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Como Derrotar a Violência Religiosa

Sexta-feira, 04 Dezembro, 2015 - 7:28

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Como Derrotar a Violência Religiosa

Credo do Estado Islâmico encarna o mal em nome de uma causa sagrada. Para derrotá-lo, temos de recuperar os valores que podem trazer judeus, cristãos e muçulmanos juntos

http://www.rabbisacks.org/how-to-defeat-religious-violence-wall-street-journal-excerpt-of-not-in-gods-name/

 

Por Jonathan Sacks

 

O Ocidente foi apanhado desprevenido pela ascensão do Estado Islâmico, como o foi uma década e meia atrás quando dos ataques da Al Qaeda e tal qual a União Soviética foi surpreendida pela determinação dos mujahedin do Afeganistão na década de 1980. Estes estão entre os piores fracassos de inteligência política nos tempos modernos, e as consequências foram desastrosas.

 

O despreparo não foi acidental. Aconteceu por causa de um ponto cego na mente secular: a incapacidade de enxergar o fundamental: o poder da religião de abalar o mundo, quando sequestrada pela política. Desde o surgimento da ciência moderna, os intelectuais foram convencidos de que a fé está na CTI, prestes a morrer, ou, ao menos, neutralizada pela exclusão da praça pública.

 

Mas nem todas as regiões do mundo passaram por este processo. Nem todas as religiões se permitiram ser excluídas da praça pública. E quando revoluções seculares falham, nós já deveríamos saber que podemos esperar contra-revoluções religiosas.

 

A Religião ultimamente tem exigido a nossa atenção, não como uma voz mansa e delicada, mas como um redemoinho. Se a profecia de Isaías, que as nações "transformarão as suas espadas em relhas de arado", deve ser cumprida, então a tarefa essencial agora é pensar sobre a conexão entre religião e violência.

 

Três respostas têm surgido nos últimos anos. A primeira: a religião é a principal fonte de violência. Portanto, se nós procuramos um mundo mais pacífico, devemos abolir a religião. A segunda: a religião não é uma fonte de violência. Ela pode ser usada por líderes manipuladores para motivar as pessoas a travar guerras, precisamente porque inspira as pessoas a heróicos atos de auto-sacrifício, mas a própria religião nos ensina a amar e perdoar, não odiar e lutar. A terceira: a religião deles, sim; a nossa, não. Somos pela paz. Eles são pela guerra.

 

Nenhuma dessas é verdadeira. Quanto à primeira, Charles Phillips e Alan Axelrod pesquisaram 1.800 conflitos em sua "Encyclopedia of Wars" (Enciclopédia de Guerras) e descobriram que menos de 10% deles envolviam religião. Uma pesquisa sobre "God and War" (Deus e a Guerra), encomendada pela BBC, descobriu que a religião desempenhou uma parte em 40% das grandes guerras ao longo dos últimos três milênios, mas, geralmente, uma parte menor.

 

A segunda resposta é equivocada. Quando grupos terroristas ou militares invocam guerra santa, definem sua batalha como uma luta contra Satanás, condenam descrentes à morte e cometem assassinatos ao mesmo tempo que declaram que "Deus é grande", é absurdo negar que eles estão agindo por motivos religiosos. Religiões buscam a paz, mas em seus próprios termos.

 

A terceira é um exemplo clássico de viés em grupo. Grupos, como indivíduos, têm uma necessidade de auto-estima, e eles vão interpretar os fatos para confirmar o seu sentimento de superioridade. O Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo se definem como religiões de paz, mas todos eles têm iniciado a violência em alguns pontos da sua história.

 

Minha preocupação aqui é menos a conexão geral entre religião e violência do que o desafio específico do extremismo religioso politizado no século 21. O ressurgimento da religião como uma força global pegou o Ocidente desprotegido e despreparado, pois o Ocidente estava sob o domínio de uma narrativa que contava uma história bastante diferente.

