Artigo
Domingo, 29 de julho, 2012
Por Sara Esther Crispe
Uma das minhas responsabilidades em Chabad.org inclui a aprovação de comentários de leitores. Sim, você sabe que quando alguém escreve um comentário ao final de um artigo, uma pessoa real tem que ler essa sua mensagem, ver se ela atende às nossas diretrizes de postagem, fazer as edições porventura necessárias, para só então carimbar um "aprovado" para publicação. Sou eu que faço isso.
Quase sempre, aprovar comentários dos leitores é uma parte bastante fácil e agradável do meu trabalho. É ótimo ver os múltiplos feedbacks, ver os leitores interagirem uns com os outros, e testemunhar como a vida das pessoas pode ser elevada, inspirada, e às vezes até mesmo transformada por algo que leem.
Agora, temos as nossas regras, e se um comentário é racista, ou ofensivo, ou de alguma outra forma indigno, não vamos publicá-lo. Mas se o comentário está demostrando que seu autor é imaturo, ou irresponsável, ou está redondamente enganado,... se o insulto foi escrito de forma respeitosa o bastante,... ele será aprovado. Porque, quer nós gostemos ou não de sua opinião, você tem o direito de expressá-la.
E adivinhem? Alguns desses comentários machucam.
Sim, eu estou aqui para lhes dizer que sou uma pessoa real, com sentimentos reais, e suas palavras podem me machucar muito. Sei que eu estou escrevendo para poucos. Felizmente, muitos de vocês escrevem palavras muito gentis de apoio e encorajamento e até me elogiam de formas que não sinto merecer. E embora eu possa racionalizar e intelectualizar e dizer a mim mesmo repetidas vezes que eu deveria simplesmente ignorar aqueles comentários cruéis, eu realmente não posso! E não acho que qualquer outra pessoa honesta, ou que se preocupa com o próximo, possa.
O que me espanta é que as pessoas achem que podem digitar um comentário e pressionar "enviar" com palavras – que eu me arrisco a conjecturar – não me diriam cara a cara nem em um milhão de anos. E, no entanto, é exatamente o que elas estão fazendo. Eu não só tenho de lê-los, mas ainda tenho que aprová-los também! Deixando isso de lado, por favor, saibam o poder das palavras que vocês escrevem.
Somos mais propensos a acreditar no mau do que nós somos, no bom. Tenho uma amiga que é uma celebridade; ela tem um blog muito popular. Em sua página no Facebook, ela tem dezenas de milhares de amigos. E, no entanto, recentemente, ela parou de responder aos comentários. Aqui estamos diante de uma pessoa extremamente talentosa, educada, realizada e famosa, mas, sim, os comentários de gente que ela não conhece e com quem ela provavelmente nunca irá se encontrar, atingem-na também. Por quê? Porque quando alguém diz ou escreve algo cruel, dói. Independentemente de quem ele é.
Há um lindo conceito na filosofia chassídica que compara nossa boca a um arco. Quando abrimos a nossa boca, nossa língua dispara setas à frente. Essas setas podem ser flechas de amor (pense no cupido) ou setas que podem matar. E a realidade é que estamos mais propensos a acreditar no mau do que no bom. Quando alguém diz algo agradável, há duas possibilidades: ela realmente teve a intenção de dizê-lo, ou ela não teve. Todos nós sabemos que às vezes dizemos coisas para sermos agradáveis, mesmo que não sejam completamente verdadeiras. "Você está tão bonita", "É tão bom ver-te!". A pessoa normal, amigável, vai dizer muitas coisas "agradáveis". Mas quando alguém o insulta, você não pensa: "Hmmm, acho que ela realmente deve gostar de mim, mas só não disse isso..." Ah, não, isso não. Ela quis dizer exatamente aquilo que disse.
Assim, quando eu recebo aqueles comentários elogiosos e agradáveis, eu, de fato, acredito neles. Eu realmente acredito. Afinal, eu não acho que você iria desperdiçar o seu tempo para escrever um comentário só por escrever. Mas quando eu recebo aquele comentário cruel, eu realmente acredito nele. Porque eu sei que você não teria tomado seu tempo para escrever esse comentário, se você realmente não sentisse a necessidade de compartilhar o seu aborrecimento, sua decepção, ou até mesmo, sua raiva. Mas mais ainda, quando vejo o seu comentário, eu me pergunto quantos outros sentem da mesma forma e só não tomaram o tempo para partilhar os seus pensamentos. E assim eu começo a duvidar, a me preocupar, e aí vem a pior parte ... aquele comentário negativo consegue superar os positivos.
Por que estou compartilhando isso? É meu objetivo fazer você se sentir mal se você já postou um comentário não tão bom? Não (ok, bem, talvez). Mas é mais do que isso. É para lembrar a você, e a mim, e a todos nós, que a cada vez que abrimos a boca, ou pressionamos "enviar", estamos nos conectando e comunicando com pessoas reais, que têm sentimentos reais. Ninguém deve esconder-se atrás do teclado, em ambos os lados, e fingir que essas palavras não estão pousando em corações reais. Nós precisamos pensar sobre isso. Precisamos reconhecer que não é fácil para ninguém se expor e compartilhar de seus pensamentos e sentimentos mais íntimos. Isso significa que todos precisam concordar? Claro que não. Isso significa que há algo errado em respeitosamente compartilhar uma crença ou opinião contrastante? Vá em frente! Mas isso não significa que alguém possa se esconder atrás do teclado, em qualquer extremidade, e fingir que essas palavras não estão pousando em corações de verdade. Elas estão.
Portanto, antes de pressionar "enviar", pense sobre o poder de suas palavras e como o que você diz será sentido e ouvido por aqueles que leem-no. Pergunte a si próprio como se sentiria se alguém lhe dissesse o que você está prestes a dizer ao outro. Lembre-se, essas palavras são flechas. Cabe a você decidir se eles serão flechas de amor ou flechas cheias de veneno. Suas palavras. Sua escolha. Por favor, escolha sabiamente.
