Nota do tradutor: A seguir estão trechos do diário e conversas transcritas em que o sexto Rebe, Rabi Yossef Yitschac Schneerson (1880-1950), descreve a educação que recebeu de seu pai, o quinto Rebe, Rabi Shalom Dov Ber Schneersohn (1860 -1920).
Quando eu tinha quatro anos de idade, perguntei ao meu pai: "Por que D’us fez as pessoas com dois olhos? Por que não com um olho, assim como elas têm um nariz e uma boca? "
"Você conhece o alef-bet?", perguntou Papai.
"Sim".
"Então você sabe que há duas letras hebraicas muito semelhantes, o shin e o sin. Você pode dizer a diferença entre elas?"
"O shin tem um ponto em seu lado direito, o sin, à sua esquerda", eu respondi.
Papai disse: "Há coisas que se deve olhar com um olho direito, com carinho e empatia, e há coisas a serem consideradas com um olho esquerdo, com indiferença e desapego. Em um sidur (livro de orações) ou um judeu, deve-se olhar com um olho direito, em um doce ou um brinquedo, deve-se olhar com um olho esquerdo".
No ano de 5644 [1884, Rabino Yossef Yitschac tinha 3 ou 4 anos de idade na época] nossos aposentos consistiam de dois quartos. Um deles era o quarto de dormir. No outro, meu pai sentava-se e estudava com seu parceiro de estudo, o chassid Rabino Yaacov Mordechai Bezpalov. Neste outro quarto também estava minha pequena cama.
Naqueles anos, eu era uma criança bonita, com um rosto radiante. Uma noite, o Rabino Yaakov Mordechai olhou para mim em meu sono e comentou com meu pai que as características e brilho do meu rosto indicavam uma pureza interior da mente.
Meu pai foi tomado pelo desejo de me beijar. Mas, naquele momento, surgiu em sua mente o pensamento de que no Templo Sagrado, além dos korbanot, eles também traziam ouro, prata, etc, para a manutenção do Templo. Ele decidiu transformar o beijo em um maamar (discurso de ensinamento chassídico). Ele, então, escreveu o maamar intitulado Mah Rabbu Maasecha.
Em 5652 [1892], meu pai me deu o manuscrito como um presente e disse: "Este é um beijo chassídico; no devido tempo, vou lhe explicar". Em 5656 [1896], ele me contou toda a história.
...lembrei-me então como, quando ainda era uma criança pequena, estudando com o falecido Reb Yekutiel o Melamed, eu corria para a sinagoga para ouvir Papai orar, e quão pesado meu coração ficava: Por que Papai não reza rapidamente, como toda a congregação faz, como meus tios fazem? Uma vez eu perguntei por que era assim, e meu tio, o Rabino Zalman Aharon, disse-me que o Papai não conseguia pronunciar as palavras hebraicas facilmente. Sofri muito por conta disso.
Uma vez, eu vim para a sinagoga. Nem uma alma se encontrava, só Papai estava em pé, com o rosto para a parede, orando. Ele está pedindo a D’us, ele está implorando por misericórdia. Mas eu não entendo: Por que ele está pedindo mais do que todos os outros fiéis? Por que ele precisa da misericórdia de D’us mais do que as outras pessoas?
De repente, Papai começou a soluçar. Meu coração se afundou dentro de mim: Papai está chorando! Nem uma alma na casa de D’us, e Papai está chorando. Inclinei-me para ouvi-lo dizer: “Shema Yisrael”...e ele soluça, “Hashem Elokeinu...”, e mais soluços. Ele, então, fica em silêncio. E, novamente, em uma voz poderosa emergindo das profundezas do seu coração, “Hashem Echod!” em uma torrente de lágrimas e uma voz assustadora.
Desta vez, eu já não pude mais me conter. Fui ter com minha mãe (possa ela viver por muito tempo) e chorei: "Por que Papai reza mais do que todos os fiéis? Meu tio Raza diz que Papai tem dificuldade para pronunciar as palavras. Por que meu pai não pode recitar hebraico em uma velocidade adequada? E hoje eu vi que Papai está chorando, venha comigo, Mãe, vou mostrar-lhe que Papai está chorando...!"
"O que posso fazer?", redarguiu minha mãe. "Posso enviá-lo para o chêder? Vá para a sua avó e peça a ela; talvez ela possa fazer algo sobre isso."
