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Sobre o judaísmo e o Islã

Quinta-feira, 01 Novembro, 2018 - 15:23

 

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Sobre Judaísmo e Islã

Rabino Lord Jonathan Sacks

 

A linguagem da Torá é, na famosa frase de Erich Auerbach, “carregada de fundo”. Por trás dos eventos que são abertamente contados, há histórias ocultas que nos são dadas a decifrar. Escondida sob a superfície da Parashat Chaiei Sará, por exemplo, há outra história, mencionada apenas em uma série de indicações. Existem três pistas no texto.

A primeira ocorre quando o servo de Avraham está retornando com a mulher que se tornará a esposa de Itschak. Quando Rivca vê Itschak a distância, somos informados de que ele está "vindo do caminho de Beer Lachai Roí" (Gên 24:62) para meditar no campo. A colocação é surpreendente. Até agora, temos situado a família patriarcal em Beersheva, para onde Avraham retorna após o episódio da amarração de Itschak, e Chevron, onde Sará morre e é enterrada. Qual é o terceiro local, Beer Lachai Roí, e qual é o seu significado?

A segunda é a fase final extraordinária da vida de Avraham. Em capítulo após capítulo, lemos sobre o amor e a fidelidade que Avraham e Sará tinham um pelo outro. Juntos, eles embarcaram em uma longa jornada para um destino desconhecido. Juntos, eles se levantaram contra a idolatria do seu tempo. Duas vezes, Sará salvou a vida de Avraham fingindo ser sua irmã. Eles esperavam e rezavam por um filho e suportaram os longos anos sem filhos até que Itschak nascesse. Então a vida de Sará chega ao fim. Ela morre. Avraham a pranteia e chora por ela; compra uma caverna na qual ela está enterrada, e ele deve ser enterrado ao lado dela. Nós então esperamos ler que Avraham viveu o resto de seus anos sozinho antes de ser colocado ao lado de “Sará, sua esposa” (Gên 25:10) na “Caverna da Machpelá” (Gên 25: 9).

Inesperadamente, no entanto, depois do casamento de Itschak, Avraham se casa com uma mulher chamada Keturá e tem seis filhos com ela. Não nos é dito mais nada sobre essa mulher, e o significado do episódio não é claro. A Torá não inclui meros detalhes incidentais. Não temos ideia, por exemplo, de como era a aparência de Avraham. Nós nem sequer sabemos o nome do servo que ele enviou para encontrar uma esposa para Itschak. A tradição nos diz que era Eliezer, mas a Torá em si, não. Qual é então o significado do segundo casamento de Avraham e como ele está relacionado ao resto da narrativa?

A terceira pista para a história oculta é revelada na descrição da Torá da morte de Avraham:

E Avraham expirou, e morreu em boa velhice, um homem velho, e cheio de anos, e foi reunido a seu povo. Itschak e Ishmael, seus filhos, o sepultaram na caverna da Machpelá, no campo de Efrom, filho de Tsochar, o chitita, que está diante de Mamrê, o campo que Avraham comprou dos filhos de Chet. Ali foi Avraham sepultado, e Sará sua esposa. (Gên 25:8-10)

A presença de Ishmael no funeral é surpreendente. Afinal, ele havia sido mandado embora para o deserto anos antes, quando Itschak era jovem. Até agora, assumimos que os dois meio-irmãos viveram em total isolamento um do outro. No entanto, a Torá os coloca juntos no funeral sem uma palavra de explicação.

Os sábios juntam esses três detalhes intrigantes para formar uma história apaixonante.

Primeiro, eles apontam que Beer Lachai Roí, o lugar de onde Itschak estava vindo quando Rivca o viu, é mencionado uma vez antes em Gênesis: É o local onde Hagar, grávida e fugindo de Sará, encontrou um anjo que lhe disse para voltar. É realmente ela quem dá o nome ao lugar, que significa “O poço d’Aquele Que Vive e Que me acompanha” (Gên 16:14). O Midrash diz que Itschak foi para Beer Lachai Roí em busca de Hagar. Quando Itschak ouviu que seu pai estava procurando uma esposa para ele, ele disse: “Devo casar-me enquanto meu pai mora sozinho? Eu irei e levarei Hagar para ele. ¹

Daí a resposta dos sábios à segunda pergunta: quem era Keturá? Ela era, eles disseram, ninguém menos que a própria Hagar. Não é incomum que as pessoas na Torá tenham mais de um nome: Ytró, sogro de Moshé, tinha sete. Hagar era chamada Keturá porque “seus atos produziam fragrância como incenso (ketoret)”.2 Isso de fato integra o segundo casamento de Avraham como um componente essencial da narrativa.

Hagar não terminou seus dias como uma pária. Ela retornou, a pedido de Itschak e com o consentimento de Avraham, para se tornar a esposa de seu antigo mestre. Isso também muda a dolorosa história do banimento de Ishmael.

Sabemos que Avraham não queria mandá-lo embora ‑ a exigência de Sará era "muito penosa aos olhos de Avraham por causa de seu filho" (Gên 21:11). No entanto, D’us disse a Avraham para ouvir sua esposa. Há, no entanto, um midrash extraordinário, em Pirkei de Rabi Eliezer, que conta como Avraham visitou duas vezes seu filho. Na primeira ocasião, Ishmael não estava em casa. Sua esposa, não conhecendo a identidade de Avraham, recusou-se a dar pão e a água ao estranho. Ishmael, continua o Midrash, se divorciou dela e se casou com uma mulher chamada Fatimá. Desta vez, quando Avraham o visitou, novamente sem revelar sua identidade, a mulher lhe deu comida e bebida. O Midrash então diz: “Avraham ficou em pé e orou diante do Santo, Bendito seja Ele, e a casa de Ishmael ficou cheia de todas as coisas boas. Quando Ishmael retornou, sua esposa contou-lhe sobre isso e Ishmael sabia que seu pai ainda o amava.”³ Pai e filho foram reconciliados.

O nome da segunda esposa de Ishmael, Fatimá, é altamente significativo. No Alcorão, Fatimá é a filha de Maomé. Pirkei de Rabi Eliezer é uma obra do século VIII e está aqui fazendo uma referência explícita e positiva ao Islã.

A história oculta de Chaiei Sará tem uma imensa consequência para o nosso tempo. Judeus e muçulmanos traçam sua descendência de Avraham ‑ judeus através de Itschak, muçulmanos, através de Ishmael. O fato de os dois filhos estarem juntos no funeral de seu pai nos diz que eles também estavam reunidos.

Sob a superfície da narrativa em Chaiei Sará, os sábios leram as pistas e juntaram uma história comovente de reconciliação entre Avraham e Hagar, de um lado, Itschak e Ishmael do outro. Sim, houve conflito e separação; mas isso foi o começo, não o fim. Entre o Judaísmo e o Islã pode haver amizade e respeito mútuo. Avraham amou ambos os filhos e foi sepultado por ambos. Há esperança para o futuro nesta história do passado.

Shabat Shalom!

 

Notas de Referência

1 Bereishit Rabá 60:14.

2 Bereishit Rabá 51:4.

3 Pirkei de Rabi Eliezer

 

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