Você é feliz?
Dicas do mês de Adar
Por Eliezer Shemtov

David: Quer ouvir uma piada de trás para frente?
Diego: OK. Vá em frente.
David: Comece a rir...
Isto pode soar como uma piada boba, mas como veremos, ela contém uma lição valiosa.
A felicidade é um dos objetivos mais procurados e, ao mesmo tempo, dos mais evasivos. Todo mundo quer tê-la, mas nem todo mundo sabe como encontrá-la facilmente.
Por que é tão difícil encontrá-la?
Talvez porque nós estejamos procurando-a no lugar errado...
O mês de Adar é um momento oportuno para analisar o tema da felicidade, pois como os nossos sábios nos ensinaram: Mishenichnás Adar, marbin besimchá, "Quando o mês de Adar entra, aumentamos em alegria."1 Isto é especialmente verdadeiro neste ano, sendo um ano bissexto judaico, que contém dois meses de Adar, ou sessenta dias de alegria.
Nós encontramos um comando explícito na Torá2 para ser feliz durante as festas.
O Rei David em seus Salmos3 diz: Ivdu et Hashem besimchá, "Sirvam a D'us com alegria."
Maimônides4 aponta que a felicidade é um elemento fundamental do nosso serviço a D'us, e sua ausência é uma grande falha.
De acordo com o Baal Shem Tov, nada causa tanto dano espiritual como a falta de alegria, porque a depressão abre as portas para todos os tipos de decadência.
Agora, como podemos ordenar a alguém para ser feliz? Como pode alguém até mesmo optar por implementar tal ordem se ele não é, naturalmente, feliz?
De acordo com os ensinamentos chassídicos, a felicidade é o estado natural de ser. Um bebê saudável é naturalmente feliz. O estado natural do ser humano é ser feliz. À medida que se cresce e amadurece, a percepção da realidade pode sabotar esse estado natural. Felicidade e a falta dela, portanto, não são tanto os resultados da realidade, mas da nossa percepção dela. Quando se reconfigura a percepção negativa, o estado natural de felicidade fluirá mais uma vez.
Vejamos um exemplo.
Uma das principais causas para a tristeza é o sentimento de fracasso. Como superar a tristeza que ele provoca?
A fim de definir "fracasso", é preciso primeiro determinar os parâmetros de "sucesso". Se alguém decide correr uma maratona de 40 km, por exemplo, e termina em último lugar, isso é considerado um sucesso ou um fracasso? Bem, isso obviamente depende de qual era o seu objetivo — vencê-la ou completá-la.
Às vezes, o sentimento de fracasso é simplesmente o resultado de sua arrogância. Se alguém se considera mais capaz do que realmente é, e assim, estabelece metas que vão muito além de sua capacidade real, em vez de se sentir feliz com o que conseguiu realizar, ele se sente um fracassado, por conta do que não foi capaz de fazer.
O sábio da Mishná, Ben Zoma, expressa isso de forma muito sucinta: Eizehu Ashir? Hasame'ach Bechelko. "Quem é rico? Aquele que está feliz com o seu quinhão"5 Esse dito parece contraditório; seria de se pensar que o oposto é verdadeiro, que a riqueza traz a felicidade, ao invés de a felicidade ser a causa da riqueza. Aqui nós temos uma profunda lição para a vida. A riqueza não é o produto da situação em sua conta bancária; é o resultado da situação em sua mente.
Como se alcança tal atitude "enriquecedora"? Não soa algo conformista, se estar satisfeito com o que se tem? Como isso se coaduna com a ambição natural, que se tem e se deve ter, e com a vontade de superar as próprias realizações? Será que é mesmo benéfico para uma pessoa estar em conformidade com a sua realidade e não tentar melhorar sua situação?
Aqui chegamos ao cerne da questão. Ser feliz não significa necessariamente estar satisfeito e estar insatisfeito não é necessariamente sinônimo de ser infeliz. Você pode estar feliz e insatisfeito ao mesmo tempo e por causa da mesma situação.
