O Êxodo Existencial
Por Tzvi Freeman

Egito e Faraó são fatos da vida. Ser humano é ser escravizado. Se você não está fazendo êxodo, está fazendo escravidão.
Para ser escravizado, você deve ser humano. Um computador não é um escravo. Animais não são escravos. Os seres humanos podem ser escravos porque um ser humano é um mestre. Um ser humano é essencialmente livre. Tão livre, que para o ser humano existir é ser aprisionado.
O gato doméstico não se sente aprisionado em seu apartamento, mas um tigre se sentiria assim. O animal não se sente aprisionado em seu corpo, mas a alma humana, sim. Para algumas almas humanas, o universo inteiro é uma prisão. Por quê? Porque, de alguma forma, a alma humana percebe algo além. Algo totalmente livre. O que é a simples realidade para outras criaturas, para o ser humano é uma prisão.
Porque a experiência de cada ser humano é um paradoxo excruciante. Nós nascemos com um sentido inato do "Eu". Mais do que qualquer criatura sobre a terra, sentimos "Eu sou, nada mais é além de mim. Tudo o mais não é senão uma extensão do meu ser".
Todos nós somos pequenos faraós, como o profeta Ezequiel o descreveu: "O grande peixe no rio declarando: 'O rio é meu, eu o criei, eu criei a mim mesmo' ".
E, no entanto, temos uma mente, um senso de consciência não só do nosso ambiente, mas também do "Eu" que existe dentro desse ambiente. E essa mente nos diz que nossa experiência inata é absurda.
É absurdo acreditar que estou no controle. Eu não fiz este lugar. Eu não tenho ideia do que está acontecendo aqui. Há todo um mundo lá fora que parece perfeitamente capaz de continuar a existir muito bem sem mim. Há outros lá fora, cada um dos quais é um mundo inteiro, um "Eu" sobre a pessoa dele ou dela. Meu "Eu" é absurdo.
No entanto, desde o momento em que abri os olhos e fiquei de pé sobre os meus pés, não conseguia imaginar outro "Eu" além de mim, ou qualquer coisa deste mundo existente sem meu "Eu".
Não é algo que você deixa ao crescer. Você pode crescer para fora do egoísmo, da ganância, da impulsividade. Você pode superar qualquer vício. Mas o ego não é um vício. É você. Ele estava lá quando você começou e é a base de tudo que você faz. Você pode escondê-lo o suficiente para que ele não o envergonhe em público. Você pode embelezá-lo bastante para que outros 'Eu"s não fiquem muito irritados com ele. Você pode optar por ignorar suas interjeições e uivos quando sua mente diz que ele acabou de ficar fora de controle.
Mas sempre estará lá, como a terra sobre a qual você pisa, como o ar que você respira, como a escuridão que espreita ao fundo, à espera do sol se pôr, para dizer: "Eu nunca realmente fui embora. Mesmo quando o sol brilhava radiante, eu ainda estava lá. Eu sou o padrão. Eu sou o fundamento de tudo o que existe. Eu sou. "
É assim que o mestre da Cabala, o Ari, descreve a escravidão do Egito: É quando a mente não pode falar com o coração.
Cada parte do mundo corresponde a uma faceta da alma humana. Cada faceta da alma humana corresponde a uma característica da anatomia humana. Onde está o Egito? É o pescoço, aquele lugar mais estranho da forma humana onde uma cabeça maciça deve se conectar através de um membro ágil com o resto do corpo. O canal pelo qual o ar, a comida, o sangue, os dados e os comandos devem passar de um mundo para outro. Egito em hebraico é Mitzrayim, que significa literalmente, "os estreitos".
E Faraó? Suas letras hebraicas são as mesmas que a palavra hebraica Oref, "a nuca, a parte de trás do pescoço". Faraó, como o Ari descreveu, fica na nuca e estrangula-nos. Ele sequestra tudo o que está na mente para si mesmo, não permitindo que mais do que um gotejamento entre no corpo.
E assim, nós somos escravizados: Nossa mente conhece uma verdade superior, óbvia, sobre a qual nosso coração não faz mais do que falar da boca para fora. A mente se esforça para voar de sua gaiola na futilidade, suas asas cortadas pelas paixões egocêntricas do corpo e do coração.
Cada luta humana, cada doença, física e psicológica, pode ser atribuída a esta patologia subjacente. Tudo o que fazemos é um golpe para escapar dessa escravidão. Aquele que se rendeu, se rendeu à morte. Aquele que escapa, mesmo por um dia, provou a vida verdadeira.
Como escapar da escravidão do meu "Eu", se "Eu" sou eu? Não com amor, porque então ainda há "Eu" que ama. Não em meditação, porque há "Eu" meditando. Não com nenhum esforço para a iluminação, porque em cada esforço há "Eu" outra vez, procurando por isso me fará um "Eu" maior, mais iluminado.
Mas apenas trocando essa escravidão por uma maior. A servidão final.
O "Eu" tem um segredo zelosamente guardado, escreveu o Maharal de Praga. É que o "Eu" não é mais do que D'us respirando dentro de mim.
Por que D'us deseja respirar dentro de mim? Porque D'us deseja a comunhão com um ser que é também um "Eu". É por isso que eu sou um "Eu": Não porque essa é a verdade, não porque não pode ser de outra forma, mas porque D'us assim deseja. Este é o drama do universo, reproduzido e repetido dentro de cada uma de suas criaturas, o drama do "Eu" e "Outro", atraídos um pelo outro, enquanto permanecendo seres separados. No núcleo do universo encontra-se o paradigma de tudo: O caso de amor de D'us e do humano "Eu".
A separação desses dois seres é uma prisão. Sua comunhão é liberdade. E como é a sua comunhão? Através de um noivado do meu "Eu" com aquele "Eu" original. Como fizemos quando nos ligamos a Ele através de Sua Torá, dizendo: "Nós faremos". E assim D'us disse a Moisés: "Quando você tirar o povo do Egito, Você me servirá nesta montanha. " Porque só há um caminho para deixar o Egito. Não por ser isso ou esforçar-se por aquilo, mas por escravidão a um "Eu" Infinito, uma escravidão que não conhece limites.
