Beit Lubavitch Rio
Como posso te ajudar?
Impresso deBeitLubavitchRio.org
ב"ה

"Por Acidente" não existe no judaísmo

Quarta-feira, 23 Julho, 2014 - 13:07

"Por Acidente" não existe no judaísmoVasG8281351.jpg

Por Joannie (Henya) Tansky

Abby e eu nos conhecemos há quarenta anos através de uma babá comum. Nossas filhas eram crianças e nós vivíamos muito próximas uma da outra. Era um momento de nossas vidas em que precisávamos de companhia, precisávamos desabafar sobre noites sem dormir, sobre dentição de bebês, e precisávamos de uma conversa inteligente enquanto embalávamos nossas filhas nos balanços do parque. Nós mantivemos contato ao longo dos anos, mesmo depois de a minha família mudar-se para outro bairro.

 

Em 2004, a sogra de Abby faleceu. Eu, junto com outras três mulheres, realizamos a taharat, a preparação ritual para o enterro. Depois do funeral, Abby e eu falamos sobre muitas questões relacionadas ao judaísmo, incluindo por que uma taharat é realizada, alguns dos detalhes envolvidos, e vida judaica em geral. Naquele dia, Abby aprendeu que, assim como a Torá nos dá instruções sobre como viver como um judeu, também dá instruções sobre como morrer como um judeu.

 

Em maio de 2014, recebi um telefonema urgente de Abby. Mais tarde, ambas reconhecemos que nossa amizade — todas as palavras, todo o tempo que passamos juntos — foi destilada naquele telefonema.

 

Abby me contou esta história: Ela tinha um irmão de quem tinha se afastado há décadas. Ele era pai de cinco filhos com três mulheres e era, para todos os efeitos, um pai, irmão e filho ausente. Num determinado momento, ele ficou do lado errado da lei e passou algum tempo na cadeia.

 

O irmão de Abby estava morando em Malabar, na Espanha, nos últimos quatro ou cinco anos e, recentemente, tinha sido diagnosticado com câncer de pâncreas e bexiga. Como ele não tinha dinheiro suficiente para tratamentos prolongados no hospital, ele recebeu alta. Vários meses após o diagnóstico, em uma sexta-feira, um amigo encontrou-o morto em seu apartamento.

 

Quando Abby soube da notícia, ela disse que estava muito triste, desligou o telefone e continuou com o seu dia. Ela não tinha visto seu irmão há décadas, e agora, ela nunca mais o veria. Tanto quanto lhe dizia respeito, era o fim de uma vida muito triste, cheia de más escolhas.

 

Naquela noite, Abby não conseguiu dormir. Como ela poderia deixar seu irmão sozinho em um necrotério na Espanha, para ser enterrado sob custódia do Estado? Pensou em sua amada, doce mãe, que havia falecido muitos anos antes. Como ela poderia fazer isso com sua mãe? Ou com seu pai, que tinha lutado tanto para reabilitar seu filho?

 

Ao domingo à tarde, ela decidiu que iria tentar encontrar uma maneira de enterrá-lo através de uma funerária judaica em Malabar, mas por onde começar? De repente, lembrou-se da nossa conversa após o falecimento de sua sogra e me telefonou, na esperança de que eu saberia o que fazer.

 

Embora eu estivesse tão no escuro quanto ela, disse a ela que iria ver o que podia fazer. Assim começou o envolvimento de muitas pessoas em ambos os lados do oceano para enterrar um judeu a quem ninguém conhecia.

 

Fizemos uma série de telefonemas para Malabar, Nova Iorque, Madrid e Gibraltar, sem nenhum resultado. O tempo era um problema, pois o irmão de Abby estava em um necrotério e nós não sabíamos quanto tempo iriam mantê-lo lá. Na segunda-feira à tarde, eu decidi que não poderia lidar com isso sozinha e chamei Paperman and Sons, uma funerária judaica local. Expliquei a situação e disse: "Você está no negócio de funerais. Ligue para uma funerária em Malabar e faça com que seja enterrado". Isso era mais fácil dizer do que fazer, pois estávamos a sete horas atrás de Malabar e o idioma estava se mostrando uma enorme barreira.

 

Na terça-feira de manhã, o Sr. Paperman me ligou para dizer que tinha um funcionário seu que falava espanhol e que tinha vivido em Malabar. O funcionário ligou para a funerária de lá e foi capaz de acertar tudo de imediato.

 

A próxima questão era o dinheiro. Abby estava disposta a contribuir com $ 2,000 CAD para o enterro, mas a funerária queria 16.500 €, isto é cerca de $ 25.000 CAD. Bem, isso não estava acontecendo, ou se estivesse, eu estaria levantando altas quantias de dinheiro muito rapidamente. Mr. Paperman e eu decidimos tentar negociar para baixo, e, no final, se estabeleceu em 5.000 €, incluindo o transporte, a preparação, a cerimônia, o sepultamento e a lápide.

 

A Pergunta de Abby

 

Ao final, pessoas piedosas nas comunidades judaicas do Malabar, Málaga, Tourmalines e Montreal se encarregaram de levantar dinheiro para o funeral de um completo desconhecido.

 

Depois de ouvir sobre a compaixão e a generosidade destas comunidades judaicas, minha amiga Abby tinha uma grande pergunta: Como era possível que seu irmão, que tinha causado tanta dor de cabeça para outros durante sua vida, tivesse tido o mérito de envolver tantas pessoas para que ele fosse enterrado como judeu? O que ele fez para merecer a bondade de tantos estranhos?

 

Expliquei-lhe que dar dinheiro para o enterro de um estranho destituído é uma grande mitsvá, uma vez que essa bondade nunca pode ser retribuída pelo beneficiário dela, o falecido. Completos desconhecidos participaram generosamente nesta mitsvá, sabendo o quanto é importante que um corpo judeu seja tratado com dignidade e enterrado de acordo com a lei judaica. Quer seu irmão tenha vivido uma vida de retidão ou não, ele fazia parte de um povo que, no final, estão unidos como um só.

 

Não Há "Acidentes" Neste Mundo

 

O irmão de Abby foi enterrado na sexta-feira à tarde, às 3:00h em Malabar, Espanha, cinco dias depois de ela ter me ligado. Na segunda-feira à noite, houve um minian (uma oração de dez judeus adultos) em sua casa para Leizer ben Moshe. Embora estivesse afastado de sua própria família, muitos membros da família vieram para o minian. Eles, assim como mnha amiga Abby, precisavam de um fecho. Depois que tudo foi dito e feito, não há ateus em uma trincheira. Eles precisavam colocar seu pai e seu irmão para descansar de uma forma judaica.

 

Quarenta anos atrás, D-us fez com que eu conhecesse minha amiga Abby através de um terceiro. Quarenta anos atrás, D-us sabia sobre o irmão de Abby. Ele sabia que um dia, este triste homem solitário precisaria contar com a bondade de estranhos. E assim Ele colocou Abby e eu juntas para ter certeza de que isso iria acontecer. Não há acidentes neste mundo. Tudo, desde a queda de uma folha até o enterro de um judeu em um país distante, é providência divina. Muitas vezes, não vemos a mão de D us. Desta vez, Ele estava lá para todos verem.

 

Comentários sobre: "Por Acidente" não existe no judaísmo
Não há comentários.