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O Oitavo Dia (Tazria 5776)

Quarta-feira, 06 Abril, 2016 - 0:41

O Oitavo Dia (Tazria 5776)

04 de abril de 2016

Havdallah POST

 

Nossa parashá começa com parto e, no caso de uma criança do sexo masculino, "No oitavo dia, na carne de seu prepúcio, será circuncidado" (Lev. 12:3). Isso ficou conhecido não apenas como milá, "circuncisão", mas algo completamente mais teológico, brit milá", "o pacto da circuncisão". Isso porque, mesmo antes do Sinai, quase na aurora da história judaica, a circuncisão tornou-se o sinal da aliança de D'us com Abraão (Gn 17:1-14).

Por que a circuncisão? Por que isso não foi, desde o início, apenas uma mitsvá, mais um comando entre outros, mas o próprio sinal da nossa aliança com D'us e Sua conosco? E por que no oitavo dia? A parashá da semana passada é chamada Shemini, "o oitavo [dia]" (Lev. 9:1), porque ela tratava da inauguração do Mishkan, o Santuário, que também ocorreu no oitavo dia. Existe uma ligação entre estes dois eventos bastante diferentes?

O lugar para começar é um estranho Midrash que registra um encontro entre o governador romano Tyranus Rufus [1] e Rabi Akiva. Rufus começou a conversa perguntando, "quais obras são melhores, as de D'us ou as do homem?" Surpreendentemente, o rabino respondeu: "Aquelas do homem." Rufus respondeu: "Mas olhe para os céus e a terra. Pode um ser humano fazer algo assim? "Rabi Akiva respondeu que a comparação foi injusta. "Criar o céu e a terra é claramente além da capacidade humana. Dê-me um exemplo tirado de matérias que estão no âmbito humano. "Rufus então disse: "Por que vocês praticam a circuncisão?" A isso, Rabi Akiva respondeu:" Eu sabia que você ia fazer essa pergunta. É por isso que eu disse de antemão que as obras do homem são melhores do que as de D'us".

O rabino então colocou diante do governador espigas de milho e bolos. O milho não processado é o trabalho de D'us. O bolo é o trabalho do homem. Não é mais agradável comer o bolo do que espigas de milho cruas? Rufus, em seguida, disse: "Se D'us realmente quer que pratiquemos a circuncisão, por que Ele não fez os bebês nascerem circuncidados?" Rabi Akiva respondeu: "D'us deu essas ordens para Israel para refinar nosso caráter." [2] Esta é uma conversa muito estranha, mas, como veremos, profundamente significativa. Para entender isso, temos que voltar para o início dos tempos.

A Torá nos diz que durante seis dias D'us criou o universo e no sétimo, descansou, declarando-o santo. Sua última criação, no sexto dia, foi a humanidade: o primeiro homem e a primeira mulher. De acordo com os sábios, Adão e Eva pecaram, comendo do fruto proibido já naquele mesmo dia e foram condenados ao exílio do Jardim do Éden. No entanto, D'us atrasou a execução da sentença por um dia, para lhes permitir passar o Shabat no jardim. Quando o dia chegou ao fim, os humanos estavam prestes a ser enviados para o mundo na escuridão da noite. D'us teve pena deles e mostrou-lhes como fazer luz. É por isso que acendemos uma vela especial de Havdalá, não apenas para marcar o final do Shabat, mas também para mostrar que nós começamos a semana dia de trabalho com a luz que D'us nos ensinou a fazer.

A vela da Havdalá representa, portanto, a luz do oitavo dia – que marca o início da criatividade humana. Assim como D'us começou o primeiro dia da criação, com as palavras: "Haja luz", então no início do oitavo dia Ele mostrou aos seres humanos como eles também poderiam fazer a luz. A criatividade humana é concebida no Judaísmo como paralelo à criatividade divina[3], e seu símbolo é o oitavo dia.

É por isso que o Tabernáculo foi inaugurado no oitavo dia. Como Nechama Leibowitz e outros observaram, existe um paralelismo inconfundível entre a linguagem da Torá usada para descrever a criação do universo por D'us e a criação do Santuário pelos israelitas. O Tabernáculo era um microcosmo – um cosmos em miniatura. Assim, Gênesis começa e Exodus termina com histórias da criação, a primeira, por D'us, a segunda, pelos Israelitas. O oitavo dia é quando celebramos a contribuição humana para a criação.

É também por isso que a circuncisão ocorre no oitavo dia. Toda a vida, acreditamos, vem de D'us. Cada ser humano carrega sua imagem e semelhança. Vemos cada criança como um presente de D'us: "As crianças são a provisão do Senhor; o fruto do ventre, sua recompensa" (Sl, 127:3). No entanto, é preciso um ato humano – a circuncisão – para sinalizar que uma criança judia masculina entrou na aliança. É por isso que ocorre no oitavo dia, para enfatizar que o ato que simboliza a entrada na aliança é um ato humano – assim como foi quando os israelitas no sopé do Monte Sinai disseram: "Tudo o que o Senhor disse. faremos e obedeceremos"(Ex. 24:7).

Mutualidade e reciprocidade marcam a natureza especial da aliança específica que D'us fez, primeiramente com Abraão, em seguida, com Moisés e os israelitas. É isso que a diferencia do pacto universal que D'us fez com Noé e, através dele, com toda a humanidade. Esse pacto, estabelecido em Gênesis 9, não envolveu qualquer resposta humana. Seu conteúdo foi as sete leis de Noé. Seu sinal foi o arco-íris. Mas D'us não pediu nada de Noé, nem mesmo o seu consentimento. O Judaísmo incorpora uma dualidade única do universal e do particular. Estamos todos em aliança com D'us pelo simples fato de nossa humanidade. Somos obrigados, todos nós, pelas leis básicas da moralidade. Isso é parte do que significa ser humano.

