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Meu filho pensa que Moishe tinha 10 metros de altura

Quinta-feira, 28 Agosto, 2014 - 12:34

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Meu filho pensa que Moishe tinha 10 metros de altura por: Tzvi Freeman 

Caro Rabino,

Minha Rebetsin Chabad cutucou-me muito — e ela o fez tão agradavelmente —, que me convenceu a matricular meu filho no cheder, a escola hebraica. É maravilhoso ver o entusiasmo com que ele chega em casa e conta-me todas as histórias. Mas algumas delas são mais do que um pouco fantásticas.

Moisés passa a ter dez metros de altura. O Faraó tem 30cm de altura. Então nós chegamos à Era Messiânica, quando doces crescerão em árvores. Daí para frente só fica mais incrível.

Você não acha que Moisés seria um professor e libertador ao menos tão crível a uma altura moderada de 1,78m? Assim como o Faraó já é suficientemente vilão sem que precisemos encolhê-lo à altura de um pepino?

O mesmo vale para a Era Messiânica. Quero que meu filho entenda que estamos trabalhando para um mundo maravilhoso de paz e sabedoria. Doces em árvores (como se meu menino já não tivesse doces o bastante) só servem para desviar a atenção daquele ideal.

Eu li que nem todas essas histórias são entendidas como fatos históricos, mas todas têm um significado profundo. Mas meu filho as toma ao pé da letra, pelo seu valor de face. Estou preocupada quando ele crescer e descobrir que lhe contaram uma série de contos de pescadores. Como ele vai saber o que é real e o que é fantasia?

Cara Mãe Judia,

Na verdade, o Talmud diz que Moisés tinha dez cúbitos de altura, o que o coloca em cerca de 4,5 metros. O que não lhe ajuda muito. Nem vai lhe ajudar que o faraó, com um cúbito ‑ ou cerca de 45cm  ‑,  teria que ser um pepino Inglês.

Também pode não ajudar se destacarmos que a questão é mais endêmica do que você pode ter percebido. A criança lê, por exemplo, que D-us assolou o Egito com Sua "mão forte". Eu garanto a você, por mais que qualquer professor possa tentar explicar a uma criança pequena que isso é apenas uma figura de linguagem para o poder indescritível do Criador do Universo, a criança ainda vai ficar presa à imagem de uma mão muito grande, poderosa, certamente maior do que a do professor, talvez maior ainda do que a do gorila que ela viu no zoo.

Agora, isso é um problema. Maimônides (que codificou a lei judaica, há 800 anos) determinou que acreditar em um D-us que tem um corpo é heresia. Não, o teu menino não é um herege. Ele está apenas tomando as palavras ao pé da letra. Esse é o tipo de mundo em que as crianças vivem, um mundo muito concreto, em que tudo é exatamente como nos disseram, um mundo valorado pelo valor de face. No entanto, como poderia a Torá comunicar algo a uma criança (ou a qualquer outra pessoa que leve as coisas como elas são apresentadas, preto no branco), que não seja verdade? E não só que não seja verdade, mas o oposto da verdade que a Torá deve transmitir?!

Então aqui está algo que pode ajudar:

Vamos olhar para o mundo de seu adorável rapazinho, um mundo valorado pelo valor de face. Com o que o mundo se parece lá de baixo? Vamos pedir-lhe para fazer um desenho ‑, por exemplo, um desenho de sua família. Agora leia o seu mundo a partir do desenho. Quão grande é a Mamãe? Quão grande é o Papai? Quão grande é o pequeno bebê que se tornou o foco central de atenção da família nos últimos dois meses? E quão grande é o seu rapazinho? Que tal se ele desenhasse Moisés lá — mesmo sem ter ouvido a história dos dez cúbitos? Meu palpite é que Moisés iria ocupar muito do desenho. Muito mais do que um moderado 1,78m.

Isso porque as crianças, sendo seres humanos, não estão realmente interessadas em fatos, mas em seu significado. Especialmente a criança.

Para a criança, o significado é tudo. Jean Piaget, o pai da psicologia do desenvolvimento, entendeu isso muito bem. Ele demonstrou que para uma criança, uma mesa não é uma placa com quatro pernas; uma mesa é algo sobre o qual você come, senta-se ao seu lado, ou coloca coisas em cima dela.

Se o sentido da mesa é a sua função, o significado de tamanho é a importância. O resto é quase irrelevante.

A criança já aprendeu que o mundo foi criado com dez palavras, e a Torá foi dada em dez mandamentos. Um Moisés de dez cúbitos, para a criança, é uma pessoa que é tão importante e completa como o mundo que D-us fez e a Torá que Ele deu.

