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Hambúrguer de Céluas-tronco.

Terça-feira, 20 Agosto, 2013 - 12:41

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Os cientistas demonstraram recentemente que agora podem tomar células-tronco de uma vaca e desenvolvê-las em hambúrgueres que parecem, transmitem a mesma sensação e (quase) o mesmo gosto da carne real. O que a lei judaica tem a dizer? Isso é considerado carne real? É casher?

Resposta:

Esta é uma questão fascinante que precisa ser estudada cuidadosamente por rabinos peritos, quando a questão se tornar mais prática e hambúrgueres de placas de Petri tornarem-se uma opção acessível. Mas aqui estão algumas reflexões preliminares sobre o assunto para lhe dar alguma perspectiva.

Carne do Céu

O que torna esta questão tão intrigante é que este é um exemplo de como os contos agádicos aparentemente fantásticos noTalmud estão se tornando hoje em dia em ponto de partida para novas perguntas haláchicas[1].

Na verdade, existe uma discussão no Talmud sobre se a carne que não provem de um animal é considerada casher, embora a origem da carne, neste caso, foi ainda mais miraculosa:

A história de Rabino Simeão ben Chalafta, que estava andando na estrada, quando leões o afrontaram e rugiram para ele. Então ele citou Salmos: "Os leões jovens rugem por presas e para pedir sua comida a D-us"[2] e dois pedaços de carne desceram [do céu]. Eles comeram um dos pedaços e deixaram o outro. Este, ele trouxe para a sala de estudo e propôs: É este pedaço de carne casher ou não? Os estudiosos responderam: "Nada impróprio desce do céu." Rabino Zera perguntou ao Rabino Abahu: "E se alguma coisa na forma de um burro descesse do céu?" Ele respondeu: "Você parece um yorod[3] se lamuriando, eles já não responderam que nenhuma coisa imprópria desce do céu?"[4]

Carne milagrosa aparece novamente no Talmud, embora desta vez feita pelo homem:

Rabino Chanina e Rabino Oshaia passavam todos shabatot[5] estudando o "Livro da Criação"[6] por meio do qual eles criaram um bezerro e o comeram.[7]

Mais tarde, ao discutir esta história, comentaristas debateram se tal animal exigiria shechitá (abate casher), a fim de ser comido.

Rabino Yeshayah Halevi Horowitz, conhecido como o Selá, escreve que este não é considerado um animal real e não precisa shechitá.[8]

Outros escrevem que, conquanto a interpretação técnica da lei bíblica não possa exigir que tal animal seja abatido conforme a shechitá, devido à proibição rabínica de "marit ayin" (não se envolver em atos que parecem enganosamente semelhantes à atividade proibida), seria necessário o abate ritual para que um espectador não pense se tratar de carne comum sendo consumida sem shechitá.[9]

Carne de proveta

Até agora temos discutido "carne milagrosa", que veio do céu ou foi criada por meios espirituais. Alguns comentaristas definiram esta carne como milagrosa porque ela não veio de um animal naturalmente nascido. Mas consideramos qualquer carne que não provem de um animal naturalmente nascido como "carne milagrosa"? Ou será que ela precisa vir através de um milagre real? Que tal carne de proveta, que vem a partir de células de animais reais? Neste caso, o ditado que "nenhuma coisa imprópria desce do céu", obviamente, não se aplica. Aqui estão algumas das questões que precisam ser exploradas:

As Células

O cientista extraiu as células de um animal real e as usou para crescer tecidos em uma placa de Petri. Se, – e este não é um pequena ‘se’ –, essas células forem consideradas suficientemente substanciais para ser chamadas de carne, então podemos estar diante de um problema. Além da proibição de comer um membro de um animal vivo[10], há uma lei adicional para não comer qualquer tipo de carne, que foi cortada de um animal vivo.[11]

Este é um problema para os não judeus, assim como os judeus, pois a Lei Noáquida[12] dita que os não judeus não podem comer nem mesmo uma pequena quantidade de carne que foi separada de um animal vivo.[13]

Para os judeus, se as células são consideradas carne de verdade, então, presumivelmente, teriam de ser extraídas de um animal casher que foi abatido de acordo com a lei judaica.

