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Três tipos de comunidade

Terça-feira, 06 Março, 2018 - 11:36

 

Três Tipos de Comunidade

Rabino Jonathan Sacks

 

Chief Rabbi Lord Jonathan SacksRabino Chefe Lord Jonathan Sacks

Um longo drama tinha ocorrido. Moisés levara o povo da escravidão ao início da estrada para a liberdade. As próprias pessoas testemunharam D’us no Monte Sinai, o único momento em toda a história quando um povo inteiro se tornou o destinatário da revelação. Então sobreveio o desaparecimento de Moisés após sua longa permanência no topo da montanha, uma ausência que levou ao maior pecado coletivo dos israelitas, a criação do bezerro de ouro. Moisés voltou para a montanha para pedir perdão, o que foi concedido.

Seu símbolo foi o segundo conjunto de tábuas. Agora a vida deve começar de novo. Um povo quebrado deve ser reconstruído. Como procede Moisés? O versículo com o qual a parashá inicia contém a pista:

Moisés reuniu toda a comunidade israelita e disse-lhes:

"Estas são as coisas que D’us lhe ordenou fazer". 1

O verbo vayakhel — que dá nome à parashá — é crucial para a compreensão da tarefa em que Moisés está envolvido. No seu nível mais simples, ele serve como uma palavra motriz, lembrando um versículo anterior. Neste caso, o verso é óbvio:

Quando o povo viu que Moisés se demorava para descer do monte, eles se reuniram em torno de Aharon e disseram:

"Venha, faça-nos deuses que irão perante nós". 2

O ato de Moisés é o que os Cabalistas chamaram de tikun: uma restauração, fazer o bem de novo, a redenção de um erro passado. Assim como o pecado foi cometido pelas pessoas que atuam como kahal ou kehilá, então a expiação deveria ser alcançada pela sua atuação novamente como uma kehilá, desta vez, fazendo um lar para a Presença Divina, já que anteriormente eles procuraram fazer um substituto. Moisés orquestrou as pessoas para o bem, já que antes haviam sido reunidas para o mal. (A diferença não está apenas no propósito, mas na forma do verbo, passivo no caso do bezerro de ouro, mas ativo no caso de Moisés. A passividade permite que coisas ruins aconteçam: "Onde quer que conste ‘e aconteceu,’ é um sinal de tragédia iminente".3 A proatividade é a derrota da tragédia: "Onde quer que conste ‘e haverá’, é um sinal de alegria iminente". 4)

Em um nível mais profundo, porém, o verso de abertura da parashá nos alerta para a natureza da comunidade no Judaísmo.

No hebraico clássico existem três palavras diferentes para a comunidade: edá, tsibur e kehilá; e elas significam diferentes tipos de associação.

Edá vem da palavra ed, que significa "testemunha". O verbo ya'ad tem o significado de "designar, consertar, atribuir, destinar, separar, designar ou determinar". O termo hebraico moderno te'udá significa "certificado, documento, atestado, objetivo, objeto, propósito ou missão." As pessoas que constituem uma edá têm um forte senso de identidade coletiva. Elas testemunharam as mesmas coisas. Elas estão direcionadas para o mesmo propósito. O povo judeu se tornou uma edá — uma comunidade de fé compartilhada — apenas ao receber o primeiro comando:

Diga a toda a comunidade de Israel que, no décimo dia deste mês, cada homem deve tomar um cordeiro para sua família, um para cada família.5

Uma edá pode ser uma reunião tanto para o mal quanto para o bem. Os israelitas, ao ouvir o relatório dos espiões, se desesperam e dizem que querem voltar ao Egito. Ao longo desse relato, eles são referidos como edá (como em "Por quanto tempo essa comunidade perversa resmungará contra mim?" 6). O povo revoltoso liderado por Korach em sua rebelião contra Moisés e a autoridade de Aharon também é chamado de edá ("Se um homem pecar, Você ficará irado com toda a comunidade?" 7). Atualmente, a palavra é geralmente usada para um subgrupo étnico ou religioso. Uma edá é uma comunidade de mentalidade semelhante. A palavra enfatiza uma identidade forte. É um grupo cujos membros têm muito em comum.

Em contraste, a palavra tsibur — pertence ao hebraico mishnaico em vez de bíblico — vem da raiz ts br, que significa "montar" ou "empilhar".8 Para entender o conceito de tsibur, pense em um grupo de pessoas orando no Kotel. Eles podem nem sequer se conhecer. Eles podem nunca mais se encontrar novamente. Mas, por enquanto, são dez pessoas no mesmo lugar ao mesmo tempo, e assim constituem um quórum para a oração. Um tsibur é uma comunidade no sentido minimalista, um mero agregado, formado por números e não por qualquer senso de identidade. Um tsibur é um grupo cujos membros podem não ter nada em comum, exceto, que, em certo ponto, eles se encontram juntos e, portanto, constituem um "público" para a oração ou qualquer outro comando que requeira um minian.