Podemos entender por que isso acontece, analisando a história da Torá que nos fala sobre o encontro entre Jacob e Esaú.6 Cerca de trinta anos depois de Jacob ter que fugir da ira de seu irmão Esaú, por ter recebido as bênçãos de seu pai, Isaac, chegara o momento de voltar para casa. Quando Jacob soube que seu irmão estava a caminho para encontrá-lo com 400 homens armados para guerra, ele se preparou de várias maneiras, uma das quais foi um presente generoso composto por servos, gado e animais de carga, a fim de acalmá-lo. Quando eles finalmente se encontram e se abraçam, Esaú pergunta ao seu irmão: qual é o propósito de tudo isso que você mandou?". Ao que Jacob responde que era "um presente enviado a fim de encontrar favor em seus olhos". Esaú responde: "Eu tenho muito, meu irmão; deixemos o que é seu, permanecer seu." Jacob responde: "Por favor, aceite o meu presente que foi trazido a você, pois D'us me agraciou e eu tenho tudo..."7.
Qual dos dois era mais rico, Esaú, que proclamou que tinha "muito" ou Jacob que afirmava ter "tudo"?
Nós realmente não sabemos quem tinha mais zeros em sua conta bancária — e isso nem sequer é a questão, pois a riqueza real depende de atitude. Esaú disse que ele tinha "muita coisa", porque ele queria ainda mais; ele não sentia que tinha tudo o que ele desejava. Jacob, por outro lado, disse que tinha "tudo", porque ele entendia que tinha tudo o que precisava.
Por que eles tinham tais perspectivas diferentes?
Esaú atribuía sua riqueza a seus esforços pessoais, e avaliava seu valor com base em suas necessidades e desejos pessoais. Jacob, por outro lado, entendia que tudo o que ele tinha não era apenas para seu próprio prazer pessoal, mas, a fim de cumprir a sua missão de vida dada por D'us. Tudo o que ele tinha não era apenas o resultado de seus esforços, mas porque D'us tinha planejado assim. Se o que ele tem é provido por D'us, isso significa que ele tem absolutamente tudo o necessário, porque se ele precisasse de qualquer outra coisa, a fim de cumprir a sua missão, D'us a teria fornecido para ele. "Eu tenho tudo", disse ele.
Podemos agora ter uma melhor compreensão do que Ben Zoma diz sobre o fato de que um homem rico é aquele que está feliz com o que tem: não apenas satisfeito, mas feliz. Saber que o que se tem vem de D'us e lhe é dado a fim de cumprir o propósito para o qual foi criado, isso o faz feliz. Ele é realmente rico, porque ele não só tem muito; ele não tem absolutamente tudo que precisa naquele momento. Isto está em forte contraste com aquele que trabalha principalmente para realizar objetivos pessoais com base em interesses pessoais, e, portanto, nunca está realmente satisfeito.
Há outras percepções negativas que se pode ter e que provocariam tristeza. Ao identificá-las, compreendê-las e reconfigurá-las, pode-se restaurar sua felicidade. Essas diferentes atitudes são analisadas extensivamente no Tanya (capítulos 26-33).
Ah, qual é a lição que aprendemos com a piada lá do início deste artigo? Que uma das formas mais eficientes para alcançar a felicidade pessoal é agindo feliz. Ria, e a felicidade vai seguir o exemplo.
Notas de Rodapé
1.Talmud, Taanit 29a.
2.Deut. 16:14-15.
3.Salmo 100:2.
4.Mishneh Torah, Hilchot Lulav 08:15.
5.Pirkei Avot 4:1.
6.Genesis 32:4-33:17.
7.Ibid. 33:9,11.
O rabino Eliezer Shemtov é o emissário Chabad-Lubavitch em Montevidéu, Uruguai, e um colaborador do site Chabad.org.
Trabalho artístico por Sefira Ross, uma designer freelance e ilustradora cujas criações originais enfeitam muitas páginas do Chabad.org. Residente em Seattle, Washington, seus dias são passados entre ilustrações para muitas tarefas e ser mãe.