 

Diz-se que 1989, ano da queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, marcou o último ato de um drama prolongado em que primeiro, a religião, em seguida, a ideologia política, morreram depois de um período prolongado no CTI. A era do verdadeiro crente, religioso ou secular, tinha acabado. Em seu lugar haviam chegado a economia de mercado e o Estado democrático liberal, em que os indivíduos e seu direito de viver como eles escolheram tinham prioridade sobre todos os credos e códigos. Era o último capítulo de uma história que começara no século 17, a última grande era de guerras de religião.

During the First Crusade (1096-99), the Christian Knights of Saint John launch a cavalry charge against the Muslim Saracens, as rendered by Adolf Closs, ‘Ueber Land und Meer’ (1900).

Durante a Primeira Cruzada (1096-1099), os cavaleiros cristãos de São João lançam uma carga de cavalaria contra os sarracenos muçulmanos, como pintado por Adolf Closs, 'Ueber Land und Meer'(1900). FOTO: Mary Evans PICTURE LIBRARY / Everett Collection

 

O que os secularistas esqueceram é que o Homo sapiens é o animal em busca de significado. Se há uma coisa que as grandes instituições do mundo moderno não fazem, é fornecer significado. A ciência nos diz como, mas não o porquê. A tecnologia nos dá poder, mas não pode guiar-nos a respeito de como usar esse poder. O mercado nos dá opções, mas nos deixa sem instrução sobre a forma de fazer essas escolhas. O Estado democrático liberal nos dá liberdade para viver como nós escolhemos, mas recusa-se, em princípio, a nos orientar sobre a forma de escolher.

 

Ciência, tecnologia, mercado livre e o Estado democrático liberal nos permitiram alcançar conquistas sem precedentes no conhecimento, liberdade, expectativa de vida e riqueza. Eles estão entre as maiores conquistas da civilização humana e devem ser defendidos e valorizados.

 

Mas eles não respondem às três perguntas que cada indivíduo reflexivo vai perguntar-se em algum momento de sua vida: Quem sou eu? Por que estou aqui? Como, então, devo viver? O resultado é que o século 21 nos deixou com um máximo de escolha e um mínimo de significado.

 

A religião voltou porque é difícil viver sem significado. É por isso que nenhuma sociedade tem sobrevivido por muito tempo sem uma religião qualquer ou um substituto para a religião. O século 20 mostrou, brutal e definitivamente, que os grandes substitutos modernos para a religião — nação, raça, ideologia política — não são menos propensos do que ela para oferecer sacrifícios humanos a seus deuses substitutos.

 

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As tropas do Sultão otomano Mehmet II sitiam Constantinopla em 1453, como se vê nesta descrição turca do século 15. FOTO: IMAGEM DE AGOSTINI BIBLIOTECA/Granger, NYC

 

A religião que tem retornado não é a forma suave, calma e ecumênica, que nós, no Ocidente, temos cada vez mais vindo a esperar. Em vez disso, é a religião na sua forma mais contraditória e agressiva. É a maior ameaça à liberdade no mundo pós-moderno. É o rosto do que chamo de "mal altruísta" em nosso tempo: o mal cometido por uma causa sagrada, em nome de ideais elevados.

 

O século 21 será mais religioso do que o 20 por várias razões. A primeira é que, em muitos aspectos, a religião é melhor adaptada a um mundo de comunicação instantânea global do que são os Estados-nação e as instituições políticas existentes.

 

A segunda razão é o fracasso das sociedades ocidentais após a Segunda Guerra Mundial em dar uma resposta à mais fundamental das necessidades humanas: a busca de identidade. As grandes religiões do mundo oferecem significado, direção, um código de conduta e um conjunto de regras para a vida moral e espiritual de modos que o livre mercado e Ocidente democrático liberal não o fazem.

