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ב"ה

Mais elevado que os anjos

Quarta-feira, 16 Novembro, 2016 - 21:18

 By Rabbi Jonathan Sacks 

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É uma das cenas mais famosas da Bíblia. Abraão está sentado à entrada desua tenda no calor do dia, quando três       estranhos passam. Ele insiste com eles para descansar e tomar algum alimento. O texto chama-os  de homens. Eles são, de fato, anjos, vindo dizer a Sara que ela terá um filho.

 

O capítulo parece simples. É, no entanto, complexo e ambíguo. Consiste em três seções:

Verso 1: D'us aparece a Abraão.

Versículos 2-16: Abraão e os homens/anjos.

Versículos 17-33: O diálogo entre D'us e Abraão sobre o destino de Sodoma.

Como essas seções são relacionadas entre si? São uma cena, duas ou três? A resposta mais óbvia é três. Cada uma das seções acima é um evento separado. Primeiro, D'us aparece a Abraão, como Rashi explica, "para visitar os enfermos" após a circuncisão de Abraão. Em seguida, os visitantes chegam com as notícias sobre o filho de Sara. Em seguida, realiza-se o grande diálogo sobre a justiça.

Maimônides sugere que há duas cenas (a visita dos anjos e o diálogo com D'us). O primeiro verso não descreve um evento. É, sim, um título de capítulo.

A terceira possibilidade é que temos uma cena contínua única. D'us aparece a Abraão, mas antes que Ele possa falar, Abraão vê os transeuntes e pede a D'us que espere enquanto ele lhes serve comida. Somente quando eles partiram — no versículo 17 — ele se volta para D'us, e a conversa começa.

Como interpretarmos o capítulo, afetará a maneira como traduzimos a palavra Adonai no terceiro verso. Poderia significar (1) D'us, ou (2) "meus senhores" ou "senhores". No primeiro caso, Abraão estaria se dirigindo ao céu. No segundo, ele estaria falando com os transeuntes.

Várias traduções inglesas tomam a segunda opção. Aqui está um exemplo:

O Senhor apareceu a Abraão. . . Ele olhou para cima e viu três homens de pé contra ele. Ao vê-los, ele correu da porta da sua tenda para encontrá-los. Inclinando-se baixinho, disse: "Senhores, se eu mereci o seu favor, não passem pelo seu criado sem uma visita."

A mesma ambiguidade aparece no capítulo seguinte (19:2), quando dois visitantes de Abraão (neste capítulo são descritos como anjos) visitam Lot em Sodoma:

Os dois anjos chegaram a Sodoma à tarde, enquanto Lot estava sentado junto aos portões da cidade. Quando os viu, levantou-se para encontrá-los e, curvando-se, disse: "Eu rogo-lhes, senhores, voltem-se para a casa de vosso servo, para passar a noite lá e banhar-vos os pés."

Normalmente, as diferenças de interpretação da narrativa bíblica não têm implicações haláchicas. São assuntos de desacordo legítimo. Este caso é incomum, porque se traduzimos Adonai como "D'us", é um nome sagrado, e tanto a escrita da palavra por um escriba, e a maneira como tratamos um pergaminho ou documento que o contém, têm especial rigor na lei judaica. Se traduzimos como "meus senhores" ou "senhores", então ele não tem santidade especial.

A leitura mais simples de ambos os textos — o que diz respeito a Abraão, o outro, a Lot — seria ler a palavra em ambos os casos como "senhores". A lei judaica, no entanto, determinou o contrário. No segundo caso, a cena com Lot, ele é lido como "senhores", mas no primeiro é lido como "D'us". Este é um fato extraordinário, porque sugere que Abraão interrompeu D'us quando Ele estava prestes a falar, e pediu-Lhe para esperar enquanto ele atendia aos seus convidados. Foi assim que a tradição decidiu que a passagem deveria ser lida:

O Senhor apareceu a Abraão... Ele olhou para cima e viu três homens de pé defronte a ele. Ao vê-los, ele correu da porta da sua tenda para encontrá-los, e se curvou. [Dirigindo-se a D'us], ele disse: "Meu D'us, se eu achar graça aos Teus olhos, não deixes o teu servo [isto é, por favor, espere até que eu tenha dado hospitalidade a esses homens]". Os homens e disse:] "Deixen-me enviar alguma água para que vocês possam banhar seus pés, e descansar debaixo desta árvore..."

Esta audaciosa interpretação tornou-se a base de um princípio no judaísmo: "Maior é a hospitalidade do que receber a Presença Divina". Diante da escolha entre escutar a D'us e oferecer hospitalidade aos seres humanos, Abraão escolheu este último. D'us aquiesceu a seu pedido, e esperou enquanto Abraão trouxe para os visitantes comida e bebida, antes de engajá-lo em diálogo sobre o destino de Sodoma.

Como isso pode ser assim? Não é desrespeitoso na melhor das hipóteses, herético, na pior das hipóteses, colocar as necessidades dos seres humanos antes de assistir à presença de D'us?

O que a passagem nos diz, porém, é algo de imensa profundidade. Os idólatras do tempo de Abraão adoravam o sol, as estrelas e as forças da natureza como deuses. Eles adoravam o poder e os poderosos. Abraão sabia, no entanto, que D'us não está na natureza, mas além da natureza. Há apenas uma coisa no universo em que Ele estabeleceu Sua imagem: a pessoa humana, cada pessoa, poderosa e impotente ao mesmo tempo.

As forças da natureza são impessoais, e é por isso que aqueles que as adoram acabam por perder sua humanidade. Como o salmo diz:

Seus ídolos são de prata e ouro, feitos por mãos humanas. Eles têm bocas, mas não podem falar; Olhos, mas não podem ver; Eles têm ouvidos, mas não podem ouvir; Narinas, mas não podem cheirar... Seus fabricantes tornar-se-ão como eles, e assim ocorrerá com todos que depositam sua confiança neles.

Você não pode adorar forças impessoais e permanecer uma pessoa: compassiva, humana, generosa, indulgente. Precisamente porque acreditamos que D'us é pessoal, alguém a quem podemos dizer "Você", honramos a dignidade humana como algo sagrado. Abraão, pai do monoteísmo, conhecia a verdade paradoxal de que viver a vida da fé é ver o traço de D'us na face do estranho. É fácil receber a Presença Divina quando D'us aparece como D'us. O que é difícil é sentir a Presença Divina quando ela se disfarça como três transeuntes anônimos. Essa foi a grandeza de Abraão. Ele sabia que servir a D'us e oferecer hospitalidade a estranhos não eram duas coisas, mas uma.

Um dos mais belos comentários sobre este episódio foi dado por R. Shalom de Belz, que observou que no verso 2 os visitantes são descritos como estando acima de Abraão (nitsavim alav). No versículo 8, Abraão é descrito como estando acima deles (omed aleihem). Ele disse: primeiro, os visitantes estavam mais elevados do que Abraão, porque eles eram anjos e ele, um simples ser humano. Mas quando lhes deu comida, bebida e abrigo, ficou ainda mais elevado que os anjos. Honramos a D'us honrando Sua imagem, a humanidade.

Comentários sobre: Mais elevado que os anjos
10/24/2018

Rosa Tilde Menaei escreveu…

Abraão só nos deu bom exemplo,foi um sábio !!