Cara Rachel, 
Sou casada com um homem bom e gentil, mas eu simplesmente não sinto mais o tipo de amor que deveria sentir em relação a ele. Eu me sinto presa e sinto que estou me forçando a ficar no casamento, pois não acho que o que deveria haver neste relacionamento esteja presente. Existe alguma coisa que você pode fazer quando você perdeu a paixão, quando você “caiu fora do amor”?
JM
Denver, CO
Caro JM,
É interessante, na verdade, esse conceito de 'cair' dentro e fora do amor. A própria palavra "queda" implica em algo duro, rápido e inevitável. Infelizmente, muito do modo como percebemos o amor é o que temos visto nos filmes. Nós vimos esses contos românticos um sem número de vezes ao longo de nossas vidas, com diferentes personagens e diferentes músicas de fundo. Mas, muitas vezes esquecemos que estes são os contos de fadas e não têm nada a ver com o que o amor realmente é.
Em hebraico, a palavra amor é "Ahava". Porque o hebraico é uma língua sagrada, a estrutura da palavra, até o nível de cada letra isolada, serve para definir sua essência. A raiz de Ahava é Hava, que literalmente significa oferecer ou dar. Ela também compartilha uma raiz com a palavra, Ahav, que significa nutrir, ou se dedicar completamente ao outro. Assim, a essência da palavra hebraica Ahava (amor) não é uma emoção, é uma ação. O amor em sua forma mais pura não é algo que nos acontece, é uma condição que nós criamos quando damos de nós mesmos.
Se olharmos para a palavra hebraica "dar", é "Natan". Que se soletra nun, taf, nun. Se você lê-la de trás para a frente ou da frente para trás, lê-se o mesmo. Implícita na palavra hebraica para “dar está a própria essência do que é dar. Quando nós damos, nós sempre recebemos de volta. É um lindo círculo e um segredo para criar o amor em qualquer relacionamento.
Para cultivar um sentimento de amor em um casamento é preciso trabalhar para isso. E conquanto o trabalho provavelmente terá que ser dividido entre vocês, temos que começar com nós mesmos. Um jovem uma vez perguntou a seu rabino por que o homem foi criado com dois olhos. "Com o olho esquerdo, você deve olhar para si mesmo, e veja onde você precisa melhorar a si mesmo. E com o olho direito, você deve olhar para os outros com amor, procurando sempre as suas melhores qualidades". Nós temos que estar dispostos a dar uma boa e honesta olhada em nós mesmos e ver onde está o nosso trabalho na relação.
Se você sente-se "sem amor", então tente fazer algo para ajudar a criá-lo. Tente realizar um ato de amor a cada dia para o seu marido e veja o que acontece. Pode ser algo tão simples como oferecer-se para levá-lo ao trabalho, ou fazer-lhe uma xícara de café, ou preparar um jantar especial que ele gosta, ou comprar um pequeno presente, ou vestir-se e oferecer-se para levá-lo para um encontro... A ideia é fazer algo só para ele, sem qualquer pensamento sobre o que você pode ou não ganhar em troca. Basta dar um pouco todos os dias e veja se isso traz quaisquer alterações nos seus sentimentos em relação a ele. Se ajudar você de alguma forma, você pode ver essa proposta como uma experiência, uma pequena “experiência de amor".
Recebemos o mandamento de "amar os outros como amamos a nós mesmos". Eu, pessoalmente, acho que é difícil entender como é possível amar algo mais do que amo a mim mesma. Eu faria quase qualquer coisa para mim. Mas, eu, como você, tenho uma filha. E eu sei que não há nada no mundo mais importante ou sagrado para mim. Não há nada que eu não faria ou daria por ela. Amá-la, não diminui o meu amor por meu marido, ou por minha mãe ou por meus amigos, ou até por mim mesma, porque o verdadeiro amor é desinteressado. É por isso que somos capazes de amar os outros como a nós mesmos, pois o verdadeiro amor se origina da alma, não do corpo. Quando nos aproximamos de amar outra pessoa a partir de um lugar mais profundo, um lugar além dos nossos desejos e necessidades físicas, nós somos capazes de tocar a própria essência do que é amar.
Quando olhamos para o amor como apenas mais uma das nossas necessidades corporais, necessidade de ser cuidada, de ser alimentada, da necessidade de intimidade, então ter amor pode ser difícil e intangível. Mas quando olhamos para o amor como transcendência que liga o nosso eu mais profundo a D-us e a todos ao nosso redor, então, estamos nos aproximando do amor a partir de um lugar impregnado com alma, um lugar altruísta. E é sobre isso tudo que o amor verdadeiro "ahava" é.
Você mencionou em sua carta que você ama o seu marido "como uma pessoa", que ele é "bom e ele é amável". Isso é um começo maravilhoso, um terreno fértil para crescer a partir daí. Esse tipo de amor que você descreve é o que os nossos rabinos chamam de “amor do tipo água ou calmo", como o tipo de amor que nós compartilhamos com um irmão ou uma irmã ou com uma criança, que vem fácil, porque ele é inato, previsível e sólido. Mas o amor que caracteriza a relação entre marido e mulher é chamado de "o amor ardente." É um amor que é adquirido, mas nem sempre esteve lá e nunca é consistente, casual ou calmo. Este é o nível que está faltando a você e o que você deseja alcançar.
Então, novamente, para trabalhar para esse objetivo, eu sugiro que você experimente uma ação amorosa a cada dia em relação ao seu marido e, por ora, não se preocupe tanto com "cair" no amor, se apaixonar. Concentre-se em "dar" o amor. Estou muito esperançosa de que o "crescer e subir" no amor vai se seguir.
Por favor, permaneça em contato e deixe-me saber sobre seu progresso. Desejo-lhe muita força, clareza e sucesso em seu empreendimento.
Rachel
