
Sementes podres – O Milagre de Komemiyut
Meu nome é Dov Weiss, e eu fazia parte do grupo de cerca de trinta homens religiosos jovens que iniciaram o assentamento agrícola Moshav Komemiyut, no sul de Israel. Foi em 1950, depois de termos concluído o nosso serviço militar. Eu ainda era solteiro então. Entre os fundadores também estava o conhecido estudioso da Torá e autoridade rabínica rabino Benyamin Mendelson, de abençoada memória. Ele já havia imigrado para Israel da Polônia, e tinha servido como o rabino de Kfar Ata.
No início, viviam em tendas, no meio de um deserto estéril.
No início, vivíamos em tendas, no meio de um deserto estéril. Os assentamentos mais próximos aos nossos eram vários kibutzim associados com o movimento de esquerda Hashomer Hatzair: Gat, Gilon e Negba. Vários de nossos próprios membros se sustentavam trabalhando no Kibutz Gat, o mais próximo de nós, fazendo diferentes tipos de trabalho manual. Outros trabalhavam na agricultura, plantando trigo, cevada, centeio e outros cereais e leguminosas. Eu dirigia um trator. Nossos produtos, que cresciam ao longo dos cerca de 15 mil dunam [1.500 hectares] a nós atribuídos, vendíamos para padarias e fábricas.
Naquela época, não havia ainda as tubulações de água chegando ao nosso moshav. Tínhamos que nos contentar com o que podia ser cultivado em áreas secas, áridas. A cada poucos dias, tínhamos que fazer uma viagem para o Kibutz Negba, cerca de 20 quilômetros distante, para encher grandes recipientes com água potável.
Nosso segundo ano lá, 5711 no calendário judaico (outono 1950-verão 1951) era o ano da shemitá, que ocorre a cada sete anos, no qual a Torá nos comanda desistir de todo o trabalho agrícola (veja Levítico 25:1-7). Estávamos entre os poucos assentamentos naquela época em Israel a observar as leis do ano sabático e abster-se de trabalhar a terra. Em vez disso, concentramo-nos na construção, e conseguimos naquele ano completar grande parte das habitações permanentes. O moshav gradualmente desenvolveu-se e ampliou-se, e mais e mais famílias se mudaram, assim como um número de jovens solteiros. Até o final do ano, já contávamos cerca de oitenta pessoas.
À medida que o ano sabático chegava ao seu término, preparamo-nos para reiniciar nossas atividades agrícolas. Para isso, precisávamos de sementes para semear culturas, mas para este propósito nós poderíamos usar apenas o trigo do sexto ano, o ano que precedeu a shemitá, pois a produção do sétimo ano é proibida para este tipo de uso. Nós andamos por todos os assentamentos agrícolas da região, próximos e distantes, em busca de sementes de boa qualidade, obtidas a partir da colheita do ano anterior, mas ninguém podia cumprir o nosso pedido.
Tudo que nós fomos capazes de encontrar foi uma partida de uma velha semente carcomida...
Tudo que nós fomos capazes de encontrar foi uma partida de uma velha semente carcomida que, por razões que nunca ficaram claras para nós, estava abandonada em um galpão de armazenamento no Kibutz Gat. Nenhum agricultor de nenhum lugar do mundo consideraria em seu juízo perfeito a possibilidade de usar para plantio sementes de má qualidade como aquelas, não se esperasse ver qualquer colheita a partir delas. Os kibutzniks de Gat todos irromperam em altas gargalhadas de deboche quando revelamos que estávamos realmente interessados naqueles grãos infestados que tinham estado apodrecendo por alguns anos em algum canto obscuro.
"Se vocês realmente estão interessados, podem levar tudo o que quiserem, e de graça, com os nossos cumprimentos", eles ofereceram em meio às risadas.
Nós consultamos o rabino Mendelson. Sua resposta foi: "Levem-nas. Aquele que diz para o trigo brotar da boa semente também pode ordená-lo a crescer a partir de restos de semente inferior, carcomida".
