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Os Santos Mendigos de Safed (Tsfat)

Quinta-feira, 13 Agosto, 2015 - 14:03

 

Os Santos Mendigos de Safed (Tsfat)

Por Chana Besser

Credit: Flash90
Crédito: Flash90

 

Como qualquer cidade pequena, Safed tem alguns mendigos profissionais. Nenhum deles é bêbado, obrigado D'us, ou sem-teto, D'us não o permita. Eles simplesmente esmolam para ganhar a vida. É o trabalho deles, e eles trabalham duro para isso. Eles mantêm horários regulares, e cada um tem seu próprio território. Alguns deles trabalham para organizações religiosas, como o gordo que manca e carrega uma pushka (lata de coleta), ou aquele pequeno sujeito magro, cheio de energia, na Midrahov, nossa rua principal em paralelepípedos. Ele canta canções folclóricas em iídiche e hebraico, e em um dia bom até mesmo dança algo como uma valsa, gentil e agradecido, dando uma berachá (bênção) e um sorriso doce para cada alma generosa. Além desses, temos alguns outros que são trabalhadores independentes. Eles estendem a mão, ou um frasco plástico sem rótulo. A maioria dos nossos mendigos são limpos, embora eu tenha certeza que alguns deles acreditam que serão mais bem sucedidos se se apresentarem com um colarinho um pouco amarrotado. Mas todos os dias, lá estão eles.

Não muitos anos atrás, eu virava minhas costas para esses tipos, desconfiado de sua necessidade. Uma vez eu perguntei ao meu rebe: "Como posso saber se eles realmente precisam do dinheiro? Eu aposto que alguns deles estão em melhor situação do que eu." Sua sábia resposta foi: "Se eles pedem, então eles precisam, mesmo que apenas em suas próprias mentes, e você deve dar." Então passei a dar a eles toda vez que eu os vejo, o que geralmente ocorre todos os dias, apenas dez agurot, nossa menor moeda, cerca de R$0,10, ou uma moeda de meio-shekel, cerca de R$0,50. É o melhor negócio do mundo, eu acho — uma bênção por alguns centavos.

Mas o mais santo dos nossos mais esfarrapados cidadãos não é um mendigo. Quando eu o vi vadiando na Midrahov com roupas velhas e rasgadas, com grandes buracos nos calcanhares de suas meias que se projetavam muito acima dos topos de seus sapatos, eu pensei que ele poderia ser um sem-teto, por baixo e por fora. Então eu comecei a vê-lo por aí regularmente, muitas vezes sentado em mesas de café com amigos. Eles estariam alimentando-o, eu me perguntava?

Pouco depois, aconteceu o Festival Anual de Safed de Música Klezmer. Dezenas de milhares de pessoas viajam para Safed para desfrutar de músicos tocando nas ruas, nas praças, nos parques, em todos os cantos da cidade. Eu o vi lá, no Klezmer. Mas ele não era um espectador. Eu fui atraído pelo som da música, e eu me enfronhei por entre a multidão até que pude chegar perto o suficiente para ver o que eles estavam assistindo. Era ele. Ele estava dançando. Michael estava dançando sozinho, entretendo cerca de cem espectadores, todos cativados por sua graça e improviso. Seu corpo magro estava celebrando o êxtase da música. Seu velho rosto profundamente enrugado, bronzeado, estava brilhando com uma luz interior, seus olhos dançando de alegria por agradar a multidão. Ele dançava como Anthony Quinn em Zorba, o Grego, as mãos levantadas acima da cabeça para pontuar seus movimentos. Um chassid todo vestido em traje preto saltou para dançar com ele. Lá estavam eles, os dois — jovem e velho, religioso e secular, respeitado e desrespeitado, yarmulka e toca de lã — dançando juntos diante da multidão. Michael estava colocando tanto de si mesmo em sua dança que eu senti como se estivesse olhando para a sua alma.

