Palestra “Eu sou um crente” para estudantes da Universidade de Emory, Georgia
Tech e Universidade Estadual da Geórgia, em março de 2014. Por Rabino Tzvi Freeman
Oi, meu nome é Rabino Tzvi Freeman. Eu sou a pessoa sobre quem o seu professor os advertiu.
Por quê? Porque eu sou um verdadeiro crente. Eu acredito em primeiro lugar e as demonstrações deixo para depois.
Mais do que isso, eu sou um dogmático. Mesmo quando a realidade diante de meus olhos voa em face de tudo o que eu acredito, eu continuo tão obstinadamente como antes. Até eu conhecer os fatos em conformidade com o que eu acredito.
Em que eu acredito?
Bem, eu sou um pai, veja. Então, eu acredito em meus filhos. Acredito que cada um deles é uma joia preciosa com enormes dons para conceder ao mundo.
Na verdade, acredito que o mesmo é verdade para todos os seres humanos nascidos nesta Terra, porque cada um contém uma centelha do divino, ainda que possa estar muito oculta.
Acredito que o valor de cada indivíduo é maior do que o valor de toda a sociedade composta por esses indivíduos. Mesmo que a matemática não feche.
Eu acredito que a vida, cada vida, vale a pena viver, não importa quanta luta, assim como a biosfera em que vivemos vale a pena salvar, não importa a que custo.
Eu não tenho absolutamente nenhuma evidência de que isso é assim.
Eu acredito que este mundo em que vivemos é totalmente incrível muito além de qualquer coisa que ainda haveremos de descobrir, que só começamos a arranhar a superfície de tesouros ainda a ser expostos—a tecnologia que irá juntar a totalidade da humanidade em comunicação e diálogo, fornecendo a cada um de nós o acesso a tudo o que pode ser conhecido, deslanchando a criatividade latente de cada ser humano, e colocando diante de nossos olhos a unidade e harmonia deste universo maravilhoso.
Eu acredito que o mundo tem um Criador, e que Ele é bom, e que Suas intenções ao criar este lugar eram boas, embora nem sempre pareça dessa forma. Às vezes, parece muito pelo contrário. Mas eu acredito, assim eu descarto evidências em contrário como dados discrepantes ainda por ser explicados.
Você pode discutir comigo; você pode trazer
milhares de provas de que as minhas convicções estão erradas, são absurdas e prejudiciais. Poupe seu fôlego. Eu sou um verdadeiro crente. Eu sou um fanático. Eu sou a pessoa sobre a qual seu professor advertiu.
Agora, vamos esclarecer isso bem: A crença é perigosa. Letal. A crença pode destruir a humanidade— e quase destruiu, várias vezes.
Tome a crença de que o valor de um ser humano pode ser medido "assim como uma barra de ferro pode ser medida". Essa crença foi responsável por quotas de imigração racistas e dezenas de milhares de esterilizações forçadas na América. Enviada através do Atlântico, essa crença deu autorização para os nazistas para terminar a vida de miseráveis, crianças aleijadas, incontinentes urinários, homossexuais, ciganos e judeus.
Na primeira metade do século 20, a eugenia era considerada a vanguarda da ciência. Mas a eugenia não era uma ciência. Era uma crença. Uma crença que acabou ameaçando a sobrevivência da humanidade.
Tome a crença de que a revolução proletária levaria à emancipação do povo, à distribuição justa da riqueza, à eventual dissolução dos governos e paz na terra. Em retrospecto, parece rematada tolice, mas as pessoas realmente acreditavam, realmente acreditavam nisso. Eles acreditavam o suficiente para combater revoluções sangrentas que relegaram centenas de milhões de pessoas à servidão virtual, e roubaram dezenas de milhões de vidas através de fome artificial e do trabalho forçado.
O comunismo foi apresentado como ciência social. Mas não era uma ciência. Era uma crença.
