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Palavras que curam

Quinta-feira, 23 Abril, 2020 - 21:50

 

Palavras que Curam (Tazria-Metsorá 5780)

Rabino Lord Jonathan Sacks

Correndo o risco de ser estraga-prazeres, eu gostaria de começar o artigo desta semana discutindo o filme de 2019, A Beautiful Day in the Neighborhood (Um Lindo Dia na Vizinhança). Tom Hanks interpreta o querido produtor/apresentador de televisão para crianças americanas, Mister Rogers, uma figura lendária para várias gerações de jovens americanos, famosa por seu convite musical: "Você Não Seria Meu Vizinho?"

O que torna o filme incomum é que é uma celebração ousada do poder da bondade humana para curar corações partidos. Hoje, essas mensagens morais diretas tendem a se limitar aos filmes infantis (algumas delas, por acaso, obras de gênio). Tal é o poder e a sutileza do filme, no entanto, que não somos tentados a descartá-lo como simplista ou ingênuo.

O enredo é baseado em uma história verdadeira. Uma revista decidiu publicar uma série de breves perfis sobre o tema dos heróis. Designou um de seus jornalistas mais talentosos para escrever a vinheta sobre Fred Rogers. O jornalista era, no entanto, uma alma perturbada. Ele teve um relacionamento gravemente quebrado com o pai. Os dois haviam brigado fisicamente no casamento de sua irmã. O pai buscou a reconciliação, mas o jornalista se recusou a vê-lo.

As bordas irregulares de seu caráter mostravam-se em seu jornalismo. Tudo o que ele escrevia tinha uma corrente subterrânea crítica, como se gostasse de destruir as imagens das pessoas que ele estava retratando. Dada sua reputação, ele se perguntou por que a estrela de televisão das crianças havia concordado em ser entrevistada por ele. Rogers não tinha lido nenhum de seus escritos? Ele não sabia o risco óbvio de que o seu perfil seria negativo, talvez devastadoramente? Na realidade, Rogers não apenas lera todos os artigos que ele conseguira ter acesso; ele também era o único que concordara em ser entrevistado por ele. Todos os outros "heróis" o recusaram.

O jornalista vai encontrar Rogers, participando da produção de um episódio de seu programa, completo com bonecos, trens de brinquedo e uma paisagem urbana em miniatura. É um momento propício ao cinismo das grandes cidades. No entanto, Rogers, quando se encontram e conversam, desafia qualquer estereótipo convencional. Ele desvia as perguntas de si mesmo e as dirige para o jornalista. Quase imediatamente sentindo o núcleo da infelicidade dentro dele, ele transforma todas as perguntas negativas em uma afirmação positiva e exala a calma e o silêncio, o silêncio da escuta, que permite e encoraja o jornalista a falar sobre si mesmo.

É uma experiência notável observar como a gentileza de Hanks, imóvel mesmo sob pressão, permite lentamente que o jornalista – que, afinal de contas, apenas viera escrever um perfil de 400 palavras – reconheça suas próprias falhas em relação ao pai e lhe dá força emocional para perdoá-lo e se reconciliar com ele no tempo limitado antes de ele morrer. Aqui está um fragmento da conversa deles que lhe dará uma ideia do tom do relacionamento:

Jornalista: Você ama pessoas como eu.

Fred Rogers: Quais são as pessoas como você? Eu nunca conheci alguém como você em toda a minha vida.

Jornalista: Pessoas quebradas.

Fred Rogers: Eu não acho que você esteja quebrado. Eu sei que você é um homem de convicção. Uma pessoa que sabe a diferença entre o que está errado e o que está certo. Tente se lembrar de que seu relacionamento com seu pai também ajudou a moldar essas partes. Ele ajudou você a se tornar o que você é.

Observe como, em poucas frases breves, Rogers ajuda a reformular a auto-imagem do jornalista, bem como seu relacionamento com o pai. A própria argumentatividade que o levou a brigar com o pai era algo que devia a ele. O filme reflete a verdadeira história de quando o verdadeiro Fred Rogers conheceu o jornalista Tom Junod. Junod, como seu personagem 'Lloyd Vogel' no filme, chegou para zombar, mas ficou para ser inspirado. Ele disse sobre a experiência: “O que é graça? Não tenho certeza; tudo o que sei é que meu coração parecia um espinho, e então, naquele quarto, ele se abriu e parecia um guarda-chuva. O filme é, como disse um crítico, "uma ode à bondade perfeitamente afinada e executada". [1]

O ponto desta longa introdução é que o filme é uma ilustração rara e convincente do poder da fala para curar ou prejudicar. Segundo os Sábios, é disso que tratam Tazria e Metsorá. Tsara'at, a condição da pele cujo diagnóstico e purificação formam o coração das duas parashiot, era um castigo para lashon hará, falar mal de outros, e a palavra metsorá, para quem sofre da condição, era, disseram eles, um resumo da frase motsi shem rá, alguém que faz difamação. O principal texto de prova que eles trouxeram foi o caso de Miriam que falou mal de Moshé e, como resultado, foi atingida por tsara'at (Núm. 12). Moshé faz alusão a esse incidente muitos anos depois, exortando os israelitas a lembrarem-se: "Lembrem-se do que o Senhor seu D’us fez com Miriam ao longo do caminho depois que vocês saíram do Egito" (Deut. 24:9).