Corri para seguir o conselho da minha mãe e fui à minha falecida avó, a santa Rebbetzin, e formulei a ela minha pergunta inocente. Minha avó me disse: "Seu pai é um grande chassid e tzaddik. A cada palavra que ele profere, primeiro ele pensa no significado da palavra que ele está dizendo."
Eu me lembro como, naquele momento, ela me acalmou, e como a partir de então a minha atitude em relação a meu pai mudou, porque eu então sabia que Papai está além e acima de outros homens. Em cada movimento dele, eu vi que Papai é Papai. Papai acorda de manhã e coloca o tefilin e lê o Shema. Em seguida, ele vai servir o chá para sua mãe (também queria fazê-lo, mas eles me impediram, dizendo que eu iria me queimar com a água fervente).
Papai lava as mãos antes das refeições, mas não como as outras pessoas. Outras pessoas derramam água sobre as mãos apenas duas vezes, mas Papai pega o jarro com a mão direita, em seguida, passa o jarro para sua mão esquerda, e derrama três vezes seguidas sobre a mão direita, então ele toma outro jarro de água e, usando a toalha para mantê-lo em sua mão direita, derrama três vezes sobre sua mão esquerda.
Todos os dias, antes das orações da tarde, Minchá, Papai novamente vai servir uma xícara de chá para sua mãe, e fica lá por cerca de uma hora. Todo mundo fala, fala com entusiasmo, mas Papai é mais silencioso. Às vezes ele fala, falando baixinho.
Quando eu era uma criança pequena, apenas começando a falar, meu pai me disse: "Toda dúvida que você tiver, você deve me perguntar."
Quando me ensinaram a recitar o Modeh Ani, fui instruído a colocar uma mão de encontro à outra, a inclinar minha cabeça, e a dizer Modeh Ani nesta posição.
Quando cresci um pouco mais, eu perguntei ao meu pai: "Por que quando dizemos Modeh Ani, devemos colocar uma mão contra a outra e curvar nossa cabeça?"
Papai respondeu: "Na verdade, você não devia estar se perguntando ’por que’. Mas eu, de fato, lhe disse para me perguntar todas as suas dúvidas". Ele, então, mandou chamar o servo Reb Yosef Mordechai, um judeu de 80 anos, e lhe perguntou: "Como você recita o Modeh Ani pela manhã?"
"Eu coloco uma mão contra a outra e inclino minha cabeça", respondeu Reb Yosef Mordechai.
"Por que você faz isso?", perguntou o meu pai.
"Eu não sei. Quando eu era uma criança pequena, isto é o que me foi ensinado."
"Você vê", disse Papai para mim. "Ele faz isso porque seu pai lhe ensinou isso. E assim por diante para trás até Moisés nosso Mestre, e até o nosso pai Abraão, que foi o primeiro judeu. Deve-se fazer sem perguntar ‘por que’".
"Eu sou apenas um menino", disse em minha defesa.
"Somos todos 'pequenos'" Papai respondeu. "E quando nós envelhecemos, começamos a compreender pela primeira vez que somos pequenos."
Uma vez, quando eu tinha uns seis anos de idade, meu pai me chamou para seu quarto e disse-me para fazer a bênção sobre o tzitzit. Eu respondi que já tinha feito a bênção no início do dia. "No entanto", disse Papai ", diga a bênção agora." Eu recusei.
Pai me deu um tapa de leve — este foi o único tapa que eu jamais recebi dele — e disse: "Quando eu disser para você fazer alguma coisa, você deve obedecer" Com lágrimas nos olhos, eu explodi: "Se é preciso recitar a bênção para D’us, então eu já fiz isso, mas se é preciso recitar a bênção por causa da sua ordem... bem...".
Papai respondeu: "É preciso recitar a bênção para D’us. Mas a todo pai foi confiada a tarefa de educar seus filhos, e ele deve ser obedecido."
Em Rosh Hashaná de 5648 [1887], quando eu era uma criança de sete anos e alguns meses, visitei minha avó e ela me ofereceu um melão. Fui para o quintal e sentei-me com os meus amigos em um banco bem em frente à janela do meu pai, e dividi o melão com meus amigos.
Meu pai me chamou e me disse: "Eu percebi que, apesar de você ter compartilhado o melão com seus amigos, você não o fez de todo o coração." Ele então me explicou longamente o conceito de um "olho generoso" e "olho maligno".
Eu fiquei tão profundamente afetado pelas palavras do meu pai que demorei mais de meia hora para me recuperar. Eu chorava amargamente e vomitei o que eu tinha comido do melão.
"O que você quer do menino?", perguntou minha mãe. "Ele é apenas uma criança!"
