alguns encontram D’us no chamado profético: "Deixe a justiça rolar como um rio e justiça como um fluxo ininterrupto" (Amós 5:24). Outros o encontram em estudo, "regozijando-se com as palavras de Sua Torá... pois elas são a nossa vida e a duração dos nossos dias; nelas meditamos dia e noite.". Ainda outros o encontram em oração, descobrindo que D’us está perto de todos os que O chamam em verdade.

Há aqueles que encontram D’us de alegria, dançando e cantando como o rei David, quando ele trouxe a Arca Sagrada para Jerusalém. Outros – ou           as mesmas pessoas em diferentes pontos da sua vida: encontram Ele nas profundezas, em lágrimas e remorso e em um coração partido. Einstein encontrou D’us na "simetria reverencial" e na complexidade ordenada do universo. Rav Kook O encontrou na harmonia da diversidade. Rav Soloveitchik encontrou-O na solidão de ser, quando ele procura a própria alma do Ser.

Há uma maneira normativa de fazer a ação sagradas, mas há muitas maneiras de ouvir a voz sagrada, de encontrar a presença sagrada, de sentir ao mesmo tempo quão pequeno nós somos e ainda quão grande é o universo em que habitamos, quão insignificantes devemos parecer quando confrontados com a vastidão do espaço e as miríades de estrelas, porém, como momentaneamente importantes somos, sabendo que D’us nos fez à Sua imagem e semelhança e nos colocou aqui, neste lugar, neste momento, com esses dons, nestas circunstâncias, com uma missão a cumprir, se soubermos discerni-la. Podemos encontrar D’us nas alturas e profundidades, na solidão e na união, no amor e no medo, em gratidão e necessidade, em luz deslumbrante e no meio de profundidade das trevas. Podemos encontrar D’us procurando por Ele, mas, às vezes, Ele nos encontra quando menos esperamos.

Essa é a diferença entre na'asê e nishmá. Nós fazemos a ação Divina "juntos". Nós respondemos aos Seus comandos "com uma só voz". Mas nós ouvimos a presença de D’us de várias maneiras, pois, embora D’us seja um, somos todos diferentes e nós O encontramos cada um à sua maneira.


[1] A palavra já traz esse significado no hebraico bíblico como na história da Torre de Babel, quando D’us diz, vamos confundir seu idioma, de tal sorte que as pessoas não poderão entender o próximo.

[2] Esta é a famosa frase do Fausto de Goethe.

[3] Isso é semelhante ao que fez Bernard Williams em seu famoso ensaio, "Moral Luck", que há certas decisões – o exemplo que ele cita é o da decisão de Gauguin de deixar sua carreira e família e ir ao Tahiti para pintar – sobre as quais não podemos saber se são a decisão certa até depois de as termos tomado, e vermos como elas funcionaram. Todas essas decisões existenciais envolvem risco.

[4] Esta, aliás, é a abordagem de Verstehen da sociologia e da antropologia, a saber, que as culturas não podem ser totalmente compreendidas do exterior. Elas precisam ser experimentadas a partir de dentro. Essa é uma das principais diferenças entre as ciências sociais e as ciências naturais.

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