O segredo para um bom relacionamento
Por Chana Weisberg
Naomi é casada com um indivíduo muito ocupado, orientado para resultados. Ela muitas vezes lamenta que, devido à sua agenda sobrecarregada, eles raramente passam tempo de qualidade um com o outro.
Um dia, Naomi telefonou para o marido para lhe dizer que um cliente muito importante, que vinha tentando encontrar-se com ele há um longo tempo, tinha ligado. Ela tinha tomado a iniciativa e agendara uma reunião às 20:00 em um restaurante elegante de um hotel no Centro.
O marido de Naomi lhe agradeceu por seus esforços e assegurou-lhe que ele iria reorganizar sua agenda para comparecer à reunião.
Bikurim ensina-nos a estabelecer prioridades em nossa vida
Às 19:45, o marido de Naomi vai até o hotel; às 19:55, ele está sentado em um canto tranquilo do restaurante, em uma mesa discreta, propícia para uma conversa. Às 19:57, ele ajeitou a gravata e pediu drinques para si e para o seu cliente. A um minuto para as 20:00, ele desliga seu telefone celular e limpa a mente de todas as questões do dia, para que nada o distraía.
Alguns momentos depois, para seu espanto, Naomi entra no restaurante vestida com uma roupa requintada. Ele observa como ela propositadamente faz o seu caminho até a sua mesa e graciosamente senta-se à sua frente.
Sua expressão perplexa transforma-se rapidamente em aborrecimento e, em seguida, em raiva, mas finalmente se fixa num sentimento de admiração quando desperta nele a ideia que sua esposa é o "cliente importante que vinha tentando encontrá-lo por um longo tempo." Ela recorreu a este esquema elaborado apenas para fazê-lo perceber que ela não era menos digna do seu tempo e atenção do que qualquer cliente lucrativo.
Sua hora juntos naquele canto tranquilo daquele elegante hotel, com o seu telefone celular desligado e todos os outros compromissos cancelados, foi produtiva e agradável para ambos. Tanto assim, que, esperamos, Naomi não terá mais que recorrer a tais artimanhas para que isso aconteça novamente ‑ mais regularmente...
A Leitura da Torá desta semana começa com a mitsvá de Bikurim, a oferta do "primeiro fruto":
"E será, quando você vier para a terra que D'us lhe dá por herança ... que você tomará o primeiro de todos os frutos da terra. E você deve colocá-los em uma cesta e ir ao lugar que seu D'us optar por ter Seu nome habitando ali. E você virá ao sacerdote que estará servindo naqueles dias, e lhe dirá: "Eu declaro este dia a D'us, que eu vim para a terra que o Senhorjurou aos nossos pais dar-nos."(Deuteronômio 26:1-3)
Os bikurim tinham que ser da melhor qualidade, produzidos na Terra Santa, dos primeiros frutos a amadurecer. Antes de tomar qualquer fruto para si mesmo, esses frutos eram trazidos para o Templo Sagrado para expressar gratidão a D'us pela oportunidade de se estabelecer na Terra de Israel e pela bênção deste produto. [1]
Maimônides explica que, "tudo o que for usado para demonstrar amor por D'us deve ser o melhor e mais bonito. Quando se constrói uma casa de oração, ela deve ser mais bonita do que a sua própria habitação. Quando se alimenta o faminto, ele deve alimentá-lo do melhor e do mais doce de sua mesa. Sempre que se designa algo para um propósito sagrado, deve-se santificar o melhor de suas posses, como está escrito (Levítico 3:16), 'Os mais escolhidos a D'us.' "[2]
A oração Modê Ani representa a unidade inatacável entre D'us e o povo judeu, a nossa conexão interna e inquebrantável
Dedicando os "primeiros frutos maduros" de sua vida a D'us, uma pessoa, de fato, está dizendo: Aqui jaz o foco da minha existência. Quantitativamente, isto pode representar apenas uma pequena parte do que eu sou e tenho; mas o propósito de tudo o que eu faço e possuo é permitir que esse pequena fração de espírito se eleve acima da minha vida cercada de materialidade.
Os Bikurim ensinam-nos a estabelecer prioridades em nossa vida. Na miríade de responsabilidades da "rotina diária", lembram-nos de dar precedência ‑ e dedicar nossos recursos mais fortes, mais frescos ‑ para as pessoas e para os valores que nós prezamos mais.
Quantas vezes deixamos de agendar tempo de qualidade com os nossos cônjuges, para reacender a centelha que originalmente nos atraiu um pelo outro? Em vez disso, quanto do nosso tempo juntos é desperdiçado em listar todas as tarefas mundanas que precisam ser concluídas?
Quantas vezes nós reservamos tempo para nossos filhos ao final do nosso dia, depois de estarmos esgotados de energia ou de iniciativa, para realmente nos relacionar com as questões de suas vidas?
Quantas vezes estamos tão ocupados com a nossa busca pelo sucesso material que deixamos apenas algumas migalhas de energia para saciar o nosso crescimento espiritual? Será que nós mantemos contato com o nosso Criador em apenas alguns momentos apressados de orações distraídas, só para aliviar nossa culpa antes de abordar as tarefas "reais" de nossos dias?