Papai respondeu: "É bom que seja assim. Agora, esta característica ficará entranhada em seu caráter. "
Isto é educação.
Para Pessach de 5650 [1890] — eu estava a poucos meses do meu aniversário de dez anos na época —, ganhei um novo conjunto de roupas juntamente com um novo par de sapatos.
Na minha cidade natal de Lubavitch, os preparativos para o festival eram realizados de forma meticulosa e completa. No dia antes de Pessach, um procedimento rigoroso era seguido: primeiro, todo chametz (fermento) era procurado e erradicado do quintal, galinheiro e estábulo. O zelador, Reb Mendel, estava ocupado com isso por uma boa parte da noite anterior, e seguia-se uma nova verificação pela manhã. Então, o chametz era queimado, depois íamos mergulhar no micvê, nos vestíamos para o festival, e assávamos a matzat mitzvah para o Seder. Finalmente, havia sempre os preparativos de última hora para serem feitos.
Entre estes preparativos finais havia um trabalho que me fora confiado: remover os lacres das garrafas de vinho e puxar parcialmente as rolhas. Essa última era uma tarefa mais difícil, pois era preciso tomar cuidado para que o metal do saca-rolhas não entrasse em contacto com o vinho.
Naquele ano, eu estava ocupado com esta minha designada tarefa no quarto do meu pai. Eu fazia o meu trabalho com muita cautela, tomando cuidado para não sujar o meu terno novo e, mais importante, para não estragar o brilho dos meus sapatos novos.
Meu pai percebeu o que estava em primeiro lugar na minha mente, e me disse: "O Alter Rebe [Rabi Shneur Zalman de Liadi] cita a seguinte metáfora: Um grande fidalgo se senta à uma mesa cheia de todos os tipos de pratos finos e iguarias. Sob a mesa encontra-se um cão, roendo um osso. Você pode imaginar o nobre descer de sua cadeira e se juntar ao cão por debaixo da mesa para mastigar um osso delicioso?"
As palavras do meu pai tiveram tal efeito em mim que tive vergonha até mesmo de olhar para as minhas roupas novas.
Isto é educação.
Era o verão de 5656 [1896], e Papai e eu estávamos passeando nos campos de Balivka, uma aldeia perto de Lubavitch. Os grãos estavam perto da maturação, e o trigo e grama balançavam suavemente com a brisa.
Disse Papai para mim: "Veja a Divindade! Cada movimento de cada caule e grama foi incluído no Pensamento Primordial de D’us na Criação, na visão abrangente de D’us da história, e é guiado pela Providência Divina em direção a um propósito Divino".
Andando a pé, entramos na floresta. Absorto no que tinha acabado de ouvir, animado com a suavidade e seriedade das palavras do Pai, eu distraidamente arranquei uma folha de uma árvore ao passar. Segurando-a um pouco em minhas mãos, eu continuei minha caminhada pensativo, ocasionalmente arrancando pequenos pedaços da folha e lançando-os aos ventos.
"O Santo Ari" — disse Papai para mim —, "diz que não só cada folha de uma árvore é uma criação investida com vida divina, criada com uma finalidade específica dentro da intenção de D’us na criação, como também, que há dentro de cada folha uma centelha de uma alma que desceu à Terra para encontrar a sua correção e realização.
"O Talmud" — Papai prosseguiu —, "legisla que ‘Um homem é sempre responsável por suas ações, seja acordado ou dormindo’. A diferença entre a vigília e o sono está nas faculdades internas do homem, seu intelecto e as emoções. As faculdades externas funcionam igualmente bem no sono; apenas as faculdades internas ficam confusas. Assim, os sonhos nos apresentam verdades contraditórias. Um homem desperta e vê o mundo real, um homem dormindo, não. Este é o significado mais profundo de vigília e sono: quando se está acordado, vê-se a Divindade, quando adormecido, não.
"No entanto, nossos sábios afirmam que o homem é sempre responsável por suas ações, seja acordado ou dormindo. Acabamos de falar da Providência Divina, e você sem pensar arrancou uma folha, brincou com ela em suas mãos, torcendo, esmagando e despedaçando-a em pedaços, jogando-a em todas as direções.
"Como alguém pode ser tão insensível com uma criação de D’us? Esta folha foi criada pelo Todo-Poderoso para um propósito específico, e está imbuída de uma força de vida divina. Tem um corpo e tem sua vida. De que maneira é o 'Eu' desta folha inferior ao seu?"

Samua de Brito Paiva escreveu…