Tome a crença de que o estado supera os direitos do indivíduo. Porque muitos são mais importantes do que poucos. Porque não há nada divino ou especial sobre a vida de qualquer ser humano que lhe garanta quaissquer direitos inalienáveis individuais. O Culto do estado — "estatolatria", como o Vaticano o chamou — foi uma ideia que capturou a imaginação dos filósofos, escritores e estadistas — e trouxe com ela as maiores atrocidades da história.
Fascismo, descobriu-se, não era nada mais do que uma crença. Uma crença letal.
Tome a crença de que tudo pode ser explicado como fenômenos emergentes de um pequeno conjunto de leis físicas — incluindo a sua experiência subjetiva dessas leis. Ninguém explicou como consciência subjetiva pode surgir a partir de matéria, energia e leis físicas. Ninguém ainda explicou o que é consciência subjetiva. Mas somos instados a acreditar, tão somente acreditar, que há uma explicação à espera de ser encontrada, e que, portanto, isso é absolutamente assim. Você não é nada mais do que um dispositivo, e tudo o que há de mais real para você, tudo o que mais importa para você, sua alegria e tristeza, o seu amor e medo, suas aspirações e inspirações — tudo é uma ilusão, nada mais do que software em execução num hardware feito de carne.
O Reducionismo materialista tem sido uma estratégia muito bem sucedida em prever fenômenos observáveis. Mas, acreditar que ele pode explicar também o observador, não é ciência. É uma crença, uma crença muito radical. Uma que ameaça minar a dignidade da vida humana.
Tome a crença de que tudo o que vemos a nossa volta chegou aqui por acaso, e por isso não há qualquer propósito ou significado, a não ser o que quer que nós ilusoriamente atribuamos às nossas vidas inerentemente fúteis. Assim, salvar o meio ambiente e deixando para trás um mundo melhor para os nossos netos nada mais é do que um valor sentimental. O mundo realmente não tem nenhum significado inerente ou propósito intrínseco.
Como sabemos? Nós não sabemos. O ateísmo é uma crença. O ateísmo é a crença de que não há nada em que acreditar.
Todas essas crenças — eugenia, comunismo, fascismo, reducionismo materialista e ateísmo — são crenças regressivas. Regressivas, porque nunca ajudaram no progresso da humanidade rumo a um mundo mais saudável, mais feliz, mais harmonioso. Pelo contrário, elas proporcionaram uma via de escape rápido ao passado.
Assim como a revolução bolchevique retornou uma população só recentemente libertada da servidão de volta para as suas cadeias, assim também o materialismo e o ateísmo só pode retornar a humanidade de volta à era antes que a palavra progresso tivesse sido proferida, antes que os rebeldes da Renascimento falassem de dignidade da pessoa humana, antes que os emancipadores da Idade da Razão falassem dos direitos humanos, antes que a humanidade começasse a sonhar com uma época de harmonia e paz mundial. Das leis físicas e de um universo sem propósito, não podem emergir nem sonhos, nem destino.
Mas isso não é o que há de mais nocivo nessas crenças. O que as torna mais perniciosas é que aqueles que acreditam nessas crenças, não acreditam que elas sejam crenças. Eles acreditam que elas são a razão pura. Fato comprovado. Ciência.
E é aí que reside o problema com a razão, que nega a crença. Não que seja um raciocínio ruim. Frequentemente, ele é um raciocínio muito brilhante. Pode até vir a conter algumas grandes verdades. O verdadeiro problema é que ele não sabe quem é o seu pai e sua mãe. Ele acredita que deu à luz a si mesmo. Ele acredita que a razão tem se mostrado como um fato, sem recorrer a qualquer outra faculdade do ser humano. E que, portanto, quem acredita no contrário é um ignorante, um maldito idiota.
Se alguém lhe disser que suas crenças foram comprovadas absolutamente verdadeiras pela ciência, ele está brincando com fogo. Fogo destrutivo. São tais crenças que têm a capacidade de destruir o mundo.