Judaísmo é, como já argumentei, uma religião de palavras e silêncios, falando e ouvindo, comunicando e atendendo. D’us criou o universo por palavras – "E Ele disse... e assim foi" – e criamos o universo social por palavras, pelas promessas com as quais nos vinculamos a cumprir nossas obrigações para com os outros. A revelação de D’us no Sinai foi de palavras: "Você ouviu o som das palavras, mas não viu forma; havia apenas uma Voz” (Deut. 4:12). Todas as outras religiões antigas tinham seus monumentos de tijolo e pedra; os judeus, exilados, tinham apenas palavras, a Torá que carregavam com eles aonde quer que fossem. A mitsvá suprema no Judaísmo é Shemá Israel, "Ouve, Israel". Pois D’us é invisível e não fazemos ícones. Nós não podemos ver D’us; não podemos cheirar D’us; não podemos tocar em D’us; não podemos provar D’us. Tudo o que podemos fazer é escutar na esperança de ouvir D’us. No Judaísmo, ouvir é uma arte religiosa elevada.

Ou deveria ser. O que Tom Hanks nos mostra ao interpretar Fred Rogers é um homem capaz de atender outras pessoas, ouvi-las, conversar gentilmente com elas de uma maneira que é poderosamente afirmativa, sem por um momento ser leniente ou assumir que tudo está bem com o mundo ou com eles. A razão pela qual isso é tanto interessante quanto importante é que é difícil saber como ouvir a D’us se não sabemos como ouvir outras pessoas. E como podemos esperar que D’us nos ouça se somos incapazes de ouvir os outros?

Toda essa questão da fala e seu impacto nas pessoas se tornou massivamente ampliada pela disseminação de smartphones e mídias sociais e seu impacto, especialmente nos jovens e em todo o tom da conversa pública.

O abuso online é a praga da nossa era. Isso aconteceu por causa da facilidade e impessoalidade da comunicação. Isso dá origem ao chamado efeito desinibição: as pessoas se sentem mais livres para serem cruéis e cruas do que em uma situação cara a cara. Quando você está na presença física de alguém, é difícil esquecer que o outro é um ser humano vivo, que respira, exatamente como você, com sentimentos como os seus e vulnerabilidades como as suas. Mas quando você não está, todo o veneno dentro de você pode vazar, com efeitos às vezes devastadores. O número de suicídios entre adolescentes e tentativas de suicídio dobrou nos últimos dez anos, e muitos atribuem esse aumento aos efeitos das mídias sociais. Talvez, mais do que em qualquer outra época, as leis de lashon hará sejam oportunas e necessárias.

A Beautiful Day in the Neighborhood (Um Lindo Dia na Vizinhança) oferece um comentário fascinante sobre um debate antigo no Judaísmo, discutido por Maimônides no sexto da sua obra Os Oito Capítulos, sobre o que é maior: o chassid, o santo, a pessoa que é naturalmente boa ou ha-moshel be-nafshó, alguém que não é naturalmente santo, mas pratica o autocontrole e suprime os elementos negativos em seu caráter. É precisamente essa questão, cuja resposta não é óbvia, que dá contornos ao filme.

Os Rabinos disseram algumas coisas graves sobre lashon hará. É pior do que os três pecados capitais – idolatria, adultério e derramamento de sangue – combinados. Mata três pessoas: quem fala, sobre quem se fala e quem o recebe.[2] Yosef foi alvo do ódio de seus irmãos porque falou negativamente sobre alguns deles. A geração que deixou o Egito teve negada a chance de entrar na terra porque eles falaram mal a seu respeito. Quem fala isso é considerado como um ateu.[3]

Acredito que precisamos das leis de lashon hará agora mais do que nunca praticamente. A mídia social está repleta de ódio. A linguagem da política tornou-se ad hominem[4]e vil. Parece que esquecemos as mensagens que Tazria e Metsorá ensinam: que falar mal é uma praga. Destrói relacionamentos, atropela cruelmente os sentimentos das pessoas, deprecia o espaço público, transforma a política em um duelo entre egos concorrentes e conspurca tudo o que é sagrado em nossa vida comum. Não precisa ser assim.

A Beautiful Day in the Neighborhood (Um Lindo Dia na Vizinhança) mostra como a boa fala pode curar onde a má fala fere.

Shabat Shalom

[1] Ian Freer, Empire, 27 January 2020.

[2] Arachin 16b.

[3] Arachin 15b.

[4] ad hominem é uma falácia identificada quando alguém procura negar uma proposição com uma crítica ao seu autor e não ao seu conteúdo.

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