Por que a Lei da Torá Permite Poligamia?
Por Tzvi Freeman
Apenas para ampliar um pouco a sua pergunta, você vai notar que a Torá apresenta o paradigma original do matrimônio — o de Adão e Eva —, como monogâmico. Além disso, praticamente todos os casos de poligamia contados na Torá estão relacionados diretamente pela narrativa a algum tipo de calamidade — seja conflitos entre esposas concorrentes, como foi o caso com Hana e Penina[1], seja rivalizando entre meio-irmãos, e.g. filhos de Jacob [2] e os do rei David[3]. Até mesmo o próprio versículo[4] em que a Torá dá luz verde para a poligamia enquadra-a numa circunstância indesejável: "Se um homem tiver duas mulheres, uma amada e a outra odiada..."
Por que, então, criar espaço para problema? Se a união ideal de homem e mulher é uma relação exclusiva, por que "uma nação de sacerdotes e um povo santo" iriam transigir?
A resposta simples é que a Torá lida com a vida na terra, e toda a gama da vida social e da experiência humana ao longo de toda a história e geografia mundial é muito diversificada para ser restrita a um ideal estreito. Tomemos, por exemplo, uma sociedade agrária cuja população masculina foi dizimada pela guerra. Como as mulheres iriam sobreviver, e como a população iria se recuperar sem o mecanismo da poligamia? Da mesma forma, um homem casado com uma mulher estéril, que não poderia produzir filhos para ajudar no campo e defender o forte, iria encontrar-se mal colocado para sobreviver naqueles tempos. Em uma sociedade exclusivamente monogâmica, sua esposa iria encontrar sua posição insegura. Embora em circunstâncias normais ser "apenas uma dentre muitas" comprometa o valor de uma mulher como pessoa, nessas situações, uma licença para a poligamia é uma forma de compaixão.
O único caso de um rabino polígamo registrado no Talmud[5]fornece uma excelente ilustração: Rabi Tarfon casou com 300 mulheres. Por quê? Porque houve uma fome na terra. Mas o rabino Tarfon tinha muita comida, uma vez que ele era kohen e recebia os dízimos sacerdotais. Também é permitido à esposa de um sacerdote comer esses dízimos. Essas 300 mulheres ficaram muito felizes que a Torá permitiu a poligamia.
A Torá desencoraja o abuso dessa autorização — não apenas recontando as narrativas calamitosas acima mencionadas, mas também colocando exigências no marido. Para cada mulher extra, não importa quão humilde seja ela, um homem deve fornecer "alimentos, roupas e direitos conjugais" de acordo com as necessidades dela e conforme a capacidade dele, e iguais aos de quaisquer outras esposas.[6] Além disso, o marido deve fornecer alojamento separado para cada esposa. Divórcio requer o envolvimento de um escriba, e os sábios mais tarde instituíram a ketubá como mais um impedimento do divórcio. (Veja também "Por que o casamento judaico é tão unilateral?") Vemos que essas médidas foram de fato eficazes — poligamia nos círculos judaicos foi historicamente uma rara exceção.
Rara, mas, no entanto, necessária. Mesmo quando o Rabino Gershom e sua corte rabínica reuniram‑se para declarar a proibição da poligamia devido às condições de seu tempo (ver link anterior para saber mais sobre esta injunção), eles, no entanto, deixaram a porta aberta para circunstâncias especiais. Essa brecha provou-se vital em muitos casos — por exemplo, no caso de uma mulher que se tornou (D'us não o permita!) mentalmente incapacitada e não é halachicamente qualificada para receber um divórcio.
Você pode querer pensar na Torá como o DNA de um organismo altamente resiliente chamado de o povo judeu. Sempre que as circunstâncias mudam, este organismo olha de novo para seu DNA e encontra um código que permite uma modalidade adaptável. Há limites em abundância pela Torá afora, mas há margem de manobra suficiente para prover para toda a vida humana em qualquer situação que o planeta Terra possa atirar em você. A prova é, nós já passamos por tudo — nômades, agrários, civilizados, industriais, tecnológicos, e em todas as partes do mundo, e nós ainda estamos aqui, fortes como nunca.
Notas de Rodapé
[1] Samuel I cap. 1
[2] Gênesis cap. 37
[3] Reis I cap. 1.
[4] Deuteronômio 21:15.
[5] Talmud Yerushalaim, Yevamot 4:12.
[6] Êxodo 21:10

Francisco Roniclécio de Paiva Silva escreveu…