Num outro dia, eu conheci um ateu. Ele me disse que não acredita em qualquer coisa que não possa ser provada a ele além de qualquer dúvida razoável.
Eu disse a ele que eu não acredito nele.
"No que você não acredita?", questionou ele.
"Isso, que você não acredita", eu respondi. "Você pode provar isso para mim, além de qualquer dúvida razoável?"
"Bem, eu estou dizendo a você que sim!", respondeu ele.
"Então", respondi: "você espera que eu apenas acredite ingenuamente em qualquer coisa que você me diga, sem prova?"
A verdade é que não existe um ser humano sem crenças. Sem muitas, muitas crenças.
A crença é para a humanidade o que a luz solar é para a floresta.
Sem a crença, não há vida.
Se os amantes não acreditassem: "este é o meu par!", se casais não acreditassem: "nossos filhos serão bonitos!", se os pais não acreditassem que "um dia eles vão crescer e aí vai ter valido a pena" — Ah, quão desolado esse mundo seria!
E, sem crença, a vida não vale a pena viver.
Se os empresários não acreditassem em seus palpites, se os atletas não acreditassem que podem conseguir essa medalha, se os artistas não acreditassem que podem se tornar eternos por meio de sua arte - Ah, que, mundo maçante abismal seria!"
"O ser humano acredita na vida eterna", diz o Talmud, "e, portanto, planta sementes." Vivemos, amamos, construímos e criamos como se fôssemos viver para sempre, como se nossas ações fossem eternas. Porque acreditamos.
Sem crença, não há sucesso.
Simon Sinek nos diz que empresas são bem sucedidas, inventores têm sucesso, líderes têm sucesso, movimentos, países, projetos — tudo o que dá certo — não ocorre por causa do que eles fazem ou como eles fazem, mas por causa do "por quê" em que eles acreditam. As pessoas compram o seu produto por causa do que você acredita. E funcionários fazem o seu melhor trabalho por você, porque eles acreditam no que você acredita. “Se você contratar pessoas apenas porque elas podem fazer um trabalho, eles vão trabalhar pelo seu dinheiro. Mas se você contratar pessoas que acreditam no que você acredita, eles vão trabalhar para você com sangue, suor e lágrimas".
Estamos todos festejando e curtindo a companhia uns dos outros neste belo evento “Chabad on Campus”. Nada disso poderia acontecer se o jovem casal que são os seus anfitriões não acreditassem em você. E eles acreditam em você porque seu Rebe acreditava em você.
Sem a crença, não pode haver progresso.
Se Newton não tivesse acreditado que há harmonia no Universo, não teríamos suas fórmulas requintadamente simples para a gravidade e para o movimento. Se um jovem funcionário de patentes na Suíça não tivesse acreditado que o universo é um todo único, não teríamos a Teoria da Relatividade.
Eu tenho um pequeno livro na minha estante intitulado “O que eu acredito, mas não posso provar”. É uma coleção de ensaios de pesquisadores de diversas áreas que descrevem suas crenças particulares, as quais eles ou estão tentando prová-las ou apenas as tomam como um dado. É assim que a ciência funciona. Porque nenhum ser humano pode colocar um pé à frente sem antes alcançar além de seu próprio intelecto e acreditar — em si mesmo, em seus ideais e em suas ideias, e em sua capacidade de transformar em uma realidade palpável uma crença que está até mesmo além da visão.
A razão é útil, muito útil. Mas não vai a lugar nenhum sem a fé que há um lugar para onde ir.
Sem a crença, a bússola moral humana está condenada.
Sim, temos uma bússola moral inata. Nosso senso de razão é muitas vezes o seu pior inimigo.
Se nunca tivesse havido pessoas que acreditavam que toda a vida humana é sagrada, estaríamos vivendo hoje em um mundo vazio de direitos civis. Eles nunca tiveram a prova. Ainda não há nenhuma prova. E foram, afinal, os cientistas racionais da primeira metade do século 20 que apoiaram o racismo moderno. Naquela época, a razão estava do lado de Estados totalitários, a cassação do individualismo e a supremacia dos "Nórdicos".
