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UM SER DE OUTRO PLANETA NO MEU LABORATÓRIO

Quinta-feira, 11 Julho, 2019 - 21:59

 

UM ET NO MEU LABORATÓRIO

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Por Velvl W. Greene

 

Naquele inverno eu era responsável por um projeto científico muito importante e altamente confidencial. O prazo final estava assustadoramente próximo e cada minuto era precioso. Além disso, era muito difícil alguém me ver. Por causa do projeto, eu estava isolado do mundo por muitas portas fechadas, incontáveis secretários, e até por guardas armados. E acima de tudo, eu tinha tanto interesse em encontrar esse rabino como tinha em conhecer qualquer outro coletor de caridade. Eu havia visto sua foto no jornal local e tinha uma vaga lembrança de um chapéu preto e uma barba. Alguns deles recebem três dólares e vão embora; outros insistem por cinco. Mas ele tinha sido muito persistente. Quando telefonou algumas semanas antes para marcar uma visita, nenhuma persuasão de minha parte foi suficiente para ele revelar a urgência de tal encontro. Na época, pensei que seria mais fácil (e talvez menos dispendioso) dar a ele dez minutos às 4h30 da tarde do que argumentar por telefone. Mas agora, à medida que a hora agendada se aproximava, eu me arrependia por ter dado a ele até mesmo os dez minutos.

O porteiro lá de fora me avisou; eu dei ordem para que entrasse. Então o segurança interno, depois a recepcionista, e finalmente ele estava em meu escritório. Jovem demais para ser um verdadeiro rabino, eu pensei, e inocente demais para ser um meshulach bem-sucedido. Mas R. Moshe Feller aceitou meu convite para sentar-se e num inglês excelente explicou sua missão. Há alguma coisa num chapéu preto e uma barba que levam alguém a ter aquele sotaque. Mas esse rapaz obviamente era tão americano quanto a bandeira dos Estados Unidos. A incongruência deixou-me totalmente confuso – portanto escutei antes de falar. O pedido do rabino era simples. Ele não queria um cheque, e não me convidou para fazer um discurso, nem pediu-me um emprego – três situações que cobriam mais de 90 por cento dos pedidos de rotina. Ele queria meu nome. Aparentemente a entidade que ele representava queria organizar um banquete, e ele estava à procura de pessoas “proeminentes” na comunidade judaica para emprestarem o nome como patrocinadores. Pensando em retrospecto, não era realmente um pedido absurdo. Embora eu não pudesse ver por que ele me considerava “proeminente”, entendi que ele e seus colegas eram tão “excêntricos” que até membros do segundo e terceiro escalões da comunidade poderiam ser úteis, desde que parecessem e agissem normalmente. Tentei dizer ao meu visitante que ele estava desperdiçando seu tempo. Dei uma série de razões pelas quais eu não poderia emprestar-lhe meu nome. Além do fato de Lubavitch e Chassidut serem um anacronismo, além do fato de que sua roupa e aparência me afastavam, além do fato de que meu moderno ponto de vista judaico era incompatível com a velha ortodoxia, como um sionista eu não queria ter qualquer ligação com aqueles que atiravam pedras (todos os que usam chapéus pretos e barbas não moram em Mea Shearim e atiram pedras?). Mas ele não entrou em debate comigo. Em vez disso, para minha profunda consternação, olhou para fora da janela ao pôr do sol, murmurou um “desculpe-me”, levantou-se rapidamente da poltrona, amarrou uma espécie de cordão ao redor da cintura, e começou a rezar. Baixinho, mas deliberadamente. Depressa, mas com articulação. Pelo menos mereço algum crédito por ter reconhecido que era uma prece.

Eu não sabia o que fazer. Se não me falha a memória, essa foi a primeira vez que eu via alguém rezando Minchá fora de uma sinagoga, sem um livro de preces, e sem alguém para virar as páginas. Sem dúvida, era a primeira vez que alguém rezava em meu laboratório. E acima de tudo, a primeira vez que alguém rezava alguma coisa sem a obrigação de dizer um Kadish. Creio que jamais esquecerei aquela enxurrada de pensamentos que passaram pela minha cabeça durante os poucos minutos daquele crepúsculo de inverno. Por um lado, eu estava totalmente perplexo. O que deveria fazer? Poderia voltar ao meu trabalho? Quanto tempo isso vai durar? Minhas experiências anteriores com prece envolviam longos sermões e discursos em bar mitsvot. O telefone tocou e eu não sabia se poderia atender. Eu estava aborrecido e indignado. Afinal, tinha concedido a esse homem dez minutos do meu precioso tempo, e ele estava usando a maior parte disso em algum tipo de ritual medieval. Este é o problema com judeus religiosos, pensei. Vêm pedir um favor e depois ignoram você. Que chutzpá (petulância)! Mas apesar da indignação, lembro-me de ter me impressionado. Esse jovem rabino, novo na cidade, precisando de favores de uma pessoa que não o conhecia e não o queria, sentia uma obrigação. Independentemente daquilo que ele precisava de mim, sua hierarquia de valores era tal que necessidades temporais como meu nome ou meu cheque ou até minha aprovação vinham em segundo plano à sua principal necessidade; rezar na hora fixada pela lei. Embora eu não emprestasse meu nome como patrocinador de seu banquete, gostei daquilo. Naquela noite disse à minha esposa que um tipo diferente visitara meu escritório; alguém que era sincero, alguém cuja religião significava mais que as vestes exteriores. Assim, convidei o rabino e sua esposa (pessoa de grande distinção acadêmica em matemática) à nossa casa para conhecer alguns amigos nossos. Eu queria exibir-lhes alguém que era real. Alguém que rezasse Minchá num laboratório de microbiologia. Alguém que podia escrever programas de computadores e usar uma peruca. Aquela noite foi a primeira de muitas. Dias, semanas e meses, na verdade anos, foram passados em debates e diáologo. Nós quatro nos tornamos bons amigos, mas era uma amizade de diálogo. Eu debatia e ele ensinava. Eu mencionava história e filosofia. Ele citava Torá. Tentávamos apontar o erro em suas maneiras, mas eles eram mais tolerantes que nós. Por fim, sua paciência, humanidade e sinceridade, seu conhecimento e preocupação nos convenceram de que tínhamos algo a aprender. Cerca de um ano após nosso primeiro encontro visitei Nova York e descobri que nossos amigos não eram exceções, mas protótipos. Quinze meses após aquele primeiro encontro, nosso amigo me trouxe meu primeiro conjunto de Tefilin e mostrou-me como colocá-los. E um ano depois disso sua esposa ajudou a minha a começar uma cozinha casher. E assim, numa maneira lenta e gradual, fomos ajudados em todos os outros aspectos da nossa vida atual: Shabat, Taharat Hamishpachá, manter minha cabeça coberta no trabalho etc. Tudo foi feito paulatinamente. Cada passo era dado com hesitação. Algumas pessoas dizem que fomos preparados psicológica ou espiritualmente para essas transformações muito antes de conhecermos nossos amigos chassídicos. Outros acreditam que nosso encontro original foi meramente uma coincidência. Que nosso caminho ao Judaísmo de Torá foi pavimentado por influências complexas demais para poder citar um único momento em tempo e lugar. Isso provavelmente é verdadeiro. Mas jamais esquecerei uma tarde de inverno, há seis anos, quando um jovem chassid pediu um agendamento de dez minutos e passou metade do tempo rezando Minchá.

 

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