Mas ser judeu é também ser parte de uma aliança particular de reciprocidade com D'us. D'us chama. Nós respondemos. D'us começa o trabalho e convida-nos para concluí-lo. Isso é o que o ato da circuncisão representa. D'us não fez as crianças do sexo masculino nascerem circuncidadas, disse Rabi Akiva, porque Ele deliberadamente deixou este ato, este sinal da aliança, para nós.

Agora começamos a entender toda a profundidade da conversa entre Rabi Akiva e o governador romano Tineius Rufus. Para os romanos, gregos e o mundo antigo em geral, os deuses podiam ser encontrados na natureza: o sol, o mar, o céu, a terra e suas estações, os campos e sua fertilidade. No Judaísmo, D'us está além da natureza, e Sua aliança conosco leva-nos além da natureza também. Portanto, para nós, nem tudo que é natural é bom. A guerra é natural. O conflito é natural. A competição violenta para ser o macho alfa é natural. Judeus – e outros inspirados pelo D'us de Abraão – acreditam, como Kathryn Hepburn disse a Humphrey Bogart em "A Rainha Africana", que "Natureza, Sr. Allnut, é aquilo dentro do que fomos colocados neste mundo para elevar-nos acima dela."

Os romanos achavam a circuncisão estranha porque era antinatural. Por que não celebrar o corpo humano tal como D'us o criou? D'us, disse Rabi Akiva ao governador romano, valoriza a cultura, não apenas a natureza, valoriza o trabalho de seres humanos e não apenas o Seu trabalho. Foi este conjunto de ideias – que D'us deixou a criação inacabada para que pudéssemos nos tornar Seus parceiros na sua completação; que, respondendo aos comandos de D'us, tornamo-nos refinados; que D'us Se deleita com nossa criatividade e nos ajudou ao longo do caminho, ensinando os primeiros seres humanos como fazer luz – que fez o Judaísmo único em sua fé na fé de D'us na humanidade. Tudo isso está implícito na ideia do oitavo dia como o dia em que D'us enviou os seres humanos para o mundo para se tornarem Seus parceiros na obra da criação.

Por que isso é simbolizado no ato da circuncisão? Porque se Darwin estava certo, então o mais primitivo de todos os instintos humanos é se buscar passar genes para a próxima geração. Essa é a força mais poderosa da natureza dentro de nós. A circuncisão simboliza a ideia de que há algo maior do que a natureza. Passar nossos genes para a próxima geração não deve ser simplesmente um instinto cego, um impulso darwiniano. A aliança com Abraão foi baseada na fidelidade sexual, na santidade do casamento, e na consagração do amor que traz nova vida ao mundo.[4] É uma rejeição da ética do macho alfa.

D'us criou a natureza física: a natureza descrita pela ciência. Mas Ele nos pede para ser co-criadores, com Ele, da natureza humana. Como R. Abraham Mordecai Alter de Ger disse. "Quando D'us disse:" Façamos o homem à nossa imagem ", a quem Ele estava falando? Para o próprio homem. D'us disse ao homem: Vamos – vocês e Eu – fazer o homem juntos"[5]. O símbolo desta co-criação é o oitavo dia, o dia em que Ele nos ajuda a começar a criar um mundo de luz e amor.

e-sig

[1] Quintus Tineius Rufus, governador romano da Judeia durante a revolta de Bar Kochba. Ele é conhecido na literatura rabínica como "o perverso". Sua hostilidade à prática judaica foi um dos fatores que provocaram a revolta.

[2] Tanhuma, Tazria, 5.

[3] Isso também é sinalizado na oração da Havdalá que menciona cinco havdalot, "distinções", entre o sagrado e o profano, luz e escuridão, Israel e as nações, Shabat e os dias da semana, e a final "quem distingue entre o sagrado e o profano." Isso se assemelha a Gênesis 1, no qual o verbo lehavdil – distinguir, separar – aparece cinco vezes.

[4] É por isso, como já salientei em outro lugar, que Gênesis não critica a idolatria, mas critica implicitamente, pelo menos em seis ocasiões, a falta de uma ética sexual entre as pessoas com as quais os patriarcas e suas famílias entram em contato.

[5] R. Avraham Mordecai Alter de Ger, Likkutei Yehudah.

 

Rabbi Jonathan Sacks is the former Chief Rabbi of Great Britain and the British Commonwealth. To read more writings and teachings by Lord Rabbi Jonathan Sacks, or to join his e‑mail list, please visit www.rabbisacks.org.
Artwork by Sefira Ross, a freelance designer and illustrator whose original creations grace many Chabad.org pages. Residing in Seattle, Washington, her days are spent between multitasking illustrations and being a mom.

 

Comentários sobre: O Oitavo Dia (Tazria 5776)
4/6/2016

Rosa Tilde Menaei escreveu…

Excelente, a Ilustração da Parashá não poderia ser melhor.
4/28/2017

Anonymous escreveu…

Excelente - por ser muito didático.

Desperta-me a vontade de retransmitir para parentes, amigos e colegas docentes universitários e peço autorização dos editores.

Do ponto de vista técnico, falta indicar o nome do tradutor.

Seria muito interessante saber se os textos do Rabino Jonathan Sacks foram reunidos em livro e traduzidos para o português no formato comercial ou de divulgação aberta e livre.

Abraham Zakon