Bikurim nos ensina a dar um passo atrás e priorizar ‑ que o primeiro e o melhor de nosso fruto, do nosso tempo, energia e recursos, deve ser dedicado a D'us.
Para percebermos o que é importante em nossa vida e agendar isso antes. Reconhecer quem nós prezamos mais em nossa vida, e conectar-nos regularmente com esses indivíduos.
Os outros detalhes marginais da vida, de alguma forma encontrarão o seu lugar de direito.
Desta forma, os Bikurim são semelhantes à oração modê ani recitada no momento em que abrimos os nossos olhos sonolentos, agradecendo a D'us por restaurar nossa alma e nos permitir servi-Lo mais uma dia.[3] Do filho mais novo ao mais velho aposentado, do mais sábio dos sábios ao leigo iletrado, todos nós começamos nosso dia com estas primeiras palavras.
Em nossa ânsia de declarar a nossa gratidão ao nosso Criador, nos atrevemos a abordar D'us com as mãos ritualmente impuras. Só depois de ter pronunciado a nossa curta oração de agradecimento é que nós ritualmente lavamos as mãos e recitamos outras orações, que basicamente reiteram o Modê Ani.
À primeira vista, a nossa sequência de orações parece supérflua. O Modê Ani não contém nenhuma menção de qualquer um dos santos nomes de D'us, porque nós somos proibidos de pronunciar qualquer um desses nomes em um estado de impureza ritual. Sendo este o caso, não deveríamos esperar um pouco, antes de recitar o Modê Ani, para que pudéssemos nos dirigir ao nosso Criador corretamente?[4]
O Rebe explica[5] que a oração Modê Ani representa a unidade inatacável entre D'us e o povo judeu, a nossa conexão interna e inquebrantável.
Nossos gestos, mesmo se imperfeitos ou defeituosos, são uma indicação do que realmente importa para nós
É por isso que é tão importante recitar esta oração no exato momento em que acordamos. Ao pronunciarmos isso em nossos primeiros momentos de consciência, mesmo com as mãos impuras, estamos afirmando que todas as impurezas ou negatividades do mundo não podem afetar nossa conexão interna com D'us. Estamos declarando inequivocamente que esta ligação é indispensável, lembrada em nossos primeiros momentos de vigília, a despeito de qualquer estado de impureza ou defeito.
Esta é a razão mais profunda pela qual a oração Modê Ani não menciona qualquer um dos nomes de D'us. Em vez de tratar com um "nome" ‑ em um contexto de terceira pessoa removida ‑ nos dirigimos a D'us direta e intimamente na segunda pessoa, como "Tu".
Como o Modê Ani origina-se da essência da alma, ele é igualmente dirigido intimamente à essência de D'us, que não pode ser aludida por nenhum nome particular. Esta é precisamente a singularidade do Modê Ani. Enquanto outras orações abordam D'us através de nomes divinos que refletem atributos particulares, o Modê Ani aborda nosso interior, emblemático e indestrutível vínculo com Ele.
Como o Bikurim, o Modê Ani, ensina-nos a importância de estabelecer nossas prioridades na ordem do nosso dia e da nossa vida.
Mas o Modê Ani também nos ensina que, quando mostramos o que é verdadeiramente importante para nós ‑ quando estabelecemos o que prevalece em nossos primeiros momentos de vigília ‑ está tudo bem, mesmo que nós não o façamos perfeitamente ou da forma mais eloquente. D'us ignora nossa impureza ritual, porque estamos demonstrando a força do nosso compromisso absoluto com Ele.
Da mesma forma, um marido que tira alguns momentos de sua agenda apertada para telefonar para sua mulher e perguntar-lhe como seu dia está progredindo, não precisa se preocupar em se expressar com as palavras mais poéticas ou cativantes. Ele não tem que travar uma longa ou profunda conversa com ela; sua curta e atenciosa chamada por si só é prova suficiente do seu amor.
Uma mãe que tem empatia por sua criança ferida não precisa consultar um livro de psicologia para encontrar as palavras certas ou método correto. Basta ela sentar-se cuidadosamente com sua criança para que ela perceba sua devoção.
Uma pessoa que empreende uma longa viagem para confortar um amigo após a perda de um ente querido, não precisa se preocupar com que palavras de sabedoria ele vai dirigir aos enlutados. Ele não precisa dizer nada; sua presença indica o seu cuidado.
Da mesma forma, a oração Modê Ani, recitada ao levantar-nos de manhã, pode ser dita com as mãos ritualmente impuras. O próprio fato de que esta é a primeira coisa que nós proferimos é uma indicação suficiente o bastante para demonstrar onde se encontram nossas prioridades.
Ao dizer a oração modê ani em nossos primeiros momentos conscientes, ou oferecendo os bikurim a partir do primeiro dos nossos produtos, estamos demonstrando nossas prioridades. Nossos gestos, mesmo que imperfeitos ou defeituosos, são uma indicação do que realmente importa para nós.
Mas o mais importante, os bikurim nos lembram de não permitir que nossas vidas tornem-se tão emaranhadas com trivialidades que nos esqueçamos o principal objetivo por que estamos realmente aqui.
