Crise de refugiados: 'Amai o estrangeiro, porque fostes estrangeiros...' nos chama agora
Jonathan Sacks
O mundo tem uma oportunidade única para mostrar que os ideais pelos quais a União Europeia se formou ainda são convincentes, compassivos e humanos.
Jonathan Sacks: "Mesmo pequenos gestos humanitários podem perfurar a escuridão e acender uma chama de esperança." Fotografia: David Sillitoe para o Guardian
Domingo 06 de setembro de 2015 00.03 BST Última modificação no domingo 06 de setembro de 2015 17.05 BST
Você teria que ser menos que humano para não ficar comovido pelas imagens da crise de refugiados ameaçando devastar a Europa: as cenas em Budapeste, os 71 corpos encontrados no caminhão abandonado na Áustria, as 200 pessoas que se afogaram quando seu barco virou na costa na Líbia e, mais comovente de todas, o corpo de Aylan Kurdi, três anos de idade, sem vida em uma costa turca: uma imagem que vai permanecer muito tempo na mente como um símbolo de um mundo enlouquecido.
Este é o maior desafio humanitário enfrentado pela Europa em décadas. Angela Merkel não estava errada quando disse: "Se a Europa falhar na questão dos refugiados, a sua estreita ligação com os direitos civis universais será destruída."

Crise de refugiados: o que você pode fazer para ajudar?
O afluxo de refugiados pressionando enormemente partes da Europa é uma crise gigantesca, mas é justamente nessas ocasiões que vale a pena lembrar que o ideograma chinês para "crise" também significa "oportunidade". Agora é uma oportunidade única para mostrar que os ideais pelos quais a União Europeia e outras entidades internacionais, como as Nações Unidas, foram formadas ainda são convincentes, compassivos e humanos.
Muitas das convenções e protocolos que estabelecem os direitos legais para os refugiados surgiu no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, assim como a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Um dos momentos sombrios nesta história ocorreu em julho de 1938, quando representantes de 32 países reuniram-se na cidade termal francesa de Evian para discutir o desastre humanitário que todo mundo sabia que estava prestes a se abater sobre os judeus da Europa onde quer que a Alemanha de Hitler estendesse seu domínio. Judeus estavam desesperados para sair. Eles sabiam que suas vidas estavam em risco e assim também o sabiam os políticos e agências de ajuda humanitária na conferência. No entanto, país após país fechou suas portas. Nação após nação disse efetivamente que aquilo não era problema seu.
Nesses momentos, até mesmo pequenos gestos humanitários podem acender uma chama de esperança. Isso é o que aconteceu no Kindertransport, a iniciativa que resgatou 10.000 crianças judias da Alemanha nazista. Meio século mais tarde, vim a conhecer muitos dos que haviam sido resgatados. Eles adoraram a Grã-Bretanha e procuraram com afinco contribuir para ela. Eu e muitos outros judeus da minha geração crescemos com esse amor, sabendo que sem a vontade da Grã-Bretanha para prover refúgio aos nossos pais e avós, eles teriam morrido e nós não teríamos sequer nascido. Sempre que a história humana for recontada, esses atos de humanitarismo vão permanecer como um triunfo do espírito sobre a conveniência política e indiferença moral.
Sessenta anos depois do Kindertransport, foi realizada uma reunião em Londres com mais de 1.000 dos que haviam sido resgatados. Foi um dia muito emotivo, enquanto um após outro contou sua história. Mas o discurso que nos levou todos às lágrimas não foi o de nenhuma das crianças resgatadas, mas foi o do falecido Lord Attenborough, cuja família estava entre os resgatadores.
Ele contou como seus pais chamaram seus três filhos e disseram-lhes que queriam adotar duas jovens judias da Alemanha, Helga e Irene. Eles explicaram os sacrifícios que todos teríamos que fazer. Eles agora seria uma família de sete, em vez de cinco, o que significava que eles teriam de compartilhar mais amplamente, e isso, eles falaram, incluía o seu amor, porque "você têm a nós, mas elas não têm ninguém". Os garotos concordaram e as duas meninas passaram a fazer parte de sua família. Quando contou esta história, Lord Attenborough chorou e disse que foi o dia mais importante de sua vida. De repente, percebemos que são os sacrifícios que fazemos em prol de ideais elevados que nos fazem grandes e isto se aplica às nações, bem como a indivíduos.
Mesmo no melhor cenário, a Europa sozinha não pode resolver os problemas dos quais os refugiados são vítimas. Os conflitos que trouxeram o caos para o Oriente Médio continuam a desafiar qualquer solução óbvia. Cada opção que tem sido experimentada pareceu falhar: intervenção militar no Afeganistão e no Iraque, zonas de exclusão aérea na Líbia e não-intervenção na Síria. Nenhuma extinguiu os fogos ardentes de agitação, da discórdia religiosa e étnica e da guerra civil. É muito fácil dizer que este não é o nosso problema e, além disso, está acontecendo muito longe.
No entanto, nada em nosso mundo interligado está a um longo caminho de distância. Tudo o que poderia ser globalizado, efetivamente é globalizado, do terror ao extremismo religioso até sites que pregam paranoia e ódio. Nunca antes as palavras de John Donne ressoaram mais verdadeiras: "A morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade." Por isso, "não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti".
Uma resposta humanitária forte por parte da Europa e da comunidade internacional poderia alcançar o que a intervenção militar e negociação política não conseguiram. Isto constituiria a mais clara evidência de que a experiência europeia de duas guerras mundiais e o Holocausto ensinaram que as sociedades livres, onde as pessoas de todos os credos e etnias fazem espaço umas para outras, são a única forma de honrar nossa humanidade compartilhada, quer concebamos esta humanidade em termos seculares ou religiosos. Se falharmos nisso, teremos falhado num dos testes fundamentais da humanidade.
Eu costumava pensar que a linha mais importante a Bíblia era "Ama o próximo como a ti mesmo". Então eu percebi que é fácil amar o seu próximo, porque ele ou ela é normalmente muito parecido com você. O que é difícil é amar o estranho, aquele cuja cor, cultura ou religião é diferente da sua. É por isso que o comando, "Amai o estrangeiro porque fostes estrangeiros na terra do Egito", ressoa muitas vezes em toda a Bíblia. Ele está nos chamando agora. Um ato corajoso de generosidade coletiva vai mostrar que o mundo, especialmente a Europa, aprendeu a lição de seu próprio passado escuro e está disposta a assumir a liderança mundial na construção de um futuro mais esperançoso. Guerras que não podem ser ganhas por armas às vezes podem ser vencidas pela força de atos de generosidade humanitária para inspirar os jovens a escolher o caminho da paz em vez da guerra santa.
Jonathan Sacks foi rabino-chefe de 1991 a 2013. Ele apoia Apelo da Crise da comunidade judaica ‑ visite worldjewishrelief.org