 

A terceira razão tem a ver com a demografia. A nível mundial, os grupos mais religiosos têm as maiores taxas de natalidade. Ao longo do próximo meio século, como Eric Kaufmann documentou em seu livro "Shall the Religious Inherit the Earth?" (O religioso herdará a Terra?), haverá uma enorme transformação na composição religiosa de grande parte do mundo, com a Europa a liderar o caminho. Com a única exceção dos EUA, o Ocidente não está a atender ao imperativo darwinista de passar seus genes para a próxima geração.

 

Isso não nos deixa outra opção senão a de reexaminar a teologia que leva a conflitos violentos em primeiro lugar. Se não fizermos o trabalho teológico, vamos enfrentar uma continuação do terror que tem marcado nosso século até agora, pois esse terror não tem outro fim natural.

 

O desafio não é apenas para o Islã, mas também para o Judaísmo e o Cristianismo. Nenhuma das grandes religiões pode dizer, em auto-conhecimento inabalável: "Nossas mãos nunca derramaram sangue inocente."

 

Afghan mujahideen battled Soviet troops after Moscow’s 1979 invasion of Afghanistan, Jan. 1980, Kunar Province, Afghanistan.

Mujahedin afegãos lutaram contra tropas soviéticas depois da invasão do Afeganistão em 1979, janeiro de 1980, a província de Kunar, no Afeganistão, em Moscou. FOTO: PASCAL MANOUKIAN/SYGMA/CORBIS

 

Como judeus, cristãos e muçulmanos, temos de estar preparados para fazer as perguntas mais incômodas. Será que o D'us de Abraão quer que Seus discípulos matem por Sua causa? Será que Ele exige sacrifícios humanos? Será que Ele Se alegra em guerra santa? Será que Ele quer que nós odiemos nossos inimigos e aterrorizemos os incrédulos? Será que lemos nossos textos sagrados corretamente? O que D'us está dizendo para nós, aqui, agora? Nós não somos profetas, mas somos seus herdeiros, e não estamos desprovidos de orientação sobre estas questões fatídicas.

 

Como alguém que valoriza a economia de mercado e as políticas democráticas liberais, eu temo que o Ocidente não entende plenamente o poder das forças que se opõem a ele. Paixões estão em jogo que são mais profundas e mais fortes do que qualquer cálculo de interesses. A Razão por si só não vai vencer esta batalha. Nem invocações de palavras como "liberdade" e "democracia". Para alguns, elas soam como ideais atraentes, mas para os outros, elas são o problema contra o qual eles estão lutando, não a solução que eles abraçariam.

 

Hoje, judeus, cristãos e muçulmanos devem estar juntos, em defesa da humanidade, da santidade da vida, da liberdade religiosa e da honra do próprio D'us. O confronto real do século 21 não será entre civilizações ou religiões, mas dentro delas. Será entre aqueles que aceitam e aqueles que rejeitam a separação entre religião e poder.

 

O que então devemos fazer? Devemos empregar o mesmo planejamento de longo prazo para o fortalecimento da liberdade religiosa como o que foi posto na propagação do extremismo religioso. Os defensores do Islã radical têm trabalhado por décadas para marginalizar as tradições mais abertas, graciosas, intelectuais e místicas que no passado foram a fonte da grandeza do Islã.

 

Essa tem sido uma estratégia notável por seu longo horizonte temporal, precisão, paciência e dedicação. Se queremos que a moderação e a liberdade religiosa prevaleçam, elas vão exigir nada menos que isso. Devemos treinar uma geração de líderes religiosos e educadores que abraçam o mundo na sua diversidade e textos sagrados em sua generosidade máxima.

 

Deve haver uma campanha internacional contra o ensino e a pregação de ódio. A educação em muitos países islâmicos permanece uma vergonha. Se as crianças continuam a ser ensinadas que os descrentes estão destinados ao inferno e que os cristãos e os judeus são o maior e o menor Satanás, se o rádio, televisão, sites e mídias sociais despejam um fluxo ininterrupto de paranoia e incitamento, então o artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, com o seu compromisso com a liberdade religiosa, não vai significar nada. Todas as intervenções militares no mundo não vão acabar com a violência.

