A Hagadá: O Manual do Educador 
por Naftali Silberberg
Na Hagadá lemos sobre os Quatro Filhos, suas perguntas, e as respostas adequadas para cada um. Uma leitura superficial dessas passagens não revela muito sobre a arte da educação, mas se cavoucarmos um pouco descobriremos um magnífico tesouro sobre a visão da Torá sobre a educação. De fato, um melhor manual do educador não poderia ter sido escrito...
A Hagadá nos ensina a responder às necessidades específicas de quatro tipos diferentes de crianças, ou, eventualmente, a mesma criança, dependendo das circunstâncias e da motivação por trás da pergunta.
Enquanto os adultos estão tentando ter uma conversa agradável sobre assuntos "importantes", este pestinha "desrespeitoso" continua interrompendo...
O sábio, o que é que ele disse? "Quais são os testemunhos, os estatutos e as leis que D'us, nosso Senhor, vos ordenou?" Você, por sua vez, deve instruí-lo [todas] as leis de Pessach [até a lei de] "não comer qualquer sobremesa depois do cordeiro Pascal".
Esta criança, com tantos detalhes na pergunta, é muitas vezes não percebida como a criança sábia. Frequentemente, ela é referida como "o chato" ou "a peste". Na mesa do Seder, enquanto os adultos estão tentando ter uma conversa agradável sobre assuntos "importantes", este pestinha "desrespeitoso" continua interrompendo com perguntas. Muito chato. Especialmente quando você não tem todas as respostas...
A Hagadá salienta que esta criança não é desrespeitosa ou um chato. Ela é sábia. Lembre-se sempre das suas verdadeiras prioridades. Seu filho é a sua responsabilidade maior e mais importante, e nada pode desconectar mais uma criança do que um pai ou um professor que não trata suas questões com o devido respeito.
Responda a seu filho. Responda cada detalhe. Se você não sabe a resposta, pergunte ao seu Rabino. Do contrário, você pode, D'us não o permita, acabar se deparando com...
O perverso, o que ele diz? "O que é este serviço para vocês?" Ele diz que 'para vocês', mas não para ele! Ao excluir -se, assim, da comunidade, ele negou o que é fundamental. Você, portanto, deve embotar-lhe os dentes e dizer-lhe: "'É por isso que D'us fez por mim quando eu saí do Egito; 'por mim ' — mas não por ele! Se ele estivesse lá, ele não teria sido redimido!"
Esta criança faz uma pergunta aparentemente inocente. Somente um exame cuidadoso da linguagem da pergunta revela o problema.
Às vezes é mais importante chamar a atenção do questionador do que responder à pergunta
Quando uma pergunta nos é dirigida, o nosso instinto natural é responder à pergunta. A Hagadá nos diz que às vezes é mais importante chamar a atenção do questionador do que responder à pergunta; mas isso só pode ser feito se o pai/professor está realmente ouvindo o filho, prestando atenção até mesmo à formulação da pergunta. Obviamente, a questão também deve ser respondida com todos detalhes, isso nós já aprendemos a partir da seção anterior, que nos ensina como responder ao filho sábio, mas isso é de importância secundária.
Nós informamos ao filho "perverso" que se ele estivesse lá, no Egito, ele não teria sido redimido. Mas agora é diferente. Desde que a Torá nos foi dada no Monte Sinai, cada judeu tem uma alma Divina e, gostemos ou não, serão resgatados com todos os seus irmãos quando Mashiach vier. Isto, esperamos "embotar-lhe-á os dentes", permitindo-lhe perceber que é inútil tentar morder e atacar, porque esta, a mesa do Seder, é o seu destino muito especial.
O simplório, o que é que ele disse? "O que é isso?" Assim, você deve dizer a ele: "D'us nos tirou do Egito, da casa dos escravos, com uma mão forte."
Esta criança está fazendo uma pergunta muito simples. Muitas vezes, a criança vai fazer tal pergunta porque ela não está à procura de uma resposta técnica detalhada. Em vez disso, esta criança está sentada à mesa do Seder e se perguntando: "Por que estão todos tão animados? Por que todos se reúnem, ano após ano, para comemorar um evento que ocorreu milhares de anos atrás? O que é isto?"
Tal questão — que não tem nada de tão simples, afinal —, merece uma resposta à altura. Não atole a criança com as leis de ralar o maror e o segredo do charoset, não é isto o que ela está procurando.
Diga-lhe que é bom estarmos animados e entusiasmados com o Judaísmo, porque temos um grande D'us que com mão poderosa nos livra das mãos de nossos inimigos repetidas vezes. Esta é a história milagrosa de um povo que teve tantos inimigos quanto as civilizações que existiram, e a mão forte de D'us manteve-se lá, firme.
Em outras palavras, o papel do pai/professor não pode se ater apenas à transmissão da informação. É necessário imbuir nossos filhos com um amor por D'us e uma paixão por servi-Lo.
Quanto àquele que não sabe (como) perguntar, você deve iniciá-lo, como é dito: "Você deve dizer ao seu filho naquele dia: 'É por isso que D'us fez por mim quando eu saí do Egito.'"
Esta criança não é aquela que é "pouco inteligente para perguntar". Tampouco se trata que ele esteja "indisposto a perguntar". Ele simplesmente não sabe o que ele deve perguntar. Ele está acostumado ao processamento de todas as informações que seus pais e professores jogam constantemente em sua direção; mas ele não está acostumado a usar sua própria mente, para examinar, analisar e questionar. Este é realmente um fenômeno ainda muito comum — até mesmo entre crianças muito inteligentes.
A Hagadá nos diz que se uma criança não sabe perguntar, você precisa perceber que (ao menos parcialmente) a culpa recai sobre você mesmo, porque você não iniciou a criança na arte de pensar.
A solução é compeli-lo a pensar. Diga-lhe isso: "É por isso que D'us fez por mim quando eu saí do Egito". Essa declaração vazia, que aparentemente não faz sentido, é certo que vai provocar uma enxurrada de perguntas de qualquer criança: "Papai, em que dia você deveria dizer isso para o seu filho?", "Mamãe, por causa de quê D'us fez por você?", "Rabino, o que D'us fez por você?"
O educador definitivo é aquele que interioriza a mensagem dos Quatro Filhos:
1. Responde a todas as perguntas, nunca banalizando a importância da curiosidade de uma criança.
2. Não só responde à pergunta, mas também aborda os assuntos — não externalizados — que estão incomodando o questionador.
3. Permeia as crianças com um zelo por D'us e pela Torá.
4. Treina as crianças a pensar por conta própria.
