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O Cocheiro

Quinta-feira, 18 Setembro, 2014 - 20:42

unnamed (1).jpgEsta é a história estranha, mas verdadeira de um grande erudito que virou cocheiro em seus anos de velhice, porque ... Mas deixem-me dizer-lhes toda a história.

Seu nome era Joseph, e ele vivia em uma pequena cidade na Rússia Branca, chamada Beshenkovitch. Joseph passara muitos anos estudando ardentemente o Talmud, até que ele se tornou conhecido muito além de sua própria comunidade. Sua esposa cuidava de uma mercearia sozinha, para que seu marido pudesse dedicar todo o seu tempo para estudar e ter algum tempo de sobra para ensinar jovens. Desnecessário dizer que Joseph ensinava-lhes todos de graça.

Embora não fosse mais um jovem, Joseph costumava andar a pé todo o caminho até Liozna para visitar o grande Rabi daquela cidade, Rabi Shneur Zalman, para ouvir os seus discursos públicos e sermões. Ele se tornou um dos mais fervorosos seguidores do Rabino.

Um dia, quando Joseph entrou para despedir-se do Rabino, este perguntou-lhe se ele sabia algum um dos seis tratados da Mishná de cor.

"É meu costume repetir todos os seis tratados da Mishná de cor no decorrer de um mês, de modo que durante o ano todo, eu os repito doze vezes, além de meus outros estudos", Joseph respondeu.

"É um ótimo hábito", disse o Rabino. "Mishná contém as letras de neshamá (alma). Estudar a Mishná é muito bom para a alma. Quanto à sua alma, seria melhor para você, se tornar um cocheiro, em vez de um rabino."

Joseph ficou um tanto quanto atordoado ao sair da presença do Rabino naquela ocasião. Na verdade, ele não queria tornar-se rabino, mas tampouco ele jamais sonhara, dentre todos os ofícios, tornar-se um cocheiro! No entanto, ele sabia que Rabi Shneur Zalman era um homem santo, e suas palavras não eram para ser levadas como brincadeira.

No momento em que Joseph voltou para casa, no entanto, esqueceu-se completamente as palavras do Rabi. Ele voltou aos seus estudos e a seu ensino.

Dez anos se passaram, e o nome de Joseph tornou-se mais e mais famoso.

Um dia, uma delegação de judeus proeminentes da cidade de Lepla, distante menos de 160 Km de distância, veio a Joseph, convidando-o a tornar-se o rabino e líder espiritual da sua comunidade. Joseph estava prestes a aceitar o convite, quando, como num lampejo em sua mente, ecoaram as palavras do Rabi: "Para a sua alma, é melhor tornar-se cocheiro que um rabino."

"O Rabino é realmente um vidente", pensou Joseph, "e chegou a hora de eu agir de acordo com o seu conselho".

Sem hesitar, Joseph declinou da honra, mas sem contar à delegação a razão de sua recusa.

Entretanto, quando se tratava de tomar uma resolução sobre seu futuro, Joseph descobriu que não era tão fácil cumprir as palavras do Rabi. Ele, um grande erudito, e em seus dias de velhice, começar a dirigir um cavalo e uma carroça! Ora, isso é um absurdo! As pessoas iriam pensar que ele havia perdido o juízo.

Por alguns dias, Joseph sofreu grande agonia mental enquanto ele estava considerando a sugestão do Rabi, ora a favor, ora contra ela. Finalmente, ele reuniu toda a sua coragem e desceu até o mercado local, onde as carruagens ficavam estacionadas. Quando os cocheiros viram-no aproximar-se, cada um deles cumprimentou-o respeitosamente, e se ofereceram para levá-lo onde ele quisesse ir.

"Não, meus amigos, não tenho intenção de ir a lugar nenhum. Apenas vim, hum ... para me familiarizar com sua profissão", disse timidamente.

Os cocheiros trocaram olhares curiosos, e olharam para Joseph, querendo saber se eles tinham-no entendido claramente.

"Rabino Joseph, não é do seu feitio fazer essas brincadeiras", um deles disse finalmente.

"Mas eu não estou brincando", disse Joseph, com os olhos baixos.

Ainda assim, os cocheiros não acreditaram nele. Alguns deles pensaram que o velho tinha perdido o juízo. Finalmente, um dos cocheiros aproximou-se dele e disse seriamente: "Rabino Joseph, siga-me até o estábulo e eu vou te ensinar este ofício."

Joseph o seguiu. O cocheiro mostrou-lhe como arrear o cavalo, lubrificar as rodas e assim por diante. O pobre Joseph não estava acostumado a isso. Ficou inteiramente sujo e quase perdeu um olho quando o cavalo chicoteou-o com sua cauda.

Sujo e abatido, foi para casa. Lavou-se, trocou de roupa e foi à sinagoga para a prece de Minchá, depois da qual, ele costumava proferir seu discurso diário sobre o Talmud. Todos olhavam para ele com simpatia.

Quando Joseph chegou em casa naquela noite, ele notou que os olhos de sua mulher estavam vermelhos de tanto chorar. Ela deve ter ouvido tudo sobre isso. Joseph foi para o quarto e chorou muito. Finalmente, ele decidiu seguir o conselho dos sábios, e assim, compartilhou o seu problema com sua esposa. Disse-lhe por que tentou aprender o ofício de cocheiro.

Longe de ficar triste, a mulher respondeu quase alegremente:

"Se o santo Rabi disse-lhe para fazê-lo, qual o problema que pode haver? Amanhã vou vender minhas joias para que você possa comprar um cavalo e carroça."