 

Precisamos recuperar os valores absolutos que fazem o monoteísmo abraâmico ser a força humanizadora que foi o seu melhor: a santidade da vida, a dignidade da pessoa humana, os imperativos gêmeos de justiça e compaixão, a insistência sobre os modos pacíficos de resolução de conflitos, perdão pelas lesões do passado e devoção a um futuro em que todas as crianças do mundo possam viver juntas em graça e paz.

 

Estes são os ideais em que judeus, cristãos e muçulmanos podem convergir, alargando o seu abraço para incluir pessoas de outras religiões bem como as de nenhuma. Isso não significa que a natureza humana vai mudar, ou que a política vai deixar de ser uma arena de conflito. Isso só significa que a política continuará a ser política e não se tornará religião.

 

Young boys known as the ‘lion cubs’ hold Islamic State flags as they drill at a training camp in Tal Afar, northern Iraq, in a photo released on April 25 by a militant website.

Rapazes conhecidos como os 'filhotes de leão' seguram bandeiras do Estado Islâmico enquanto exercitam-se em um campo de treinamento em Tal Afar, norte do Iraque, em uma foto postada em 25 de abril por um site militante. FOTO: Associated Press

 

Precisamos também insistir no princípio moral mais simples de todos: o princípio do altruísmo recíproco, também conhecido como toma lá, dá cá. Ele dita: Assim como você se comporta com os outros, assim os outros se comportam com você. Se você quer respeito, você deve demonstrar respeito. Se você pede por tolerância, você deve demonstrar tolerância. Se você não quiser ser ofendido, então você deve se certificar de que você não ofende.

 

As guerras são vencidas por armas, mas precisa-se de ideias para ganhar uma paz. Ser um filho de Abraão é aprender a respeitar os outros filhos de Abraão, mesmo que o seu caminho não é o nosso, seu pacto não é o nosso, sua compreensão de D'us, diferente da nossa. A nossa humanidade comum deve preceder as nossas diferenças religiosas.

 

Sim, há passagens nas escrituras sagradas de cada um dos monoteísmos abraâmicos que, interpretadas literalmente, podem levar ao ódio, crueldade e guerra. Mas o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, todos contêm tradições interpretativas que, no passado, leram-nas no contexto mais amplo de convivência, no respeito pela diferença e na busca da paz, e podem fazê-lo hoje. O Fundamentalismo — texto sem contexto, e aplicação sem interpretação — não é fé, mas, uma aberração da fé.

 

Com a ascensão do Islã radical político, nosso mundo se tornou de repente perigoso não só para judeus, cristãos e outros, mas para os muçulmanos que se encontram no lado errado da divisão sunita-xiita. Haverá respostas militares e políticas, mas também deve haver também uma resposta religiosa, caso constrário, as demais irão fracassar.

 

Temos de criar uma geração de jovens judeus, cristãos, muçulmanos e outros para saber que não é piedade, mas sim sacrilégio matar em nome do D'us da vida, odiar em nome do D'us de amor, fazer guerra em nome do D'us de paz, e praticar crueldade em nome do D'us de compaixão.

 

Agora é a hora de dizermos o que não conseguimos dizer no passado: Nós somos todos os filhos de Abraão. Nós somos preciosos aos olhos de D'us. Somos abençoados. E para ser abençoado, ninguém tem que ser amaldiçoado. O amor de D'us não funciona dessa maneira. D'us está nos chamando para deixar ir-se o ódio e a pregação de ódio, e vivermos finalmente como irmãos e irmãs, fiéis à nossa fé e uma bênção para os outros, independentemente de sua fé, honrando o nome de D'us ao honrar a Sua imagem, a humanidade.

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