Sobre Humildade
Rabino Jonathan Sacks
Como as virtudes mudam! Moisés, o maior herói da tradição judaica, é descrito pela Bíblia como "um homem muito humilde, mais humilde do que qualquer outra pessoa na face da terra." Pelos padrões de hoje ele claramente foi mal aconselhado. Ele deveria ter contratado um agente, acentuado a sua imagem, deveria ter deixado escapar algumas indiscrições calculadas sobre suas conversas com o Todo-Poderoso e vendido sua história para a imprensa para um valor de seis dígitos. Com alguma sorte, poderia ter por fim seu próprio show de televisão de entrevistas, dispensando sabedoria para aqueles dispostos a desnudar sua alma para os milhões de espectadores. Ele teria seus quinze minutos de fama. Em vez disso, ele teve de se contentar com a consolação menor de três mil anos de influência moral.
Humildade é a virtude órfã de nossa época. Charles Dickens deu-lhe um golpe mortal em seu retrato do obeso Uriah Heep, o homem que não parava de dizer: "Eu sou a pessoa mais ‘umilde". Sua morte, porém, veio um século mais tarde, com anonimato ameaçador da cultura de massa junto com a perda de bairros e congregações. Uma comunidade é um lugar de amigos. A sociedade urbana é uma paisagem de estranhos. No entanto, há uma vontade irreprimível de reconhecimento humano. Assim, uma cultura emergiu das várias formas de "fazer uma declaração" para pessoas que não conhecemos, mas que, esperamos, irão de alguma forma perceber. Crenças deixaram de ser coisas confessadas em oração e tornaram-se slogans estampados em t-shirts. Um repertório abrangente desenvolvido da sinalização da individualidade, de números de placas personalizados até a moda casual chic dos milionários excêntricos, grifes usadas por fora, não por dentro. Você pode traçar uma completa transformação cultural na medida que avança de renome para a fama, da fama para a celebridade, para ser famoso por ser famoso. O credo da nossa idade é: "Se você tem isso, ostentá-o." A humildade, ser humilde, não teve a menor chance.
Isto é uma vergonha. Humildade – a verdadeira humildade – é uma das virtudes mais expansivas e realçadoras da vida. Isso não significa desprezar a si mesmo. Isso significa valorizar as outras pessoas. É sinal de uma certa abertura à grandeza da vida e de vontade de ser surpreendido, elevado, pela bondade onde quer que se encontre. Eu aprendi o significado de humildade do meu falecido pai. Ele tinha vindo a este país com cinco anos de idade, fugindo da perseguição na Polônia. Sua família era pobre e ele teve que deixar a escola na idade de 14 para sustentá-la. Qual educação que ele tenha tido, foi em grande parte autodidata. No entanto, ele amava excelência, em qualquer campo ou forma que viesse. Ele tinha uma paixão por música clássica e pintura, e seu gosto pela literatura era impecável, muito melhor que o meu. Ele era um entusiasta. Ele tinha – e isso era o que eu tão apreciava tanto nele – a capacidade de admirar. Isso, eu acho, é o que a maior parte da humildade é, a capacidade de estar aberto para algo maior que si próprio. Falsa humildade é a pretensão de que se é pequeno. A verdadeira humildade é a consciência de estar na presença da grandeza, que por isso mesmo é a virtude dos profetas, aqueles que sentem mais vivamente a proximidade de D-us.
Como um homem jovem, cheio de perguntas sobre a fé, eu viajei para os Estados Unidos, onde, eu tinha ouvido falar, havia rabinos proeminentes. Eu conheci muitos, mas eu também tive o privilégio de conhecer o maior líder judeu de minha geração, o Lubavitcher Rebe, o rabino Menachem Mendel Schneerson. Herdeiro da liderança dinástica de um grupo relativamente pequeno de místicos judeus, ele havia fugido da Europa para Nova York durante a Segunda Guerra Mundial e tornou os restos esfarrapados do seu rebanho em um movimento mundial. Onde quer que eu viaje, eu ouço contos de sua extraordinária liderança, muitos beirando o milagroso. Ele era, me foi dito, um dos grandes líderes carismáticos do nosso tempo. Resolvi conhecê-lo se pudesse.
Assim eu fiz, e fiquei completamente surpreso. Ele certamente não era carismático em qualquer sentido convencional. Silencioso, discreto, modesto, poderia passar despercebido, não fosse a reverência na qual ele era mantido por seus discípulos. Essa reunião, porém, mudou a minha vida. Ele era uma figura mundialmente conhecida. Eu era um estudante anônimo de cinco mil quilômetros de distância. No entanto, na sua presença, eu parecia ser a pessoa mais importante do mundo. Ele me perguntou sobre mim, ele ouviu atentamente, ele me desafiou a tornar-me um líder, algo que eu nunca havia pensado antes. Rapidamente tornou-se claro para mim que acreditava em mim mais do que eu acreditava em mim mesmo. Quando saí da sala, ocorreu-me que ela estivera cheia de minha presença e de sua ausência. Talvez seja isso o que significa escutar, considerado como um ato religioso. Eu soube então que a grandeza é medida por quanto nós apagamos de nós mesmos. Não havia grandiosidade nas suas maneiras, nem havia qualquer falsa modéstia. Ele era sereno, digno, majestoso, um homem de humildade transcendente, que recolhia você em seu abraço e lhe ensinava a olhar para cima.
A verdadeira virtude nunca precisa anunciar-se a si mesma. É por isso que eu acho o pacote de personalidade agressiva tão triste. Ela fala de solidão, a profunda e endêmica solidão de um mundo sem relações de fieldade e confiança. Ele atesta, em última análise, uma perda de fé – uma perda desse conhecimento, tão precioso para as gerações anteriores, que além das superfícies visíveis deste mundo há uma Presença que nos conhece, nos ama, e toma conhecimento de nossas ações. O que mais, seguros neste conhecimento, poderíamos precisar? Uma e outra vez, quando da realização de um funeral ou da visita aos enlutados, eu descobri que o falecido tinha levado uma vida de generosidade e bondade desconhecida até mesmo para parentes próximos. Cheguei à conclusão – algo que eu nunca sonhara antes que tivesse me sido dada esta janela para mundos privados – que a grande maioria dos atos santos ou generosos é feita em silêncio, sem desejo de reconhecimento público. Isso é humildade, e que gloriosa revelação é do espírito humano.
Humildade, então, é mais do que apenas uma virtude: é uma forma de percepção, uma linguagem na qual o "eu" está em silêncio para que eu possa ouvir o "Tu", a chamada não-dita sob a fala humana, o sussurro Divinlo dentro de tudo que se move, a voz da alteridade que me chama para resgatar a sua solidão com o toque de amor. A humildade é o que nos abre para o mundo.
E importa que ela já não se encaixa nos limites da nossa época? A verdade é que a beleza moral, como a música, sempre emociona aqueles que podem ouvir sob o ruído. Virtudes podem estar fora de moda, mas elas nunca estão obsoletas. As coisas que chamam a atenção para si mesmas nunca são interessantes por muito tempo, razão pela qual a duração de nossa atenção encurta a cada ano. Humildade – o antípoda de "anúncios para mim" – nunca falha em deixar a sua fosforescência. Sabemos disso depois que ficamos na presença de alguém em quem a presença Divina respira. Sentimo-nos afirmados, alargados, e com boa razão. Pois nós encontramos alguém que, não levando a si a sério absolutamente, mostrou-nos o que é levar com a maior seriedade aquilo que não é Eu.

Samua de Brito Paiva escreveu…