por Sara Simcha Beuthner
Já vou adiantando que não sou contra cães – nem contra baixinhos.
Tampouco vou falar sobre como proteger as crianças dos cachorros – nem sobre como proteger os cachorros... das crianças. Muitos são contra os cachorros e muitos (por que não?) – são contra as crianças...
O papel do “fiel amigo do homem” foi mudando durante os séculos. Na Idade Média os vemos nos campos, ajudando a manter o rebanho unido, controlando os animais e participando de caçadas, esporte preferido dos nobres.
Quando houve um acentuado êxodo da população do campo para a cidade, os cachorros foram junto. Suas principais moradias eram os quintais das casas. Lá, eles cuidavam das posses das famílias de seus donos, muitas vezes até
com suas próprias garras. A urbanização, a massificação das pessoas nas grandes cidades, foi isolando as pessoas cada vez mais. Não demorou muito para que estes simpáticos animais entrassem nas casas e conquistassem
seu lugar nela – como membros da própria família. Senhores respeitáveis alegaram que era a proteção da qual precisavam. Outros, queriam companhia para os filhos. Assim, os cães se transformaram nos pets preferidos.
Vocês conseguem imaginar uma família americana ou ocidental sem o seu cão? Merece até retrato na sala. Em abril deste ano, publicaram um artigo na revista Time intitulado: “Os últimos inimigos do Irã: os cachorros e seus donos”. Eles alegam que, além das doenças que os caninos transmitem, eles são considerados impuros pelo islã e ainda representam a abominável imitação da cultura ocidental. Através dos seriados de TV, os iranianos veem as crianças americanas (ou ocidentais) brincando nos parques com seus amigos caninos e as famílias tratando-os como adoráveis crianças.
Meu marido e eu, depois de casados, fomos morar no bairro paulista de Higienópolis, onde nasceu nosso primeiro filho. Como toda mãe coruja, saía a passear com meu rebento. Ele, o carrinho e eu. Depois de morar na Argentina e no bairro do Brooklyn, em Nova York, imaginava que iria me encontrar
com muitas mães passeando com seus filhinhos. Minha surpresa foi grande quando ia observando que quem levava essas preciosas crianças era, na maioria das vezes, as enfermeiras e as babás, vestindo roupas brancas.
Com certeza as mães trabalhavam fora de casa e alguém tinha que levar seus filhinhos para pegar sol. Frequentemente sentia pena destes indefesos bebês. As enfermeiras muitas vezes não eram aptas, nem eram muito “maternais” para cuidarem deles.
Devo confessar que nesta época eu não via com simpatia os cachorros.
Eles sujavam as calçadas, era difícil caminhar nelas. Também sofri muito por causa das pulgas que eles espalhavam em todo lugar – mas que cismavam em mostrar-se somente no Shabat, dia em que é proibido matar até mesmo um inseto.
Na época começou a moda de contratar rapazes para levar para passear vários cachorros ao mesmo tempo, mas a maioria dos pets ia acompanhada por senhoras e senhoritas muito elegantes. Será que eram as mães daqueles lindos bebês?
Baruch Hashem (graças a D’us) muita coisa tem mudado e em várias cidades já foram abertas creches, dirigidas por instituições judaicas. Elas contam com pessoas qualificadas e amorosas para cuidar de nossas joias mais preciosas.
Voltando às senhoras elegantes: era óbvio que muitas pessoas saíam com cachorros para serem vistas, para chamar a atenção; muitos cães eram enormes e ostentavam exuberantes cabeleiras.
Ainda assim eram as crianças que despertavam o maior número de sorrisos e comentários. Nessa época era comum assistir-se a uma cena como esta: Uma senhora, com uma criança de dois anos sentada no carrinho, se aproxima do jornaleiro e chama a sua atenção:
“Oi fulano! Esta é a minha filhinha Samanta, a minha Samantona querida”. Ela vira-se para a filhinha e diz: “Fala tchau-tchau para o senhor!” Imediatamente a nenenzinha dizia: “Tchau!”. “Que gracinha!”, comenta o jornaleiro, educado. Faz alguns meses, eu presenciei a seguinte cena no Leblon: Uma senhora de meia-idade ia junto com uma mais jovem, que estava levando um carrinho de bebê, dentro do qual estava sentada, confortavelmente, uma cadelinha.
Chegaram à banca de jornais e a senhora de meia-idade se dirige ao jornaleiro: “Oi fulano! Esta é a minha filhinha Samanta, a minha Samantona querida”. Ela vira-se para a cadelinha e diz: “Fala au-au para o senhor!” e a cadelinha late: “Au-au!”.
“Que gracinha!”, comenta o jornaleiro, educado. Hoje em dia, muitas pessoas tratam os cães como crianças, e até há os que escolhem se querem ter crianças ou cachorros. Sei que muitos de vocês vão “soltar os cachorros”, mas vejam bem: gosto de cães, acho eles fofinhos, contudo, eles não são crianças.
Os cachorros não reclamam, tudo para eles está ótimo. Conformam-se com pouco e estão sempre fazendo festa para os seus donos. Mas quem vai falar para vocês:
“Mãe! Você está linda!”
“Mãe! Sua comida está ótima! Parece
comida de restaurante!”
“Pai, você é tão inteligente!”
“Tio, como você é esperto! Nunca havia pensado nesta solução!”
Os filhos nos encorajam, mas, ao mesmo tempo, nos criticam. São eles que nos ajudam a amadurecer, a crescer espiritualmente, a atualizarmos-nos e a sentirmosnos sempre jovens:
“Mãe! Você falou demais!”
“Mãe! Não fale tão alto!”
“Vovó, você não entende nada de tecnologia. Deixa que eu te explico...”
“Tia, não compre esse sapato; é de velha!”
“Pai! Olhe como tá crescendo a tua barriga!”
Anos atrás paramos na calçada para observar um homem “fantasiado” de estátua. Ele realmente não se mexia. Meus filhos acharam engraçado. Quando estávamos por deixar o lugar, uma senhora com um cachorrinho se aproximou e ela exaustivamente tentava chamar a atenção do cachorrinho para a estátua viva. O cachorrinho movia o focinho e olhava na outra direção, e a dona começou a ficar nervosa, gritando: “Olhe o homem!” – e o cachorrinho nada de olhar. Meus filhos e eu fizemos um grande esforço para não rir da pobre mulher na nossa frente. Ela estava fazendo um papel ridículo, querendo comparar um cachorro com uma criança. A mulher puxava tanto a cólera do pobre cachorrinho que eu fiquei preocupada; ele ainda ia acabar mordendo o tal homemestátua...
Se não tiver sobrinhos, irmãozinhos, netinhos, enfim, adote uma criança (“peça emprestado”) por algumas poucas horas, toda semana. Participe de projetos como o Ten Lev, o Lar da Esperança, seja voluntário, e faça a diferença na vida de outras pessoas.
Rebetsin Sara Simcha Beuthner é Shlucha do Rebe no Rio e tem mestrado em pedagogia pela Universidad Nacional de Tucuman, Argentina
