Os emergentes
por Sara Simcha Beuthner
Era um visitante que, quando entrou pela primeira vez em casa, foi recebido com grande pompa e circunstância. Até os vizinhos vieram conhecê-lo. Todos queriam ver alguém tão sábio e bem informado. Os chassidim alegaram que ele era muito goishe, e fecharam-lhe as portas. Os intelectuais previram que, apesar de suas maneiras educadas e vasto conhecimento geral, nele se ocultavam inveja, ódio e violência.
Com a sua vinda, nossa vida familiar foi mudando. Na hora do jantar só se escutava a sua voz. Se eu ousasse falar, meu pai pedia para não interromper o nosso ilustre hóspede.
As reuniões familiares viraram monólogos. Só eram permitidas frases como: “Passe o sal! Não façam barulho! Me deixe escutar! Desliguem a luz!”
Vou lhes confessar que uma vez perdi a cabeça e não fui nada educada. Fiquei na frente dele, dando-lhe as costas e deixando-o falar sozinho.
Exigi, implorei para que me escutassem: Vocês são a minha família! Daqui a pouco vamos virar estranhos! Não estamos nos comunicando! Estamos desperdiçando um tempo precioso só escutando e falando dos outros!
Me sentia uma alienígena, um ET, uma incompreendida. Mas, Baruch Hashém, eu não estava sozinha. Descobri que outras pessoas repudiavam suas atitudes egoístas e declararam-lhe guerra...
Ele era membro de uma família que aumentava cada vez mais. Quase todos os seus ntegrantes encontraram lares dispostos a recebê-los calorosamente...
As crianças simpatizavam imediatamente com eles, pois sabiam muito bem do que as crianças gostavam. Os adultos os admiravam. Eram simpáticos, pareciam e inofensivos e até davam prêmios e entretiam.
Com a sua vinda, nossa vida familiar foi mudando. Na hora do jantar só se escutava a sua voz. Com o passar do tempo, tornaram-se excessivamente dominantes. Eles falavam para as crianças e adultos o quê comprar, como usar o tempo livre e até como pensar.
Apesar disso tudo, ninguém protestava. Como as crianças queriam exclusividade, passaram a levar os ilustres hóspedes para os seus quartos. Por fim, a sala voltava a ser o lugar das reuniões familiares – quando eles deixavam.
Com o passar dos anos, estes quase membros da família ficaram velhos e perderam o prestígio, mas não saíram de casa. Tentaram recuperar o seu terreno. Viraram babás, conselheiros, psicólogos, nutricionistas, médicos. Conheciam todas as liquidações e fomentavam o consumismo: Crianças! Comprem a nova sandália da Xuxa!
Meninos – saiu o novo relógio do Homem-Aranha! Eles decidiram mudar o seu visual. Ficaram maiores, mais esbeltos, mais slim e bonitos. E alguém com esta grandeza merecia estar no melhor lugar da casa. Paredes foram quebradas. Salas foram ampliadas. Colocaram lá uns sofás que mais pareciam camas. Até criaram móveis especiais em sua honra.
Muitas famílias começaram a convidar os amigos para compartilhar momentos agradáveis junto com seus hóspedes na sala reformada. Depois, as visitas foram diminuindo. Não eram mais novidade. Todos podiam ter estes emergentes na sua sala, no seu carro, no seu bolso ou na sua bolsa, onde fosse.
Agora eles reassumiram o poder em muitos lares. Eles não só têm as chaves das suas casas, como também as chaves de seus cérebros.Virou missão impossível expulsá-los. É uma família que cresce muito rápido. Estes emergentes não são nem bons nem ruins. São instrumentos que têm muitos “apelativos” e aplicativos.
Usando em demasia televisores, computadores, ipods, ipads, tablets, games etc. – estamos criando uma geração de meros espectadores, que preferem observar do que atuar. Preferem ficar envolvidos com as maquininhas do que agir diretamente com as pessoas, pois as maquininhas oferecem entretenimentos e gratificações imediatas. Ninguém vai saber que para se alcançar o êxito em algo se precisa de tempo e esforço.
E o pior de tudo é que podem provocar dependência e vício. A missão dos yehudim é transformar o material em espiritual. Usando a tecnologia podemos levar Torá a um maior número de pessoas.
Hoje contamos com numerosos e variados cursos de Torá on line.
O perigo desses meios está no fato deles também seres usados para vender tanto bens de consumo como ideias. Para nos proteger é bom ter um olhar crítico sobre o que vamos ver. Aliás, tudo o que entra em nossas casas deve passar pela nossa supervisão. Tudo tem que ser kasher...
Assim como escolhemos o quê a nossa família vai comer, é importante saber o quê vão ver e escutar.
Já recebi respostas do tipo: “O que há de tão errado?
É só um programa infantil, não faz mal!”
As pessoas não percebem que esses programas “inocentes” transmitem ideias e atitudes negativas, que as crianças acabam adotando.
Através de várias pesquisas, se constatou que as crianças tendem a imitar personagens bonitos, fortes, engraçados e carismáticos, sejam eles heróis ou anti-heróis, bons ou ruins.
Então o quê meus filhos vão ver? Calma. Existe uma ampla gama de filmes e outras mídias feitos por chassidim que estão preocupados em transmitir atitudes positivas e valores judaicos. Tudo isso com um visual atraente, um texto bem-humorado e uma trilha sonora envolvente.
Tente voltar para as atividades que já “saíram de moda”, como ler livros, aprender a tocar instrumentos musicais, cantar, pintar, cozinhar, visitar amigos etc.
E se apresse, pois esses gadgets estão virando um tsunami. Construa uma fortaleza. A minha é a Torá – que também pode ser a sua.
Até a próxima, se D’us quiser.
