
Bitul: Por Que Nada Me Faz Feliz
Por Lieba Rudolph
Tenho a sorte de viver em uma comunidade na qual todos têm o compromisso de cuidar de todos os outros. Realmente. Seja para um novo bebê ou um brit milá, ou, D'us nos livre, uma ocasião triste, todos cooperam um com o outro — mesmo que seja apenas uma pequena participação — para fazer os eventos do ciclo da vida mais suaves para todos.
Para facilitar esse processo, um e-mail é enviado a todo mundo contendo a onipresente planilha, pedindo às pessoas para se inscrever para ajudar a fazer comida para aquela determinada família que precisa dela.
Ciente de que é uma coisa boa a fazer, eu procuro inscrever-me, sempre que possível, independentemente de quem é a família. Eu também aprendi a importância de passer por este processo o mais rapidamente possível, sem perder tempo para rever a planilha. Não é realmente da minha conta quem se inscreveu para fazer o quê, ou por que a família não come trigo.
Mas então eu começo a deliberar. Um compromisso de fazer pelos outros pode parecer como uma responsabilidade desnecessária. Se eu não fizer o gefilte fish, alguém certamente o fará. E se houver outra insana tempestade de neve, e eu não puder ir à loja? Ora, pare com isso. Tenho gefilte fish no meu freezer. Eu posso fazer isso. Seja legal. Basta se inscrever para o peixe!
Clássico Conflito de Evasão de Abordagem.
Mas eu sei que eu quero me inscrever, então eu começo a fazê-lo. Eu escrevo meu nome ao lado do gefilte fish. É realmente apenas a ideia de fazer alguma coisa por alguém. Então, quando eu estou pronta para pressionar a tecla "enviar", aquela vozinha faz uma última tentativa, e se eu não apertá-la rapidamente, a voz tenta sua frase favorita: Por que você está fazendo isso para eles?
Mas eu sei que essa voz é o meu yetzer hara (meu pequeno ego amigável que me ama incondiconalmente), mas como eu já o ouvi tantas vezes quando tento fazer algo de bom para alguém, eu o reconheço e o ignoro.
E eu clico em "enviar". Enquanto faço isso, sinto uma ligeira sensação de vitória, e eu lentamente suspiro. Eu estou na planilha, por isso estou comprometida mesmo se houver uma tempestade de neve, mesmo se eu descobrir que não há gefilte fish no meu congelador.
Muitos anos atrás, eu aprendi sobre a qualidade de bitul, que geralmente se traduz em palavras como "auto-anulação", "abnegação", "humildade" — palavras que nem sequer soavam muito judaicas para o meu ouvido destreinado. Eu fui sábia ao reconhecer que esta era a jóia da coroa judaica, exatamente o que nós nos esforçamos para alcançar, mas tolice pensar que era fácil de fazer.
Afinal de contas, eu amo o meu "eu", ou pelo menos parte dele. Eu continuo a afirmar que, se eu não tivesse tido tanta consciência de mim mesma e minha falta de realização espiritual, eu nunca teria concordado em clicar em "enviar" e passar por essa mudança de estilo de vida drástica. Eu teria ficado bastante feliz, mas eu não estava. Era um “eu” muito grande, e que precisava de mais.
Portanto, este “eu” extremamente preocupado consigo mesmo, entendeu que a única maneira de encontrar a verdadeira felicidade (meu direito inalienável, certo?) era manter Torá e mitsvot.
Bastante justo. Então eu vou ser feliz?
Bem, não exatamente. Comecei a ouvir que não era apenas sobre fazer, era também sobre ser.
Todo o “fazer” é para mudar o “ser”, para que a nossa existência fique consciente de si mesmo (eu peguei essa parte), entretanto, completamente ligada ao seu Criador em cada aspecto dessa existência. (O que?)
Espere um segundo. Eu deveria tentar auto-transcender para que tudo o que sou, tenho ou desejo seja apenas para D’us? Isto é muito mais difícil de fazer para um "eu" como o meu.
Mas é a minha missão divina, no entanto. E D’us não pede mais de nós do que nós somos capazes de fazer. Assim como Ele é ilimitado, temos a capacidade de sermos ilimitados. Podemos ser tudo e nada, e algo entre os dois, tudo ao mesmo tempo. Todos os dias temos de clicar em "enviar", e nós estamos a caminho de amar o que Ele ama (alguém precisa de gefilte fish?) e de detestar que Ele detesta (o sentimento de separação Dele, até o peixe gefilte).
A sabedoria chassídica ensina que todos nós devemos viver como se levássemos dois pedaços de papel, um em cada bolso. Em um deles deve estarr escrito: "Eu não sou nada além de cinzas e pó", e, no outro, "O mundo inteiro foi criado para mim." Ambos os ditos são corretos. A chave para a verdadeira felicidade é dominar a compreensão de quando puxar para fora qual papel.
Eu ainda estou trabalhando nisso, e estou muito feliz com isso.