Conforme a criança cresce, o mundo literal e o mundo figurativo se separam. Tamanho começa a ter significado de tamanho apenas. Desenhos tornam-se representativos das dimensões físicas necessárias para lidar com o mundo em seus próprios termos. O que você foi capaz de dizer a ele, aos seis anos de idade, descrevendo um Moisés de 10 cúbitos, você vai agora comunicar falando sobre o poder do espírito que soprava dentro de Moisés, como Moisés via o mundo de um lugar muito além do que qualquer outra pessoa e como ele vivia em outro plano da realidade.

A criança mais velha obtém mais informação por meio de conceitos abstratos e metáforas muito mais sutis do que você daria à criança pequena. Mas a ideia dentro desses conceitos e metáforas não mudou.

Acontece que, de certa forma, a criança pequena tem uma compreensão mais clara da grandeza de Moisés do que o adulto. No mundo do adulto, há uma lacuna entre o mundo do espírito humano e o mundo da matéria tangível e sensação. Para a criança pequena, é tudo um. Para a criança, a grandeza de espírito de Moisés é tão real quanto o seu corpo físico.

O mesmo com a mão de D-us. A criança não está interessada no tamanho de uma mão por razões anatômicas. Ela quer saber o quão longe essa mão poderia jogar uma bola, quão firme seria o seu aperto de mão, e quanto poder a pessoa por trás daquela mão poderia exercer através dela. Assim também, quando a criança pensa na mão poderosa de D-us, ela está pensando no significado por trás dela: A mão de D-us é poderosamente incrível.

Quando a criança amadurece e segue aprendendo, seu conceito de D-us também irá amadurecer. Ela vai olhar para trás e vai lembrar-se como pensava em D-us e Sua mão poderosa quando criança e tudo o que aprendeu terá um significado mais profundo.

Mais longe no caminho da vida, ele vai aprender que os cabalistas chamam D-us de "Luz Infinita". Difícil imaginar Luz Infinita com uma mão de fora. Ele também pode aprender como mais tarde cabalistas ensinaram que D-us está ainda além do infinito, e, certamente, além da luz. Ele pode até pensar profundamente nesses conceitos e desenvolver alguma ideia do que tudo isso significa. Mas o tempo todo ele estará construindo sobre a afinidade que sentiu com a mão forte de D-us quando criança pequena.

Quando o Mashiach chegar, vamos todos ver o mundo de uma forma totalmente nova. Não importa quão profundamente você ou seu filho possam ter entendido o quer que seja, tudo vai parecer mais do que infantil, em comparação com o que vai se desenrolar diante de nossos olhos então. Não importa o quanto abstrata, etérea ou transcendentalmente ele entendeu doces em árvores, estas revelações vão fazer tudo parecer brincadeira de criança.

A subida continua, os trancos e barrancos nunca acabam. Mas a verdade essencial que você apreender dentro de todos esses pacotes permanece a mesma por toda parte. Como faz a beleza da própria embalagem.

Esse é o poder da Torá: Ao contrário de doces e outros brinquedos, com a Torá, você nunca joga fora a embalagem. É tão bonita quanto o que está dentro —, e talvez até mais. Porque é aquela embalagem que permite que a sabedoria infinita de D-us seja encontrada em toda parte.

Quando o sol se reflete no mar, em uma lagoa, em um copo d'água e em uma pequena gota de orvalho em uma folha de grama — exatamente o mesmo sol, apenas menos grandioso e brilhante — assim também a Torá entra no mundo de cada um de nós, cada um de acordo com os parâmetros do seu mundo particular.

E verdade seja dita, naquela pequena gota, não distorcida pelas ondas de perturbações externas, a imagem do sol brilha mais pura e clara.

Como um sábio rabino uma vez comentou: "Quando rezo, rezo com a mente de uma criança pequena". O adulto tem ideias, conceitos e abstrações. A criança tem D-us somente.

As parábolas, as metáforas, os contos incríveis e fantásticos do Talmud e do Midrash — todos são bonitos, e verdadeiros. Em cada fase da vida, podemos encontrar uma nova profundidade dentro deles. Mas eles são mais verdadeiros porque comunicam a verdade para o mundo da criança pequena. E todos nós, tanto quanto possamos amadurecer como adultos, devemos sempre manter essa pequena criança dentro de nós. Porque é nessa criança que a verdade e a beleza residem mais puras.

Eu sei que você está perguntando sobre o seu filho, mas, como a aeromoça demonstra antes da decolagem, você tem que colocar a sua própria máscara de oxigênio antes de ajudar seu filho. Obtenha algum oxigênio e mergulhe no fundo do mar do Midrash você mesma. Leia os comentários clássicos e reflita sobre o seu significado. Em uma próxima série, "O Midrash é Real?" Chabad.org estará mapeando algum desse território.

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