O mau pai

Por: Sara Esther Crispe
No fundo da minha mente eu ingenuamente supunha que se você tem os ingredientes certos, na ordem certa, e você seguir as instruções, o produto final deve ser um sucesso.
Mas na vida nem sempre é assim que acontece. E eu sei disso verdadeiramente. Eu realmente sei disso. Mas ainda assim, eu acho que tenho atribuído erroneamente um pouquinho de culpa ao padeiro, esquecendo-me de que o Chef é quem comanda a cozinha.
Parece que estamos a julgar os outros, conscientemente ou não, pela forma como nossa vida funciona. Se meu bebê dorme a noite toda, eu devo estar fazendo algo certo. Se o seu bebê chora a noite toda, você deve estar fazendo algo errado. Simples assim. Quero dizer, afinal de conttas, que seu bebê deve estar com frio ou calor, ou com fome ou muito cheio ou algo corrigível. Você só não conseguiu descobrir o que está errado.
Parece que estamos a julgar os outros, conscientemente ou não, pela forma como nossa vida funciona
Sim, essa lógica funcionou bem com o meu primeiro, que, de fato, dormia durante a noite toda. Mas me botou em parafuso com o meu segundo, que tinha cólicas e chorava a noite toda, não importa o que. E então eu é que ficava recebendo aqueles olhares irritados de outros que ouviam o grito do meu bebê, como se perguntassem quanto tempo levaria para eu descobrir o que precisava ser corrigido.
E à medida que nossos filhos crescem, é tão fácil continuar ao longo dessa tendência. A criança que está fazendo birra no supermercado deve estar precisar de um cochilo ou é mimada. Quero dizer, qual seria o motivo para um garoto estar fazendo aquela cena? E então, na escola, se uma criança não está se comportando ou é incapaz de se concentrar, é porque ou o professor ou os pais estão fazendo algo errado.
Agora, eu acredito realmente que a educação tem um impacto significativo na forma como uma criança cresce. E eu também não acredito que a natureza é imutável. As pessoas podem mudar, e existe neuroplasticidade, provando que com o esforço correto é possível elevar, ou até transformar, nossa natureza. O Judaísmo nos ensina que estamos constantemente lutando entre o nosso yetzer tov (inclinação positiva, saudável) e nosso yetzer hara (inclinação negativa, insalubre). Tudo o que fazemos é uma escolha. E quão melhor preparados estamos para essa escolha, mais fácil será fazer o certo.
Mas, à medida que meus filhos crescem e se tornam jovens adultos, cheguei a uma nova conclusão sobre a paternidade. E que é o seguinte: Ser um bom pai não significa que seu filho não vai ter problemas. Isso significa que você estará melhor preparado para lidar com aqueles problemas quando eles surgirem.
Já vi alguns dos meus amigos enfrentarem situações devastadoras com seus filhos. Crianças que foram criadas com amor, apoio, generosidade, moralidade e estabilidade. Os ingredientes estavam lá. Foram misturados adequadamente. Mas, às vezes ao longo do caminho, acontecem coisas que não podemos prever e das quais não podemos nos proteger ou nossos filhos. O pai "mau" não é aquele cujo filho acaba fazendo a coisa errada. O pai "mau" é aquele que não intervém, reage, ou tenta mudar a situação, uma vez que acontece.
Acontecem coisas que não podemos prever e das quais não podemos nos proteger ou nossos filhos.
A única coisa pior do que ver alguém que você ama sofrer quando seu filho cai para um lugar terrível, é observar aqueles à sua volta julgar a pessoa que você ama. Talvez quando julgamos os outros e assumimos que há alguma correção, algum ingrediente que estava faltando, algo que ela poderia ter feito melhor ou de forma diferente para evitar essa situação, não precisamos considerar que isso poderia acontecer conosco. Mas pode. E nada do que fizermos vai mudar isso. A única variável restante é como vamos reagir se acontecer.
Recentemente, fui à minha médica para minha visita anual de rotina. Os resultados do meu exame de sangue mostraram que eu tenho colesterol alto. A primeira coisa que minha médica fez foi discutir comigo o que eu poderia mudar para colocar o meu colesterol de volta nos eixos. Ela me disse o que comer. Eu respondi que já comia esses alimentos. Ela me disse o que não comer. Mas eu já não os como. Ela disse-me para começar a se exercitar. Eu expliquei que frequentei a academia três vezes por semana durante o ano passado. E então ela me disse que o colesterol também é genético. Que eu estou fazendo as coisas certas. Que enquanto posso lutar para melhorar, pode nunca ser o bastante. Eu posso necessitar de intervenção. Eu posso precisar de medicação. Afinal, não há muito que eu possa controlar.
Minha médica foi ótima. Não houve culpa. Sem culpados. Não me dizendo que algo foi culpa minha quandoera bem claro que não era. Não quer dizer que não poderia ter sido. Se eu fumasse, bebesse, fosse obesa, nunca me exercitasse, e comesse pesados produtos de gordura saturada... sim, isso poderia levar a níveis elevados de colesterol. Então novamente, eu poderia fazer tudo isso e ainda assim, ter o meu colesterol dentro do intervalo normal. Não há certezas. Não há garantias. Nós fazemos o que podemos, e então oramos pelo melhor.
Por que não concedemos aos outros pais o mesmo respeito e compreensão? Por que somos tão rápidos em assumir que eles estão fazendo algo errado? Por que nós automaticamente supomos que qualquer problema que seu filho está enfrentando é resultado de sua ação ou omissão? Pode ser. Mas pode muito bem não ser. Afinal, ter um filho não é adição. Não é 1 + 1 = 2, onde a criança é apenas um resultado do que os pais colocam nela. A procriação é multiplicação. A mitsvá é pru u'revu, "sejam fecundos e multiplicai-vos". Multiplicação é maior que a soma das partes. Sim, existe a mãe e o pai. Mas o resultado final é mais do que isso. E algo sobre o que, em última instância temos pouco controle, se é que temos algum.
Reconhecer que eu não estou no controle é algo que eu sei inerentemente, mas ainda reluto em aceitar.
Que eu não estou no controle é algo que eu sei inerentemente, mas ainda reluto em aceitar. Percebo que eu não comando este mundo. Percebo que há tantas coisas que não fazem sentido e que eu não consigo entender. E eu, de fato, realmente acredito que há um plano e uma razão para tudo, mesmo que eu não tenha a menor ideia do que são. Mas isso não significa que eu gosto quando as coisas surgem de repente para me lembrar que o meu trabalho pode não se pagar da forma que eu queria.
No entanto, eu também acredito que cada coisa boa que fazemos, cada palavra gentil, cada ação positiva, cada passo na direção certa, absolutamente muda as coisas. Tudo conta. Nem sempre como pretendemos, mas quando depositamos na nossa conta bancária espiritual, física ou emocional, mais cedo ou mais tarde, seremos capazes de realizar saques dessa conta.
Afinal, o que torna alguém um bom paciente ou um bom pai não é ele ser capaz de evitar todas as doenças ou desafios na vida, mas estar disposto e ser capaz de lidar com eles. E quanto mais recursos naquela conta, mais fácil será.