Outra consideração é que não há um conceito haláchico, "o produto de algo não casher é por si só não casher, e o produto do que é casher é ele próprio casher".[14] Embora à primeira vista isso parece implicar que as células precisam para vir de uma fonte casher, não é claro se a regra acima se aplica a células microscópicas que foram extraídas a partir de um animal.

O Produto

Na lei judaica, um alimento que contém apenas uma minúscula quantidade de um ingrediente não-casher ainda pode ser considerado casher, se o ingrediente não casher é anulado (geralmente) por pelo menos um fator de 60 para 1. À primeira vista parece que podemos aplicar esta regra para nosso cenário, uma vez que as células originais são ultrapassadas largamente pela "carne" produzida. No entanto, a halachá afirma que a regra acima não se aplica a um "davar hama'amid",um ingrediente que estabelece a forma do item. O ingrediente essencial jamais pode ser anulado, não importa quão pequeno ele seja[15]. Parece que a mesma regra aplicar-se-ia para as células que são essenciais ao crescimento da carne. Se elas não provêm de uma fonte casher, eles nunca poderiam ser anuladas, e tudo o que for criado com elas também não seria casher.

Como observado anteriormente, estes são apenas alguns pensamentos preliminares sobre o assunto. Qualquer decisão haláchica teria que vir de rabinos que são especialistas nesses assuntos

POR YEHUDA SHURPIN

O rabino Yehuda Shurpin responde a perguntas para Chabad.org, Pergunte ao rabino.

Mais artigos por Yehuda Shurpin.

http://www.chabad.org/library/article_cdo/aid/2293219/jewish/Is-the-Lab-Created-Burger-Kosher.htm

 


 

[1] Haláchicas = Relativas à lei judaica

 

 

[2] Salmo 104-21

 

 

[3] Rashi explica que esta é uma espécie de ave que parece estar sempre chorando e de luto. Alguns comentaristas explicam que ele pretendia advertir seu aluno rabino Zera por seu ascetismo excessivo. Rabino Abahu sentia que os muitos jejuns que o rabino Zera havia feito comprometeram sua clareza de espírito, sendo o presente caso um exemplo disso, veja Chavos Yair 152.

 

 

[4] Talmud Sanhedrin 59b

 

 

[5] Plural de shabat.

 

 

[6] Uma obra cabalística atribuída a Abraão, nosso antepassado.

 

 

[7] Talmud Sanhedrin 65b

 

 

[8] Shalaha Parashat Vayeishev. Ele cita este pedaço de Talmud em relação ao episódio da venda de Yosef por seus irmãos, os quais, alguns explicam, foi um castigo para Yosef. Pensando que ele havia visto os irmãos comendo o membro de um animal vivo, ele foi e denunciou isso a seu pai. No entanto, o Sela explica que, de fato, o animal que eles comeram era semelhante ao descrito no Talmud aqui, e, portanto, não era necessário o abate e também não é uma questão de Eiver min Hachai (Lei Noáquida –v. nota 12 – que proíbe ao ser humano comer um membro de um animal enquanto este ainda vive).

 

 

[9] Veja Pischei Teshuvá em Yoreh Deih 62:1

 

 

[10] Deuteronômio 12:23

 

 

[11] Êxodo 22:13

 

 

[12] Leis Noáquidas = Leis da época de Noé, promulgadas pelo Eterno para toda a humanidade, após o dilúvio.

 

 

[13] Maimônides, leis dos reis 9:10. Para saber mais sobre As Sete Leis de Noé, consulte As Sete Leis de Noé

 

 

[14] Talmud Bechoros 5b

 

 

[15] Shulchan Aruch, Yoreh Deiah 87:11

 

 

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