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Quando o 'Eu' é Silenciado

Quinta-feira, 15 Novembro, 2018 - 18:01

 

Quando o 'Eu' é Silenciado

Vayetse 5779

 A parashá desta semana relata uma poderosa visão primal da oração: Yaacov, sozinho e longe de casa, deita-se para passar a noite, tendo apenas pedras para travesseiro, e sonha com uma escada, com anjos subindo e descendo. Este é o encontro inicial com a “casa de D’us” que um dia se tornaria a sinagoga, o primeiro sonho de um “portão do céu” que permitiria o acesso a um D’us que está acima, nos informando finalmente que “D’us está verdadeiramente neste lugar."

 Há, no entanto, uma nuance no texto que é perdida na tradução, e foram os mestres chassídicos que nos lembraram disso. Os verbos hebraicos carregam em suas declinações uma indicação do sujeito. Assim, a palavra yadati significa "eu sabia", e ló yadati, "eu não sabia". Quando Yaacov acorda de seu sono, porém, ele diz: "Certamente o Senhor está neste lugar ve'anochi ló yadati". Anochi significa "Eu", que nesta frase é supérfluo. Para traduzi-la literalmente, teríamos que dizer: "E eu, eu não sabia". Por que o duplo "eu"?

Para essa pergunta, o rabino Pinchas Horowitz (Panim Yafot) deu uma resposta magnífica. Como, ele pergunta, chegamos a saber que "D’us está neste lugar"? “Por ve'anokhi lo yadati – ao não conhecer o eu”. Conhecemos a D’us quando nos esquecemos do ego. Sentimos o "Tu" da Presença Divina quando nos movemos para além do "eu" do egocentrismo. Somente quando paramos de pensar em nós mesmos nos tornamos verdadeiramente abertos ao mundo e ao Criador. Neste insight, encontra-se uma resposta a algumas das grandes questões sobre a oração: Que diferença faz? Isso realmente muda D’us? Certamente D’us não muda. Além do que, a oração não contradiz o princípio mais fundamental da fé, que é que somos chamados a fazer a vontade de D’us em vez de pedir a D’us que faça a nossa? O que realmente acontece quando oramos?

A oração tem duas dimensões, uma misteriosa, a outra não. Há simplesmente muitos casos de orações sendo respondidas para que nós não reconheçamos que rezar faz diferença a nosso destino. Faz sim. Eu ouvi uma vez a seguinte história. Um homem em um campo de concentração nazista perdeu a vontade de viver – e nos campos da morte, se você perdesse a vontade de viver, você morria. Naquela noite, ele derramou seu coração em oração. Na manhã seguinte, ele foi transferido para trabalhar na cozinha do acampamento. Lá ele conseguia, quando os guardas não estavam olhando, roubar alguns cascas de batata. Foram esses cascas que o mantiveram vivo. Ouvi essa história do filho dele.

Talvez cada um de nós tenha alguma dessas histórias. Em tempos de crise, clamamos das profundezas de nossa alma e algo acontece. Às vezes só nos damos conta depois, olhando para trás. A oração faz diferença para o mundo – mas como isso é misterioso.

Há, no entanto, uma segunda dimensão que não é misteriosa. Menos que a oração muda o mundo, ela nos muda. O verbo hebraico lehitpalel, que significa “orar”, é reflexivo, implicando uma ação feita a si mesmo. Literalmente, significa “julgar a si mesmo”. Significa escapar da prisão do eu e ver o mundo, inclusive a nós mesmos, do lado de fora. A oração é onde a primeira pessoa implacável singular, o “eu”, fica em silêncio por um momento e nos tornamos conscientes de que não somos o centro do universo. Existe uma realidade fora. Esse é um momento de transformação.

Se pudéssemos parar de fazer a pergunta: "Como isso me afeta?", veríamos que estamos cercados de milagres. Existe a quase infinita complexidade e beleza do mundo natural. Existe a palavra divina, nosso maior legado como judeus, a biblioteca de livros que chamamos de Bíblia. E há o drama inigualável, espalhando-se ao longo de quarenta séculos, das tragédias e triunfos que se abateram sobre o povo judeu. Respectivamente, estas representam as três dimensões do nosso conhecimento de D’us: criação (D’us na natureza), revelação (D’us em palavras santas) e redenção (D’us na história).

Às vezes é preciso uma grande crise para nos fazer perceber como somos egocêntricos. A única questão forte o suficiente para dotar a existência de significado não é: "O que eu preciso da vida?", mas "O que a vida precisa de mim?" Essa é a pergunta que ouvimos quando verdadeiramente oramos. Mais do que um ato de falar, a oração é um ato de ouvir – o que D’us quer de nós, aqui e agora. O que descobrimos – se somos capazes de criar esse silêncio na alma - é que não estamos sozinhos. Estamos aqui porque alguém, o Uno, quis que aqui estivéssemos, e Ele nos estabeleceu uma tarefa que só nós podemos fazer. Nós emergimos fortalecidos, transformados

Mais do que a oração muda D’us, ela nos muda. Permite-nos ver, sentir, saber que “D’us está neste lugar”. Como alcançamos essa consciência? Movendo-se além da primeira pessoa do singular, de modo que por um momento, como Yaacov, podemos dizer: “Eu não conheço o eu”. No silêncio do “eu”, encontramos o “Tu” de D’us.

 

Shabat shalom

 

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