Reflexões sobre as 3 semanas, os 3 lindos meninos, de abençoada memória, e dia 3 de Tamuz
Eu estou sentada no restaurante Jerusalem Pizza, situado no Jewish Communnity Center de um subúrbio de Detroit, em uma tarde quente e úmida da segunda-feira, desfrutando de um almoço com o meu idoso pai e minhas filhas mais novas, gêmeas que recém completaram seus 14 anos de idade.
Os olhos de meu pai se dirigem por cima do meu ombro para a tela da TV fixada na parede atrás de mim, sintonizada na CNN. O som está silenciado. Papai deve ter dito algo sobre os meninos israelenses. Viro-me rapidamente e vejo as terríveis palavras passando por cima da tela, calmamente, desapaixonadamente, obscenamente. "Os corpos dos três adolescentes israelenses sequestrados foram encontrados..."
"Oh, não", eu suspiro.
Meu estômago dá uma guinada, meu coração aperta, meus olhos lacrimejam.
"O quê?" Chana e Fayga perguntam, atentas para o alarme na minha voz.
"Os meninos, eles encontraram os rapazes..."
Os meninos por quem nós e tantos milhares, talvez milhões, em todo o mundo têm orado, acrescentando mitsvot, em silêncio, torcendo por suas corajosas famílias, suas lindas, tão graciosas, tão dignas, agora tão quebradas mães.
"Eles encontraram seus corpos em um campo perto de Hebron."
É muito pessoal, claro que não tão pessoal como para aqueles em Israel, e para os círculos concêntricos daqueles mais perto, mais perto, ondas de dor fechando sobre eles, seus colegas de classe, os soldados que os procuravam sob calor escaldante, em perigo mortal, para as suas famílias. Seus rostos, estes lindos meninos, talentosos, doces, bons, normais, os rostos de suas mães gravados na nossa consciência.
Mas o que se faz no Jewish Communnity Center nos arredores de Detroit, um lugar aparentemente judaico, mas calado, quieto, as crianças da colônia de férias brincando no saguão, empresários almoçando, garçons servindo, CNN indo para uma outra história sobre a economia de algum local, as legendas impessoalmente continuando a soletrar as letras.
"Como todos vocês podem continuar?", eu quero gritar. Homens israelenses estão comendo ao nosso lado e verificando os seus telefones.Vocês não sabem? Por que vocês estão sentados e rindo? O que devo fazer?
Eu estou sentada com meu idoso e delicado pai, com quem eu tento manter a vida em um rumo suave e plácido. Se há ondas na minha vida, eu as minimizo em sua presença.
Eu quero rasgar a minha roupa em luto, pular e gritar. Mas o que eu posso fazer? Fazer uma cena? Minhas filhas me olham. Choramos em silêncio. Em seguida, pegamos nossos garfos e comemos as nossas saladas, de repente tornadas insípidas. Papai está pagando por nossos almoços e quer que nós aproveitemos. Será que uma cena emocional, não comer, chorar, fazer algo, iria perturbá-lo"?
Eu mastigo a comida de madeira, virando-me impotentemente para trás a cada poucos minutos para pegar um outro comentarista entrevistando outro especialista, analisando a história, as implicações —, eu quero estar conectada.
Mas eu estou no Jewish Communnity Center — não um shopping center ou outro lugar sem rosto do consumismo americano para se afogar água abaixo, para anestesiar a minha alma judaica. Posso pegar o interfone do prédio ou algo assim? Eu vejo agradáveis senhoras judias caminhando pelo saguão, conversando casualmente.
Mas estamos num subúrbio, é 14:00 em mais um dia de boas maneiras, não-faça-ondas, vamos-às-compras.
Este é o exílio. Isto é galut. Um coração judaico está quebrando, mas com medo de chorar, de fazer ondas. Como um amigo que cresceu sofrendo perseguição na ex-União Soviética estava descrevendo a vida na América, na semana passada: "Estamos lentamente nos afogando, em um veludo macio, doce, tão suave, tão sonolento torpor.
É o segundo dia de Tamuz, um dia antes do 20º aniversário do falecimento do Rebe, o Rebe que lutou para acender a ardente chama judaica, focando seu amor extravasante em uma geração do pior abismo e do mais doce nevoeiro apático materialista. Hayinu k'cholmim — éramos como sonhadores, os Salmos nos dizem que é isso que vamos dizer, quando a luz de Mashiach finalmente explodir através da escuridão e da neblina, ao vermos como nossas vidas estavam de cabeça para baixo, quão tranquilizados estávamos, embalados a dormir por shoppings e carros, felicidade vazia.
É Tamuz, estão se aproximando as três semanas, quando ficamos de luto pela destruição do Templo, e nos concentramos em trazer a santidade perdida de volta às nossas vidas, ao nosso mundo.
O Rebe e seus shluchim continuam a esforçar-se para despertar-nos de nosso torpor, e fazer nossos corações judeus tão sensíveis, tão vivos, tão conscientes, que eles não possam ser subornados ou sedados.
Que a luz da redenção nos desperte — com uma explosão de alegria, simchá, através de bênçãos abundantes.
Vamos sentir a dor do que nós perdemos. Esses meninos, vida de inocência e potencial; nosso Templo, nexo de luz e santidade.
Nosso Rebe, cujos raios esquentam e inspiram inúmeras luas, todas refletindo a luminosa luz do Eterno.
Deixe esses múltiplos fragmentos de luz iluminarem toda a escuridão e furarem o nevoeiro, despertando-nos para o nosso verdadeiro eu.
