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Um Palácio em Chamas

Quinta-feira, 07 Novembro, 2019 - 8:19

 

Um Palácio em Chamas (Lech Lecha 5780)

Rabino Lord Jonathan Sacks

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Por que Avraham? Essa é a pergunta que nos assalta quando lemos a abertura da parashá desta semana. Aqui está a figura chave na história de nossa fé, o pai de nossa nação, o herói do monoteísmo, santificado não apenas pelos judeus, mas também pelos cristãos e muçulmanos. No entanto, parece não haver nada na descrição que a Torá faz da sua juventude, para nos dar uma dica de por que ele foi apontado como a pessoa a quem D’us disse: “Farei de você uma grande nação ... e todos os povos da Terra serão abençoados por meio de você."

Isso é surpreendentemente estranho. A Torá não nos deixa dúvidas sobre o porquê de D’us ter escolhido Noach: “Noach era um homem justo, íntegro nas suas gerações; Noach andava com D’us.” Também nos dá uma indicação clara de por que D’us escolheu Moshé. Nós o vemos como um jovem, tanto no Egito como em Midian, intervindo sempre que via injustiça, fosse quem fosse que a praticasse ou contra quem ela fosse praticada. D’us disse ao profeta Yrmiahu: “Antes de te formar no ventre, Eu te conheci; antes de você nascer, Eu te diferenciei; Eu o nomeei profeta para as nações.” Essas eram obviamente pessoas extraordinárias. Não existe tal sugestão no caso de Avraham. Assim, os Sábios, comentaristas e filósofos ao longo dos tempos foram forçados a especular, a preencher a lacuna flagrante da narrativa, oferecendo suas próprias sugestões sobre o que tornava Avraham diferente.

Existem três explicações principais. A primeira é Avraham, o Iconoclasta, o destruidor de ídolos. Isso se baseia em um discurso do sucessor de Moshé, Yehoshua, no final do livro que leva seu nome. É uma passagem que ganhou destaque na Hagadá na noite do Seder: “Há muito tempo seus ancestrais, incluindo Terach, pai de Avraham e Nachor, viviam além do Rio Eufrates e adoravam outros deuses” (Yehoshua 24:2). O pai de Avraham, Terach, era um adorador de ídolos. Segundo o Midrash, ele fazia e vendia ídolos. Um dia, Avraham esmagou todos os ídolos e saiu, deixando a marreta com a qual ele o fez nas mãos do maior ídolo. Quando seu pai voltou e perguntou quem havia quebrado seus deuses, Avraham culpou o maior ídolo. "Você está querendo gozar de mim?" redarguiu o pai. “Os ídolos não podem fazer nada!” “Neste caso”, perguntou o jovem Avraham, “por que você os idolatra?”

Nessa visão, Avraham foi a primeira pessoa a desafiar os ídolos da época. Há algo profundo sobre esse insight. Judeus, crentes ou não, muitas vezes foram iconoclastas. Alguns dos pensadores mais revolucionários – certamente na era moderna – foram judeus. Eles tiveram a coragem de desafiar a sabedoria recebida, de pensar novos pensamentos e ver o mundo de maneiras sem precedentes, de Einstein na Física a Freud na Psicanálise, Schoenberg na Música, Marx na Economia e Amos Tversky e Daniel Kahneman na Economia Comportamental. É como se, profundamente em nosso DNA intelectual cultural, tivéssemos internalizado o que os Sábios disseram sobre Avraham ha-Ivri, "o Hebreu", que significava que ele estava de um lado e todo o resto do mundo, do outro. [1]

A segunda visão é apresentada por Maimônides na Mishná Torá: Avraham, o Filósofo. Numa época em que as pessoas passaram da fé original da humanidade em um D’us para a idolatria, uma pessoa se opôs à tendência, o jovem Avraham, ainda criança: “Assim que esse homem poderoso foi desmamado, ele começou a ocupar sua mente ... : Como é possível que este planeta esteja continuamente em movimento e não tenha motor? ... Ele não tinha professor, ninguém para instruí-lo ... até que ele alcançasse o caminho da verdade ... e sabia que havia Um D’us ... Quando Avraham tinha quarenta anos, reconheceu seu Criador.”[2] Segundo essa visão, Avraham foi o primeiro Aristotélico, o primeiro metafísico, a primeira pessoa a pensar em D’us como a força que move o sol e todas as estrelas.

Isso é estranho, dado o fato de haver muito pouca filosofia no Tanach, com exceção de livros de sabedoria como Provérbios, Kohelet (Eclesiastes) e Yov (Jó). Às vezes, Avraham de Maimônides pode parecer mais com Maimônides do que com Avraham. No entanto, de todas as pessoas, Friedrich Nietzsche, que não gostava muito do Judaísmo, escreveu o seguinte:

A Europa deve muito aos judeus por fazer as pessoas pensarem de maneira mais lógica e por estabelecer hábitos intelectuais mais limpos... Onde quer que os judeus tenham ganhado influência, eles ensinaram os homens a fazer distinções mais refinadas, inferências mais rigorosas e a escrever de maneira mais luminosa e limpa; sua tarefa era sempre levar um povo "a ouvir a razão". [3]

A explicação que ele deu é fascinante. Ele disse que apenas na arena da razão os judeus enfrentavam condições equitativas. Em qualquer outro lugar, encontravam preconceito de raça e classe. "Nada", escreveu ele, "é mais democrático que a lógica". Então, os judeus se tornaram lógicos e, de acordo com Maimônides, tudo começou com Avraham.

