ב"ה
O Shabat que guardou a Rose
Por Goldy Rosenberg
De Small Miracles for the Jewish Heart (“Pequenos milagres para o coração judeu”) por Yitta Halberstam e Judith Levental
(http://www.chabad.org/library/article_cdo/aid/70017/jewish/The-Shabbat-that-Kept-Rose.htm)
Uma jovem estava perto de seu pai no cais de um porto na Polônia, com um baú aos seus pés. Dos seus nove irmãos, Rose, a jovem de doze anos de idade, foi a criança escolhida para ser enviada para a América, a "terra de ouro" — é assim que os europeus chamavam os Estados Unidos no inicio do século vinte. A vida na Polônia estava muito difícil. A fome e a miséria eram visitantes constantes em sua casa. Depois de muito esforço e economia, sua família tinha conseguido juntar dinheiro suficiente para uma única passagem de ida para os Estados Unidos. E Rose, a mais nova dos nove, foi a sortuda escolhida para ir.
Seu pai ergueu o baú em seu ombro e caminhou em silêncio, enquanto os cantos do seu casaco esvoaçavam atrás dele. Rose podia ver o esforço que ele fazia para manter suas emoções sob controle. O peso da vida era evidente nas linhas de seu rosto, na tristeza ardente de seus olhos sábios, e nos cabelos grisalhos de sua barba. Suas costas, no entanto, estavam retas, como se desafiassem, aparentemente, as suas tribulações.
Com um suspiro involuntário, seu pai deixou cair o baú no convés do navio e se virou para a filha. Sua cabeça grisalha se inclinou sobre o rosto inocentemente arrebitado, enquanto o pai olhou fundo nos olhos puros da filha. Ele sentiu vontade de gritar, de protestar contra a crueldade do destino. Como ele desejava arrebatar Rose de volta para casa, segurá-la como sempre o fez quando ela era apenas uma criança. Em vez disso, ele colocou uma mão trêmula em sua bochecha.
"Rose, main kind (minha filhinha) lembre-se... D'us está cuidando de você a cada passo do seu caminho. Lembre-se de Suas leis e as guarde muito bem. Nunca se esqueça que mais do que os judeus guardaram o Shabat, é o Shabat que tem guardado os judeus. Vai ser difícil nessa nova terra onde você vai. Não se esqueça de quem você é. Cumpra sempre o Shabat — não importa o sacrifício que você deva fazer "
"Tate! Tate!" (Pai! Pai!)
Rose escondeu o rosto na aspereza do casaco de seu pai, com os braços delgados abraçados firmemente em torno dele, como se pudesse, assim, se prender a tudo o que lhe era familiar na Polônia. Tate deu outro suspiro ofegante. Seus ombros retos se inclinaram sobre sua filha, enquanto suas lágrimas se misturavam com as dela. O apitar do navio fez com que ambos se separassem, bruscamente. Tate abaixou-se e abraçou Rose novamente, apertando a respiração dela em um abraço feito para durar uma vida inteira. Então ele se virou e desceu a prancha, um homem encurvado, derrotado pelas dificuldades da vida. Enquanto o navio afastava-se da vida do shtetl (da cidadezinha) da Polônia, um vento fresco do mar soprou sobre os passageiros que se preparavam para começar uma nova vida.
Para Rose, a viagem foi repleta de dúvidas e incertezas. Será que seus parentes realmente dariam boas-vindas a ela, ou ela estava condenada a viver sozinha nesta nova terra? Como era assustador pensar sobre uma nova vida sem os seus entes queridos... Enquanto o navio fazia a sua entrada no porto de Nova York, os passageiros ficavam amontoando-se contra a grade do convés, gritando e batendo palmas ao verem a "nova terra". Rose ficou de lado, tímida e insegura. Será que a nova terra cumpriria a sua promessa de “esperança, liberdade e riquezas”? Será que seus parentes iriam encontrá-la lá - ou seria ela agora mais um “sem-teto”?
Rose não teve muito tempo para se preocupar. Seus parentes estavam esperando por ela, ansiosos em receber sua prima novata, a “gringa”. Ela logo foi abrigada na sua casa, com toda a segurança que podiam lhe oferecer. Com sua aparência e comportamento maduro, não demorou muito para que Rose encontrasse um emprego como operadora de máquina de costura (costureira).
A vida na América era algo novo e estranho. Os trejeitos poloneses foram rapidamente abandonados — juntamente com a religião. Vestir-se de forma recatada, manter uma alimentação kasher, enfim, cumprir a Torá, não dava — tudo tinha que ser abandonado, juntamente com a roupa fora de moda e o sotaque de estrangeiro. Os parentes de Rose insistiram que religião era algo antiquado, um acessório desnecessário na América. Rose, no entanto, nunca esqueceu as palavras de despedida de seu pai. Vestiu as roupas novas que seus parentes lhe deram, cortou o cabelo para se adequar à moda, mas nunca desistiu do Shabat.
Toda semana a Rose arranjava uma nova desculpa para explicar para seu chefe por que ela não veio para trabalhar no sábado. Uma semana ela teve uma dor de dente; outra semana foi o seu estômago que a incomodava. Após três semanas o seu chefe logo começou a entender. Ele a chamou de novo e lhe disse, num tom que indicava que tinha apenas o seu bem-estar em mente: "Rose, você sabe que gosto do seu trabalho e que gosto de você. Mas esse negócio de não trabalhar no sábado tem que parar. Ou você vem trabalhar neste sábado, ou você pode procurar por um novo emprego."