Uma kehilá é diferente dos outros dois tipos de comunidade. Seus membros são diferentes um do outro. Nesse sentido, é como um tsibur. Mas eles são orquestrados juntos para um propósito coletivo — um que envolve fazer uma contribuição distintiva. O perigo de uma kehilá é que ela pode se tornar uma massa, uma multidão, uma turba.

Esse é o significado da frase em que Moisés, descendo a montanha, vê as pessoas dançando ao redor do bezerro:

Moisés viu que as pessoas estavam correndo selvagens, e que Aharon as deixara sair do controle e, assim, tornaram-se ridículas para seus inimigos. 9

A beleza de uma kehilá, no entanto, é que, quando é conduzida por propósitos construtivos, reúne as contribuições distintas e separadas de muitos indivíduos, de tal modo que cada um possa dizer: "Eu ajudei a fazer isso". É por isso que, reunindo o povo nesta ocasião, Moisés enfatiza que cada um tem algo diferente para dar: "Pegue o que você tem, uma oferta para D’us. Todos os que estão dispostos a oferecer a D’us uma oferta de ouro, prata ou bronze... Todos os que são qualificados entre vocês devem vir e fazer tudo o que o Senhor ordenou... "

Moisés foi capaz de transformar a kehilá, com sua diversidade, em uma edá, com a sua singularidade de propósito, mas preservando a diversidade dos presentes que trouxeram para D’us:

Então toda a comunidade israelita retirou-se da presença de Moisés, e todos os que estavam dispostos e cujo coração os moveu, vieram e trouxeram uma oferta para D’us para a confecção do Tabernáculo, para todo o seu serviço e para as roupas sagradas. Todos os que estavam dispostos — homens e mulheres — vieram e trouxeram joias de ouro de todos os tipos: broches, brincos, anéis e ornamentos... Todos que tinham fio azul, roxo ou escarlate... Aqueles que ofertando um presente de prata ou bronze... Todas as mulheres experientes fiaram com as mãos e trouxeram o que elas fiaram... Os líderes trouxeram pedras de ônix e outras gemas... Todos os homens e mulheres israelitas que estavam dispostos trouxeram para D’us ofertas de livre e espontânea vontade para todo o trabalho que D’us, por intermédio de Moisés, tinha ordenado que fizessem.10

A grandeza do Tabernáculo era que se constituía como uma conquista coletiva — na qual nem todos faziam a mesma doação. Cada um dava uma coisa diferente. Cada contribuição foi avaliada — e, portanto, cada participante se sentiu valorizado. Vayakhel — a habilidade de Moisés de forjar da dissolução do povo uma nova e genuína kehilá — foi uma das suas maiores realizações.

Muitos anos depois, Moisés, de acordo com os sábios, retornou a esse tema. Sabendo que sua carreira como líder estava chegando ao fim, ele rezou para que D’us nomeasse um sucessor: "Possa D’us, Senhor dos espíritos de toda carne, nomear um homem para liderar a comunidade".11 Rashi, seguindo a sábios, explica a frase incomum "Senhor dos espíritos de toda a carne" da seguinte maneira:

Ele disse a Ele: Senhor do universo, o caráter de cada pessoa é revelado e conhecido por Você — e Você sabe que cada um é diferente. Portanto, nomeie para eles um líder que possa lidar com cada pessoa como o seu temperamento requer. 12

Para preservar a diversidade de um tsibur com a unidade de propósito de uma edá — esse é o desafio da formação da kehilá, a construção de comunidades, em si, a maior tarefa de um grande líder.

Notas de rodapé

1.Êxodo 35:1.

2.Êxodo 32:1.

3.Meguilá 10b.

4.Bamidbar Rabá 13.

5.Êxodo 12:3.

6.Números 14:27.

7.Números 16:22.

8.Gênesis 41:49.

9.Êxodo 32:25.

10.Êxodo 35:20–29.

11.Números 27:16.

12.Rashi no versículo acima.

RABINO JONATHAN SACKS

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O rabino Jonathan Sacks é o ex rabino-chefe da Grã-Bretanha e da Commonwealth Britânica. Para ler mais escritos e ensinamentos de Lord Rabbi Jonathan, ou adicionar seu nome a sua mailing list, visite  www.rabbisacks.org.

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