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Presentes Amarelos

Quarta-feira, 05 Fevereiro, 2014 - 13:48

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Por Devorah Tzuf

 

A pequena casa no final da rua fervilhava com pessoas. Alguém conseguira abrir as persianas antigas que rangeram para deixar a luz entrar dentro do ambiente, mas nem mesmo a luz do sol conseguia afastar a escuridão.

Era uma escuridão que quase se podia sentir. A dona da casa, que tinha vivido lá por mais de 60 anos, morrera subitamente dois dias antes. As dobradiças da porta pareciam ranger, protestando: "Nossa patroa não está mais aqui".

Aranhas bem alimentadas balançavam alegremente de suas teias nos altos tetos, como se quisessem dizer: “Faz anos desde que nos tornamos as mestres aqui!"

Havia cinco anos desde que a Sra. Arzi deixara de viver na casa. Cinco anos antes, ela havia se mudado para um asilo de idosos, e desde então, a casa tinha ficado escura e vazia. No início, os vizinhos tinham olhado tristemente para as persianas fechadas. Eles se sentiam atraídos para a casa, como se puxados por cordas encantadas invisíveis, assim como nos bons velhos tempos, quando a própria Sra. Arzi estava lá, sorridente, bem-humorada e sempre pronta para ajudar. Como era difícil ver o lugar fechado, quando sempre tinha sido aberto a todos, assim como o coração da dona ‑ um coração quente e grande, aberto a jovens e idosos, aos grandes e aos oprimidos. Ela tinha um grande recipiente de doces que nunca ficava vazio. Uma bonita tigela na mesa, cheia de doces, à espera de qualquer criança que viesse a entrar em sua casa.

Ela recebia bem a todos. Não importava se a criança tinha vindo pedir uma xícara de açúcar emprestada, ou queria devolver um livro que havia tomado emprestado no dia anterior. Fosse o que fosse, não podia sair de casa sem proferir uma bênção sobre algum alimento. Para os adultos, a Sra. Arzi tinha um tipo mais sofisticado de tratamento, composto de palavras sinceras que açucaravam suas vidas muito mais do que qualquer doce jamais poderia fazê-lo.

Agora que a má notícia chegara, era quase como se ela estivesse de volta. Mais uma vez a casa cantarolava com a vida. Você poderia imaginar que era ela quem estava orquestrando tudo, acolhendo, escutando, oferecendo seus bons desejos, incentivando...

As pessoas iam e vinham, como nos bons velhos tempos, quando havia alguém para vir ver e alguém para ouvir. Mas dentro da casa, eles estavam de luto, em shivá.

Seus filhos e filhas olhavam ao redor, tentando lembrar os locais da antiga rua e tentando anexar os nomes aos rostos daqueles que tinham se dado ao trabalho de vir e oferecer conforto. Mas tantas pessoas vinham. Era difícil saber sobre cada um.

Dina e Malka tentaram seguir os passos de sua boa mãe, e fizeram uma tentativa de não deixar de fora nem sequer uma única pessoa. Dina virou-se para uma mulher na casa dos seus cinquenta anos, sentada em um canto. Ela não tinha ideia de quem a mulher poderia ser.

“Você conhecia mamãe aqui do bairro?", perguntou Dina com cuidado.

"Eu..." a mulher começou. "Eu morava aqui quando criança. Aqui, nesta mesma rua. Hoje eu vivo muito longe, em outra cidade...". Todos os olhos se voltaram para a mulher.

“Você teve algum contato com a nossa família desde aqueles dias?", perguntou Dina.

"Não, não", respondeu a mulher. “Nós nos mudamos quando eu tinha 17 anos. Eu nunca mais vi sua mãe desde então...".

Um silêncio atordoante preencheu a sala. Todo mundo estava pensando a mesma coisa: Esta mulher, quando criança, tinha conhecido a Sra. Arzi. Elas nunca tinham se encontrado todos esses anos desde então, e ainda assim, ela tinha viajado uma longa distância para vir aqui hoje. O que a trouxe? Qual era a ligação que a amarrava a esta casa?