Obrigado D-us, pelos crentes que nos salvaram dos racionalistas.
Porque a razão sozinha não vai chegar a ética, não vai chegar a verdade, não vai achar para você um significado. "Há pessoas que vivem pela razão", escreve o psicólogo social Jonathan Haidt, "e eles são chamados de psicopatas." Com razão, observa-se o mundo.Com fé, podemos mudá-lo.
Sem razão, não podemos ouvir o mundo e descobrir o que é. Sem fé, não podemos falar de volta para ele e dizer-lhe o que deve ser.
Sem razão, não podemos saber onde estamos. Sem fé, não temos o poder de mudar o nosso rumo.
Sem razão, perdemos o contato com o aqui e agora. Sem a fé, nós abandonamos o futuro.
Apostando na Alma Humana
Há sete bilhões de pessoas que vivem em conjunto neste shtetl mundial
firmemente costurado, carregando ao menos um milhão de banners de diversas crenças. Pode tal cacofonia de vozes harmonizar juntos, sem a tirania da conformidade forçada?
Isso depende. Se puder haver diálogo, poderá haver harmonia. Mas para que haja diálogo, todos precisamos chegar a um reconhecimento simples: que, assim como nós temos duas pernas, dois olhos, duas orelhas, dois ventrículos do coração e dois lóbulos do cérebro, assim também temos duas faculdades pelas quais nossas mentes interagem com o mundo: a razão e a fé.
Mas se alguém se recusa a reconhecer a sanidade de fé, os canais de diálogo estão fechados.
Se alguém me diz que acredita que algo é verdade, mas não pode provar, eu posso falar com essa pessoa. Posso dizer: "Você tem crenças, e eu tenho crenças. Eu não posso provar a minha; você não pode provar a sua". Eu posso pedir a essa pessoa: "A que tipo de mundo você acha que essas suas crenças nos levarão?". Este é um grande critério de medição. Pois se nós dois concordamos sobre o mesmo objetivo, podemos trabalhar juntos.
Mas se essa pessoa me diz que se eu não acredito no que eles acreditam é porque eu sou ignorante, estúpido e insano... bem, você pegou a ideia. Eu não consigo ver isso como uma rota para um mundo feliz.
Tudo isso significa que ninguém tem que desistir de suas crenças, a fim de viver em paz com todos os outros. Ninguém tem nem mesmo que ceder minimamente. Isso seria nada menos do que uma sentença de morte para o magnífico mosaico de saberes e culturas que o multiculturalismo pretende preservar.
Além disso, seria assassinato da alma humana. Você não pode dizer a um mundo: "Acredite que você está mais ou menos certo, sob certas circunstâncias", e esperar uma sinfonia de vozes prestar-lhe atenção.
Há apenas uma condição para vivermos em várias culturas, cada uma com suas próprias crenças e ainda vivermos juntos : Nós simplesmente devemos saber que o que acreditamos é crença, e o que quer que racionalizemos também começa com a crença. Não há necessidade de ridicularizar a crença, porque nenhum de nós pode sequer respirar sem ela.
Esses "outros" podem ser não-científicos, eles podem ser hereges, ou simplesmente errados. Mas eles não são loucos. Eles podem não ser "nós", mas eles ainda são humanos como nós somos. Podemos entendê-los e eles podem nos entender, uma vez que ambos entendem que "as nossas crenças não são as suas crenças; o meu ponto de partida não é o seu."
Basicamente, eu estou apostando na alma humana. Eu estou apostando que todos nós realmente compartilhamos verdades comuns, uma sensação de transcendência, de sentido para a vida e da dignidade humana, e que, através do diálogo, vamos descobrir as verdades compartilhadas.
Eu acredito no ser humano. E eu admito, isso é uma crença.

Rosa Tilde Menaei escreveu…