No entanto, há uma terceira visão, estabelecida no Midrash, no verso de abertura da nossa parashá:

“O Senhor disse a Avram: Deixe sua terra, seu local de nascimento e a casa de seu pai...” A que isso pode ser comparado? A um homem que estava viajando de um lugar para outro quando viu um palácio em chamas. Ele se perguntou: “É possível que o palácio não possua um dono?” O dono do palácio olhou para fora e disse: “Eu sou o dono do palácio.” Então, Avraham, nosso pai, disse: “É possível que o mundo não tenha um governante?” O Santo Bendito seja, olhou para ele e disse: “Eu sou O Governante, O Soberano do universo.”

Este é um Midrash enigmático. Está longe de ser óbvio o que isso significa. No meu livro A Letter in the Scroll (publicado na Grã-Bretanha como Radical Then, Radical Now), argumentei que Avraham ficou impressionado com a contradição entre a ordem do universo – o palácio – e a desordem da humanidade – as chamas. Como, em um mundo criado por um D’us bom, poderia haver tanto mal? Se alguém se dá ao trabalho de construir um palácio, ele o deixa em chamas? Se Alguém Se dá ao trabalho de criar um universo, Ele o deixaria ser desfigurado por Suas próprias criações? Nesta leitura, o que moveu Avraham não foi a harmonia filosófica, mas a discórdia moral. Para Avraham, a fé começou na dissonância cognitiva. Só existe uma maneira de resolver essa dissonância: protestando contra o mal e combatendo-o.

Esse é o significado pungente do Midrash quando diz que o dono do palácio olhou para fora e disse: "Eu sou o dono do palácio". É como se D’us estivesse dizendo a Avraham: preciso que você Me ajude a apagar as chamas.

Como isso poderia ser possível? D’us é todo-poderoso. Os seres humanos são todos impotentes. Como D’us pode estar dizendo a Avraham: preciso que você me ajude a apagar as chamas?

A resposta é que o mal existe porque D’us deu aos seres humanos o dom da liberdade. Sem liberdade, não desobedeceríamos às leis de D’us. Mas, ao mesmo tempo, não seríamos mais do que robôs, programados para fazer o que nosso Criador nos designou para fazer. A liberdade e seu mau uso são o tema de Adam e Chava, Cain e Havel, e a geração do Dilúvio.

Por que D’us não interveio? Por que Ele não impediu os primeiros humanos de comer o fruto proibido, ou impediu Cain de matar Havel? Por que o dono do palácio não apagou as chamas?

Porque, ao nos dar liberdade, Ele Se obrigou a não intervir na situação humana. Se Ele nos parasse toda vez que estivéssemos prestes a fazer algo errado, não teríamos liberdade. Nunca amadureceríamos, nunca aprenderíamos com nossos erros, nunca nos tornaríamos a imagem de D’us. Nós existimos como agentes livres apenas por causa do tsimtsum de D’us, Sua auto-limitação. É por isso que, nos termos com os quais Ele criou a humanidade, Ele não pode apagar as chamas do mal humano.

Ele precisa da nossa ajuda. Por isso Ele escolheu Avraham. Avraham foi a primeira pessoa na história registrada a protestar contra a injustiça do mundo em nome de D’us, em vez de aceitá-la em nome de D’us. Avraham foi o homem que disse: “O Juiz de toda a terra não fará com justiça?” Onde Noach aceitou, Avraham não o fez. Avraham é o homem de quem D’us disse: “Eu o escolhi, para que ele dirija seus filhos e sua família para que o sigam e mantenham o caminho do Senhor, fazendo o que é certo e justo.” Avraham foi o pai de uma nação, uma fé, uma civilização, marcada através dos tempos pelo que Albert Einstein chamou de "um amor quase fanático pela justiça."

Acredito que Avraham é o pai da fé, não como aceitação, mas como protesto – protesto contra as chamas que ameaçam o palácio, o mal que ameaça o mundo gracioso de D’us. Lutamos contra essas chamas por meio de atos de justiça e compaixão que negam a vitória ao mal e trazem o mundo que é um pouco mais perto ao mundo que deveria ser.

Shabat Shalom

 

[1] Bereishit Rabá (Vilna), 42: 8.

[2] Mishnê Torá, Leis da Idolatria, capítulo 1.

[3] Friedrich Nietzsche, The Gay Science, traduzido com comentários por Walter Kaufmann, Nova York, Vintage, 1974, 291.

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