Uma Estranha Transação
Por Zalman Goldstein

Era uma ensolarada manhã de sexta-feira de fevereiro em Monsey, Nova York, e um amigo me convidou para participar de uma venda de objetos de uma residência. Eu nunca tinha ido a uma venda dessas, e eu não tinha certeza exatamente do que era, mas por alguma razão, decidi ir junto.
"Aqui estou para novas experiências", pensei, e pulei em seu carro.
Chegamos no endereço ‑ uma pequena casa geminada. Nós estacionamos em frente e entramos.
A casa era pequena e acolhedora. As pessoas vagueavam pegando bugigangas e perguntando preços. "Um dólar e cinquenta para isso, quatro dólares para aquilo", dizia um bem-humorado homem de meia-idade.
O que ocorria era que o proprietário era uma senhora idosa e seus filhos é que estavam gerenciando a logística da venda, negociando as ofertas e conversando com a multidão que lotava e se deslocava lentamente pela casa.
Ao caminhar mais para dentro, vi a sala de jantar atulhada de itens para venda. No meio estavam um prato de cerâmica para matsá e dois castiçais de bronze. Eu não prestei muita atenção a eles naquele momento. Não estou realmente interessado, pensei.
Esses castiçais tinham um plano. Eu não ia decepcioná-los desta vez.
Enquanto eu olhava aquela exposição de objetos à venda, comecei a sentir uma certa tristeza; afinal, todos aqueles itens compunham 50-60 anos de memórias. Agora essas memórias estavam expostas para que todos pudessem ver e comprar. Mas a família parecia bastante alegre, o que me ajudou a sentir-me melhor em relação à situação toda.
Finalmente, ambos encontramos algo para comprar, nem que fosse só para fazer os proprietários felizes. Na despedida, a senhora mais velha, a proprietário da casa, nos desejou "Shabat shalom!" Nós lhe respondemos igualmente e saímos.
No carro, no trajeto de volta, a imagem dos castiçais à venda naquela mesa da sala de jantar permanecia na minha mente. "Por que ainda estou pensando neles?", eu me perguntava. Logo percebi com mais clareza: eu tinha perdido completamente uma oportunidade!
Era quase meio-dia, hora de pegar as crianças na escola. Enquanto eu dirigia, os castiçais falavam mais alto. Esses castiçais tinham um plano. Eu não ia decepcioná-los desta vez.
Parei na padaria e peguei duas chalot frescas. Peguei as crianças e falei-lhes sobre a nossa missão. Parei em casa para pegar duas velas e os suportes de vidro que acompanham e se assentam sobre os castiçais e um exemplar do livro Companion Shabbat Table[i].
Nós voltamos para a casa onde ocorria a venda, esperando que os castiçais ainda não tivessem sido vendidos.
O plano estava agora em pleno movimento. Eu estava animado, assim como estavam as crianças. Nós estacionamos no mesmo local, pulamos para fora da van e corremos para dentro.
Ufa! Os castiçais ainda estavam lá!
Eu procurei a senhora idosa e perguntei-lhe se os castiçais estavam à venda.
"Sim", ela respondeu, pedindo ao seu filho para nos dar um preço.
"Oito dólares para o par", disse ele.
"Fechado", disse eu, puxando a minha carteira e dando-lhe o dinheiro.
Comecei a sentir uma certa tristeza, afinal, todos aqueles itens compunham 50-60 anos de memórias.
A mãe foi até a mesa, pegou os castiçais e colocou-os em minhas mãos.
"Aqui estão!"
Segurei-os, meus filhos observando cada movimento meu. Eu, então, olhei-a suavemente no olho e falei.
"Você sabe por que eu voltei e comprei estes castiçais?"
"Não."
"Eu vim de volta junto com meus filhos para comprá-los de você, para que possamos dar-lhes de volta para você. Queremos que esses castiçais fiquem em sua sala de jantar, continuando a iluminar sua casa toda sexta-feira e nas festividades à noite."
Lágrimas brotaram nos olhos dela.
As minhas surgiram logo em seguida.
Nossa filha Hindy deu-lhe o saco com as velas e suportes de vidro.
Moishy lhe deu as chalot.
Chana deu-lhe o Companion Shabbat Table.
O filho da senhora veio para ver o que estava acontecendo, a filha seguindo-o de perto.
Sua mãe disse-lhes o que tínhamos feito.
Houve abraços e lágrimas entre eles. Mesmo os estrangeiros que vasculhavam os itens à venda no imóvel pararam para olhar, como se superados pelo derramamento da luz divina que irradiava a partir das almas judias desta bela família.
A mãe finalmente falou, e disse-nos que o seu nome hebraico é Tziporah, e que ela foi para a escola hebraica quando era criança, mas não ocorreu muita coisa depois disso.
Ela calorosamente aceitou nosso presente, e garantiu-nos que ela "já sabia as berachos (bênçãos)."
No meio do caminho, seu filho me disse: "Assim como você ofereceu à nossa mãe um presente, queremos dar-lhe um presente — aqui, por favor tome os oito dólares de volta. O que você nos deu hoje vale muito mais do que alguns dólares."
Eu recusei educadamente e pedi que, em vez disso, eles compartilhem com a minha família o mérito da mitsvá do acendimento das velas de Shabat e das festividades.
"Feito!", disse ele. A mãe e filha também assentiram com a cabeça.
Saímos como chegamos, mas agora nós viajávamos em nuvens espirituais. Nós nos sentíamos parte de algo maior, algo puro e intenso, que liga profundamente nossas almas judias. Foi esse sentimento que nos manteve quentes naquele dia de inverno, enquanto nos preparávamos para o Shabat.
Mas acima de tudo, eu me sinto afortunado que nossos filhos puderam experimentar a nossa "transação" única. Espero que essa experiência tenha lhes ensinado a olhar para oportunidades, mesmo quando não são perceptíveis à primeira vista.
Esta história verdadeira aconteceu em 2012.
Por Zalman Goldstein Mais artigos
Zalman Goldstein é o fundador do Jewish Learning Group, editor do popular Shabbat Table Companion, Going Kosher in 30 Days, e quase uma dúzia de livros de divulgação utilizados pelas Chabad Houses em todo o mundo. Ele também é o homem por trás da série icônica de música Chabad Classics.
[i] Livro com as preces da Mesa de Shabat.

Clarice Haberkorn escreveu…
Obrigada