Eu não o vi depois disso por um tempo. Então, um dia, eu vi apenas o familiar, surrado gorro amarelo. Ao lado de minha casa há um local conhecido de Safed, uma churvá, uma ruína. Destruídos no último terremoto que devastou a cidade, apartamentos ou prédios inteiros estão abandonados, habitados apenas por gatos ou algo pior. Eu estava entrando no meu pátio através do portão de trás, e de repente o velho portão de metal da churvá se fechou! Uma mão estava saindo, rosto e corpo escondidos fora da vista, para fechar o cadeado da pesada corrente. Mas seu chapéu era visível. Era o chapéu de Michael.

O que deveria eu fazer? Eu não sabia. Eu tinha medo de contar a alguém. Eles poderiam chamar a polícia para expulsá-lo. Não havia eletricidade, nem água, nem aquecimento — não havia nem mesmo janelas. Como ele poderia dormir lá nas noites frias de Safed? Eu imaginei que ele tomava um chuveiro diariamente na sinagoga da rua, onde muitos dos homens iam todas as manhãs para usar o mikvê (casa de banhos rituais). Isso explicaria como ele era capaz de apresentar-se sempre tão limpo. Ele seria perigoso? Seria por causa dele que as pessoas fechavam as portas? Eu tinha ouvido falar de "algumas maçãs podres" na cidade. Ele poderia ser uma delas? Eu estaria a salvo?

Mas eu tinha visto ele dançar. Outros poderiam vê-lo com desconfiança. Mas eu tinha visto ele entregar-se ao povo, sem reter nada. Eu decidi deixar as coisas como estavam. Ele não sabia que eu tinha reconhecido seu chapéu. Ele era velho o suficiente para receber a segurança social. Se ele queria viver em uma ruína, eu não iria me meter. Eu manteria seu segredo.

O inverno virou primavera, e rapidamente transformou-se no verão. Aos poucos, descobri que quase todo mundo na cidade sabia que Michael estava vivendo na churvá ao meu lado. Eles dizem que ele trabalha. Então, em vez de ser um vagabundo, ele é um excêntrico. Mas há mais uma história sobre ele, a melhor história de todas.

Michael viu um amigo um dia que estava sentado em um café ao ar livre na Midrahov. Ele estava chorando, com a cabeça sobre a mesa, enterrado em seus braços. Michael sentou-se para consolá-lo, e perguntou o que estava errado. O amigo disse que ele estava em apuros. Ele era divorciado e não tinha pago nenhuma pensão à criança. Há anos, ele não pagava nada e agora as autoridades tinham pegado ele. Ele precisava de cerca de 20.000 dólares imediatamente, ou iria para a cadeia. Michael enfiou a mão no bolso da velha calça. Ele tirou, um bilhete de loteria amassado, desgastado. Olhou para o bilhete pela centésima vez, e o mostrou ao seu amigo. Michael disse: "Olhe para isto. Você não tem que chorar mais. Você não tem que ir para a cadeia. Eu ganhei esta Loteria. Este é um bilhete premiado. Vale US$ 20.000. Durante toda a semana, eu estive pensando: 'Por que eu ganhei esse sorteio?' Eu sabia que não precisava do dinheiro, então eu percebi que deveria haver alguma razão para eu ganhar. Bem, esta deve ser a razão. Portanto, tome o bilhete, e seus problemas acabaram".

Talvez você esteja se perguntando se a história é verdadeira ou não. Realmente, não importa tanto. O que é mais importante é que as pessoas aqui contam esses tipos de histórias. Isso nos diz muito sobre o tipo de pessoas que vivem em Safed. Mesmo nossos vagabundos e mendigos são santos. Talvez eles sejam os mais santos de todos nós.

POR CHANA BESSER

Chana Besser nasceu na Alemanha pós-guerra, cresceu em Chicago, e criou suas filhas em Denver, Colorado. Ela fez aliá em 1995 para Safed, onde ela ensina, aprende Torá e ocasionalmente escreve.

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