Como se tivesse estado à espera da pergunta, a mulher começou a contar sua história:

“Nós vivíamos aqui", disse ela, apontando pela janela aberta para a casa do outro lado da rua. “A Sra. Arzi era tão boa que todas as crianças da vizinhança gostavam de encontrá-la na rua ‑ para não mencionar visitá-la em casa... Mas sempre me pareceu que ela tinha uma relação especial com as crianças da nossa família."

"Todo mundo se sentia assim...", alguém murmurou.

"Quando eu tinha cerca de três anos de idade, em 1948, a guerra estourou. Eu não me lembro muito sobre a guerra em si, mas o período pós-guerra está firmemente gravado em minha memória. Eu era muito jovem para saber por que as coisas estavam tão difíceis, mas tinha discernimento o suficiente para perceber que a casa estava vazia e que cada ovo e cada fruta era um verdadeiro tesouro.

“O tempo se passou, os anos duros se foram, mas suas marcas permaneceram. Ninguém desperdiçava nada. Certamente, não a nossa família. Nós éramos doze, e estávamos muito pressionados financeiramente.

“Minha mãe costumava comprar frutas em quantidades limitadas. Naturalmente, fruta cara nunca aparecia na nossa mesa, mas mesmo frutas da estação eram compradas com cuidado e com um olho medido. Bananas, por exemplo, eram consideradas um luxo em qualquer estação. Minha mãe as comprava apenas para os dois filhos mais novos de nossa família. Eles, e só eles, tinham uma banana. Todo o restante de nós crianças, somente podíamos ficar olhando para as bananas e esperando que o bebê de sete meses de idade ou seu irmão de dois anos, deixassem sobrar um pouco. Mas isso não acontecia muitas vezes...

"Sua mãe, a Sra. Arzi, tinha um olho ‑ um olho especial que via tudo o que precisava ser visto. Ela viu que éramos uma família de crianças que estávamos sempre com um pouco de fome para 'luxos', como bananas... Mas ela não apenas via, ela também agia. Ela também não tinha muito para si mesma. Ela também tinha filhos em casa, mas apenas quatro deles. Ela nunca foi considerada uma mulher rica. No entanto, ela fez o que fez.

"Da outra extremidade da rua, eu a vi carregando dois grandes cestos de compras cheios de todos os tipos de coisas boas: batatas, cebolas, beterrabas, grandes laranjas redondas, encantadoras tangerinas, grapefruits, pimentas vermelhas... e encimando todas essas guloseimas, havia um cacho de grandes e belas bananas! A Sra. Arzi vinha trazendo esses cestos pesados através de toda quadra em direção à sua casa.

“De repente, ela me viu. Com sua maneira amigável costumeira, ela me cumprimentou: ‘Olá, Batya! Como você está?’. Ela me tratava como se eu fosse uma amiga de sua idade... e eu ainda era muito pequena. Então, com um largo sorriso, ela largou a cesta e tirou a melhor iguaria com que eu poderia sonhar: uma banana. Uma bela banana, amarela. A banana inteira! Ela a colocou na minha mão hesitante, dizendo: 'Por favor, Batya, pegue. É para você...‘. Com sua fina intuição, ela entendeu que não havia nenhuma possibilidade de eu ganhar uma banana em casa.

"Eu não tinha vergonha de levá-la. Ela fez isso de forma tão natural e simples, como se estivesse entregando algo para sua própria filha.

"Depois desta primeira ocasião, veio uma segunda, e depois uma terceira e uma quarta. Cada vez que ela me via, ela pousava o cesto e retirava uma banana para mim."

A mulher fez uma pausa. "Quantas bananas eu devo a ela? Eu não sei. Vinte, talvez, ou trinta. Certamente não mais do que isso. Mas muito além das próprias bananas, eu devo a ela a importante lição que me ensinou: como dar. E ainda mais, eu aprendi com ela que, para ser uma pessoa generosa, você não precisa ser rico ou viver em tempos de prosperidade. Toda vez que eu me lembro daquela cesta e dos presentes amarelos que ela tirava para mim, tenho a sensação de que a própria generosidade é que é a verdadeira riqueza...".

 

Por Devorah Tzuf

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Reproduzido da série Zarkor-Spotlight eStory

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