Por um momento, Joseph olhou para a mulher com espanto. Sua atitude prática, sua fé simples e a sua completa confiança nas palavras do Rabi deixaram-no emudecido. Joseph sentiu vergonha de si mesmo e um sentimento de remorso encheu seu coração. No entanto, todas as suas dúvidas tinham sido dissipadas e sua decisão foi tomada. No dia seguinte, ele comprou um cavalo e carruagem...

Um dia, Joseph estava em seu caminho para a cidade de Senna com uma carga de mercadorias. Quando a noite caiu, Joseph decidiu pernoitar na pousada mais próxima na estrada. O estalajadeiro era um judeu e Joseph se sentiu bem em casa ali. Um pouco mais tarde, o Conde de Batzeikov com sua corte chegou à mesma pousada e decidiu passar a noite lá. No entanto, quando chegou à vila mais próxima a notícia que o Conde estava na estalagem, o padre foi até lá convidá-lo para sua casa. O Conde não podia recusar o seu convite, e acompanhou-o. Seu administrador judeu, no entanto, se hospedou na estalagem, com a intenção de seguir até Senna na manhã seguinte.

Joseph estava ocupado estudando o Talmud, mas quando ele terminou e fechou a Guemará, o estalajadeiro apresentou-o ao administrador, cujo nome era Solomon Gametsky, dizendo que ele queria ir para Senna.

"Muito bem, senhor", disse Joseph. "Eu ficarei feliz em levá-lo para Senna amanhã de manhã."

"A que horas?", perguntou Gametsky.

"Depois das orações", foi a resposta.

" Você pode orar tanto quanto você quiser", disse Gametsky bruscamente. "Eu tenho que sair cedo e devo saber a hora exata quando se levantar, para que eu possa me lavar e comer sem pressa."

"... e rezar", disse Joseph a ele.

"Mantenha suas orações para si mesmo," retorquiu Gametsky.

"Como pode um judeu falar assim?" Joseph admoestou seu quase-futuro-cliente. "Como pode um judeu viver sem preces? E a mitsvá sagrada de tefilin? Algumas opiniões eruditas afirmam que tefilin são realmente duas mitsvot em uma!"

Solomon Gametsky não disse mais nada. Tendo ordenado ao estalajadeiro providenciar uma nova carruagem para cinco horas da manhã, ele se retirou sem dizer "boa noite".

Joseph também retirou-se, após ter dito suas orações da noite e jantado. Mas à meia-noite, levantou-se outra vez para orar chatsot (orações da meia-noite), como estava acostumado a fazer.

O som de orações e súplicas de Joseph quebrou o silêncio da noite.

O administrador do Conde adormeceu com um peso estranho em sua cabeça. Ele acordou com um sobressalto e sentou-se na cama para ouvir. Era uma voz familiar e por um momento ele pensou que era seu falecido pai. Gametsky lembrou-se que bom e venerável judeu seu pai tinha sido, e que ele também costumava levantar-se à meia-noite para rezar, exatamente da mesma maneira que fazia este cocheiro.

Joseph orou e orou, e suas orações e súplicas eram tão comoventes, que o administrador entrou em transe. Lembrava-se agora claramente de sua juventude, como se fosse projetada em uma tela diante de seus olhos. Ele viu seu amado pai, um homem piedoso, que, junto com o rabino da comunidade, compartilhavam a maior honra, concedida aos homens de saber e piedade. Ele lembrou o estilo de vida maravilhoso, tão calmo e harmonioso, em que tinha sido criado, até que conheceu aquele rapaz horrível que o desviou, e convenceu-o a fugir de casa.

Sem dúvida, ele construiu para si uma "bela carreira" ‑ fez amizade com o Conde, e tornou-se seu secretário pessoal e administrador; juntos, eles beberam muito e fizeram muita festa, mas ele sabia que sua vida espiritual tinha sido um vazio o tempo todo. Sua alma estava ansiando por aquele ambiente judaico encantador em que ele crescera...

Uma batida na porta despertou-o de seu transe. Gametsky percebeu que seu rosto estava molhado, pois inconscientemente lágrimas tinham rolado pelo seu rosto. Enxugou-as rapidamente, e gritou: "Sim? O que é?"

"Seu novo cocheiro está aqui, senhor", respondeu o estalajadeiro.

"Eu não estou indo com ele. Pague-o bem. Vou esperar por Joseph", disse Gametsky.

Solomon Gametsky vestiu-se e saiu para pedir um talit, um par de tefillin e um Sidur do estalajadeiro. Ele voltou ao seu quarto para orar. Nunca tinha rezado com tanto sentimento como nesta feita. Ele fez a firme resolução que de agora em diante se tornaria um judeu observante, com todo o seu coração e alma.

Este encontro providencial com Joseph foi um ponto de virada na vida de Gametsky.

Solomon Gametsky não retornou à sua posição. Ele pediu ao Conde para aceitar a sua demissão e isso lhe foi concedido. Ele tornou-se o melhor amigo de Joseph; estudavam juntos, e juntos foram a Lubavitch, onde agora, o líder espiritual era o filho do Velho Rabino, no lugar de seu pai.

Quando Joseph entrou no escritório do Rabino, este disse-lhe: "Meu pai me disse que você cumpriu a sua missão, para a qual ele o havia feito um cocheiro. Não há mais necessidade de permanecer como cocheiro. Eu o nomeio líder espiritual em Beshenkovitch".

Rabino Joseph vendeu seu cavalo e carruagem e por muitos anos foi o amado professor e líder espiritual da sua Congregação em Beshenkovitch, chegando a uma idade muito avançada. Ele nunca se arrependeu daqueles dias, quando ele dirigia seu cavalo e carruagem por aí, pois ele estava muito feliz por ter ajudado um judeu afastado a retornar à sua fé e a seu povo.

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