O genro louco
Por Yerachmiel Tilles
Dois dos homens mais ricos de Praga fizeram uma visita à Yeshiva Central praticamente ao mesmo tempo. Cada um estava buscando ‑ e encontrou ‑ um promissor jovem estudioso de Torá como noivo para a sua preciosa filha em idade de casar. Após os casamentos, no entanto, o povo da cidade elogiou um dos jovens maridos por sua simpatia e caráter agradável. O outro tendia a ser mais distante. Logo, seu sogro ficou com ciúmes do outro
sogro, cujo genro tornara-se tão popular.
Um dia, um homem entrou no salão de estudo do Beit midrash. Seu rosto mostrava que ele estava profundamente perturbado. O genro amigável caminhou até o estranho perturbado e convenceu-o a dizer-lhe o que o estava incomodando. "Talvez eu possa ajudar, e de qualquer maneira, nossos sábios disseram que uma pessoa deve compartilhar suas preocupações com os outros, para encontrar alívio."
Então o homem disse-lhe que devia ao seu poritz (nobre-proprietário) a enorme quantia de trezentos florins, e que hoje era o prazo final que o poritz lhe tinha dado para pagar. O poritz se recusava absolutamente a conceder quaisquer novas prorrogações, e ameaçava puni-lo severamente, se ele não pagasse o valor total no prazo. "Ele pode até me matar", disse o homem. E, no entanto, ele nem sequer tinha um centavo da quantia necessária.
O jovem marido pensou por um momento e depois disse: "Espere por mim aqui, por favor, eu tenho uma ideia de como obter-lhe o dinheiro." Em seguida, ele foi direto para o sogro do outro recém-casado, que era conhecido por ter emprestado dinheiro para muitos da nobreza local, e pediu-lhe para conceder um empréstimo a fim de resgatar o inquilino judeu em perigo.
O homem rico, cheio de ciúmes, imediatamente viu nesta situação uma oportunidade de obter vantagem sobre seu amigo. "Eu vou lhe emprestar o dinheiro", disse ele, "mas apenas com uma condição. Eu, por acaso, tenho em minha posse o manto de um sacerdote católico. Se você vesti-lo e subir e descer a rua principal e a do mercado, para que todos os lojistas e seus clientes o vejam, eu farei essa mitsvá de bom grado ".
"Tudo bem", disse o jovem, "eu vou fazer isso."
E assim ele fez. Ele circulou em torno das principais áreas da cidade vestido com a túnica do padre. As pessoas da cidade olhavam-no sem entender. Eles concluíram que o coitado devia ter perdido a cabeça. A notícia rapidamente se espalhou pela cidade, que o até então popular novo genro de um dos homens mais ricos da cidade tinha enlouquecido.
Sua família e amigos viram que ele parecia estar completamente normal. Eles não conseguiam entender por que ele tinha feito uma coisa dessas. Ele, por sua vez, se recusava a divulgar o motivo de sua estranha performance, por isso, aqueles que estavam perto dele permaneciam perplexos, enquanto todo o resto da gente assumiu que ele estava louco.
Os anos se passaram. O rico já tinha vendido o manto do padre a um alfaiate judeu. Este, vendo que o manto era feito de linho puro, decidiu que seria o material perfeito para costurar para si mesmo uma mortalha. Ele assim o fez, e instruiu seus filhos que, quando seu tempo finalmente chegasse, ele deveria ser envolvido nestes mortalhas antes do enterro.
Finalmente, o alfaiate seguiu o caminho de toda a carne. Vários dias após o funeral, o alfaiate apareceu para o Rabino Chefe de Praga em um sonho e pediu que ele mandasse o caixão ser aberto.
Ele explicou que, pela abnegação e dedicação extraordinária que o jovem demonstrara em prol do pobre homem em perigo, um grau excepcionalmente elevado de santidade tinha se impregnado no próprio vestuário. Como resultado, os anjos de punição não eram capazes de lhe fazer mal nenhum. No entanto, uma vez que o material não tinha sido suficiente para completar o manto de suas mortalhas, ele utilizara um pequeno pedaço de uma roupa diferente para terminar sua mortalha, e os anjos de punição eram capazes de chegar a ele por esse retalho. Portanto, o alfaiate queria que o rabino abrisse o túmulo, a fim de retirar esse retalho de linho.
O Rabino, é claro, realizou o pedido do falecido. Ele também contou a história completa da incrível façanha do jovem para todos na cidade. Por fim todos perceberam que o comportamento estranho do simpático genro não fora devido à insanidade, mas mesirut nefesh, verdadeiro auto-sacrifício, para ajudar um irmão judeu.
[Links com leitura da Torá Semanal e próximo Festival de Purim]
Traduzido e recontado a partir Reshimat Devorim IV, pp. 264-266.
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