De qualquer forma, não tínhamos alternativa. Então, carregamos em um trator toda a velha semente infestada que o kibutz tinha oferecido a nós gratuitamente e voltamos para Komemiyut.
As leis da shemitá nos proíbem de arar e revolver a terra até depois Rosh Hashaná, o início do oitavo ano, então nós não conseguimos realmente semear as sementes antes do próximo mês, Marcheshvan. Isso foi dois ou três meses depois que todos os outros agricultores já tinham completado o plantio.
Naquele ano, as chuvas chegaram tarde. Os agricultores de todos os kibutzim e moshavot olhavam para os céus ansiosamente aguardando pela primeira chuva. Eles começaram a sentirem-se desesperados, mas o céu permanecia impassível, azul e sem qualquer brisa.
Finalmente, choveu. Quando? No dia seguinte à conclusão do plantio de nossos campos de trigo com essas sementes bichadas, o céu se abriu e as chuvas caíram torrencialmente até saturar a terra ressecada.
Nos dias seguintes estávamos nervosos em antecipação, mas voltamos nossa atenção para fortalecer a nossa fé e confiança no Eterno. De qualquer forma, não demorou muito tempo para que a mão do Todo-Poderoso fosse revelada claramente a todos. Naqueles campos de trigo que foram plantados durante o sétimo ano, meses antes da primeira chuva, brotaram apenas cultivos pequenos e fracos. Ao mesmo tempo, os nossos campos, semeados com semente velha e infestada, e muito tempo após a estação adequada, estavam cobertos com um espigas invulgarmente grandes e saudáveis de trigo, em comparação com qualquer padrão.
A história do "Milagre de Komemiyut" espalhou-se rapidamente.
A história do "Milagre de Komemiyut" espalhou-se rapidamente. Agricultores de todas as colônias agrícolas no Sul vieram para ver com seus próprios olhos, pois não podiam acreditar quando ouviram os rumores sobre o dito “Milagre de Komemiyut”.
Quando os agricultores do Kibutz Gat chegaram, eles aprontaram-nos uma surpresa. Depois de olhar com espanto e boquiabertos a impressionante, abundante quantidade de trigo florescente em nossos campos, cultivado a partir das sementes infestadas que tinham nos fornecido, eles decidiram renegar sua generosidade. Eles anunciaram que queriam o pagamento daquela carga de trigo velho e podre que haviam desdenhosamente nos dado de graça apenas um curto período de tempo antes.
Ainda mais surpreendente: eles disseram que iriam fazer uma reclamação contra nós num Beit din, o tribunal rabínico, e com o próprio rabino Mendelson, ninguém menos! Provavelmente eles perceberam que em um tribunal secular tal pleito não teria chance de ganhar-lhes nem ao menos um único centavo sequer.
O Rabino Mendelson aceitou o caso a sério, e, no final, julgou que devíamos pagá-los. Sua explicação foi que a razão pela qual eles deram as sementes de graça era porque penavam que fosse inútil para o plantio, enquanto na verdade ele realmente era excelente para esse fim. Ficamos espantados ao ouvir a sua decisão, mas desnecessário dizer, que a obedecemos à risca.
A história toda se tornou um extraordinário kidush Hashem, uma glorificação do Eterno, aos olhos das pessoas em todo o país. Todos concordaram que era um claro cumprimento da promessa de D’us na Torá:
E se você disser: "Que comeremos no sétimo ano? Eis que não devemos plantar, nem colher a nossa produção! Eu mandarei a minha bênção para você. . . "(Levítico 25:20-21)
Nota do Tradutor (do texto original para o Inglês):
Se você estiver em Israel nos meses que antecedem a Páscoa, uma visita à fábrica de matsot do Moshav Komemiyut vale a pena, mesmo que seja só para ver. A qualidade da sua matsá shmurah feita à mão é famosa mundialmente.

Samua de Brito Paiva escreveu…