Quando souberam o que o chefe lhe disse, os parentes de Rose foram inflexíveis. Ela tinha que trabalhar no sábado. Eles pressionaram, suplicaram, insistiram e avisaram. Rose sentiu-se como uma folha frágil entre rajadas fortes de vento, empurrada e puxada para todos os lados sem nenhum peso ou vida própria. Ela era tão jovem e vulnerável. Ela queria agradar seus parentes. Mas as palavras de seu pai continuavam a ecoar na sua cabeça. O que ela deveria fazer?
A semana passou como um transe para Rose. Suas emoções estavam tumultuadas: “Por um lado, Tate não está aqui para me ajudar a ser forte. Eu quero agradar os meus novos amigos. Quero amigos. Quero me encaixar nesta nova terra”, ela racionalizava. E, em seguida, com a mesma rapidez, vinha outro pensamento: “Por outro lado, como posso esquecer do Shabat? Como posso desistir da beleza do que Tate me ensinou?”
"Rose, querida, ouça bem. Você tem que trabalhar no sábado. É para o seu próprio bem”, seguiam insistindo os seus parentes, sem parar, até que a determinação de Rose vacilou.
Naquela sexta-feira, Rose caminhava para o trabalho, com seu lanche na mão e a cabeça cabisbaixa, cheia de pensamentos. Ela se sentou em frente a sua máquina de costura o dia todo, ouvindo o zumbido das outras máquinas enquanto ela ia, distraidamente, fazendo o seu trabalho de produção em massa. Seria tão terrível fazer isso amanhã, também? A hora da decisão estava se aproximando.
Uiiirrrr, bzzz, uiiirrrr, bzzz. A máquina continuou zumbindo, sintonizando os pensamentos conturbados de Rose. O que ela deveria fazer, ou melhor, o que ela poderia fazer? A medida que o sol ia se pondo sobre os parapeitos do Lower East Side, Rose sabia que não havia realmente nenhuma pergunta. Ela era judia, e ela guardaria o Shabat.
Shabat, na América, não era um dia caloroso e acolhedor como ela lembrava na seu lar, na Polônia. E esta semana foi a pior semana de todas. Ela não tinha a coragem de enfrentar seus parentes e dizer-lhes de sua determinação. Em vez disso, ela saiu de casa sábado pela manhã, fingindo estar indo para o trabalho. Ela vagou a esmo, para cima e para baixo, pelas ruas de Manhattan. Juntamente com os pombos da cidade, ela resolveu descansar num banco da (praça) Square Park, em Tompkin. "Tate, esta canção de Shabat é para você", ela sussurrou. Os pombos arrepiaram suas penas. "Yonah-mátsa-bo-manoach..." (neste dia até a pomba encontrou o seu descanso...). Lá, ela sentou-se entre os pombos, cantando as músicas tradicionais do sábado, com lágrimas nos olhos e soluços entre os versos. Quando três estrelas, finalmente, apareceram no céu escuro, anunciando o fim do Shabat, a lua brilhava sobre uma garota cansada e banhava o rosto dela com o seu brilho. Rose havia triunfado, mas sua vitória lhe custaria caro. Ela não teria mais emprego e seria alienada por seus queridos parentes.
"Baruch HaMavdil..." (ela disse a bênção após o fim do Shabat). Era hora de encarar a dureza da realidade do mundo. Rose se arrastou para casa, temendo a cena desagradável que estava por acontecer assim que seus parentes soubessem que ela não tinha ido para o trabalho.
Assim que ela se aproximou de casa, um berro rompeu o seu devaneio: "Rose! Que... o que... Quero dizer, como você está aqui? Onde você estava?"
Rose olhou para seu primo Joe, com uma expressão desolada estampada no rosto, esperando pelo pior.
"Joe, o que será de mim? Eu guardei o Shabat e perdi meu emprego. Agora todo mundo vai ficar com raiva e desapontado comigo! Ó, Joe, o que vou fazer?" As palavras saíram junto com as lágrimas.
Joe olhou para ela de forma estranha. "Rose, você não ouviu o que aconteceu?" ele lhe perguntou, com delicadeza.
"O quê?"
"Houve um incêndio terrível na fábrica. Apenas quarenta pessoas sobreviveram. Não havia nenhuma maneira de fugir de dentro do prédio. As pessoas até pulavam das janelas para a morte." A voz de Joe foi sumindo e agora ele estava chorando, abertamente. "Rose, você não percebeu? Justamente porque você resolveu guardar o Shabat e não foi trabalhar na fábrica, você ainda está viva! Graças ao seu Shabat, você sobreviveu!"
Dentre os 190 trabalhadores que lá trabalhavam, Rose Goldstein estava entre a minoria dos que sobreviveram. O terrível incêndio daTriangle Shirtwaist Factory, que ocorreu no sábado, 25 de março de 1911, custou a vida de 146 imigrantes que lá estavam trabalhando. Foi o pior acidente de trabalho da história de Nova York.
Como era sábado, Rose Goldstein não estava lá. Como seu pai havia dito, mais do que os judeus preservaram o Shabat, o Shabat preservou os judeus.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Inc%C3%AAndio_na_f%C3%A1brica_da_Triangle_Shirtwaist
Insista, não desista, e prepare-se: Mashiach vem aí!
