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Entre o Destino e o Acaso
Rabino Jonathan Sacks
O terceiro livro da Torá é conhecido em inglês como "Leviticus", uma palavra derivada do grego e latino, que significa "pertencentes aos Levitas". Isto reflete o fato de que, no Judaísmo, os sacerdotes — descendentes de Aharon — eram da tribo de Levi, e que o antigo nome rabínico para o livro era Torat Kohanim, "a lei dos sacerdotes". É um título apropriado. Enquanto Shemot e Bamidbar são permeados por narrativas, o livro entre eles trata em grande parte sobre sacrifícios e os rituais associados primeiro com o Tabernáculo e mais tarde com o Templo em Jerusalém. É, como o nome Torat Kohanim implica, sobre os sacerdotes e sua função como guardiães do sagrado.
Em contraste, o nome tradicional, Vayikrá, "E Ele chamou", parece simplesmente acidental. Vayikrá apenas é a primeira palavra do livro, e não há nenhuma conexão entre ela e os assuntos de que trata esse livro. Mas isso não é verdade; como vou demonstrar aqui adiante, é justamente o oposto. Há uma conexão profunda entre a palavra vayikrá e a mensagem subjacente do livro como um todo.
Para entender isso, devemos notar que há algo de incomum na maneira como a palavra aparece em um Sefer Torá. Sua última letra, um aleph, é escrita em tamanho pequeno — quase como se não existisse . Ao contrário de vayikrá, que se refere a uma chamada, uma convocação, uma reunião por solicitação, vayikar sugere uma reunião acidental, um mero acontecimento.
Com a sua sensibilidade à nuance, os sábios notaram a diferença entre o chamado a Moisés (Vayikrá el Moshé) com o qual o livro começa e a aparição de o profeta pagão Bilaam (vayikar Elokim el Bilaam).1 É assim que o midrash coloca isto:
Qual é a diferença entre os profetas de Israel e os profetas das nações pagãs do mundo? R. Hama ben Hanina disse: O Santo, bendito seja Ele, revela-se às nações pagãs por uma forma incompleta, como se diz, "E o Senhor apareceu (vayikar) a Bilaam", enquanto que aos profetas de Israel Ele aparece em uma forma completa, como se diz, "E Ele chamou (vayikrá) a Moisés".
Rashi é mais explícito:
Todas as comunicações [de D'us ] [a Moisés], quer use as palavras "falar" ou "dizer" ou "ordenar", são precedidas por um chamado (keri'ah), que é um termo de carinho, usado pelos anjos quando eles se dirigem um ao outro, como se diz: "E um chamou ao outro" (vekara zé el zé 2). No entanto, para os profetas das nações do mundo, Sua aparência é descrita por uma expressão significando um encontro casual e impureza, como diz, "E o Senhor apareceu a Bilaam".
Baal HaTurim vai um passo adiante, comentando o aleph pequeno:
Moisés era grande e humilde, e só queria escrever vayikar, significando "acaso", como se o Santo, bendito seja, tivesse aparecido a ele somente em um sonho, como o disse em relação a Bilaam [vayikar, sem aleph] — sugerindo que D'us lhe apareceu por mero acaso. No entanto, D'us disse-lhe para escrever a palavra com um aleph. Moisés então disse a Ele, por causa de sua humildade extrema, que ele só escreveria um aleph que fosse menor que os outros alephs na Torá, e ele realmente o escreveu pequeno.
Algo de grande importância está sendo sugerido aqui; mas antes de prosseguir, voltemo-nos ao final do livro. Pouco antes do fim, na parashá de Bechukotai, ocorre uma das duas passagens mais aterrorizantes da Torá. Ela é conhecida como tochachá3 e detalha o terrível destino que acontecerá ao povo judeu se eles deixarem de manter sua aliança com D'us:
Vou trazer tal insegurança para aqueles de vocês que sobreviverem na terra de seus inimigos que o som de uma folha balançando os fará fugir da espada. Eles cairão sem ninguém perseguindo-os... A terra de seus inimigos os consumirá.4
No entanto, apesar da natureza chocante do aviso prévio, a passagem termina com uma nota de consolo:
Eu me lembrarei da minha aliança com Yaacov, assim como da minha aliança com Itschack e da minha aliança com Avraham. Eu me lembrarei da Terra... Mesmo quando estiverem na terra dos seus inimigos, não os rejeitarei ou os abominarei para destruí-los por completo, rompendo com eles a Minha aliança. Eu sou o Senhor seu D'us. Mas, por amor a eles, me lembrarei da aliança com seus antepassados, que Eu trouxe do Egito à vista das nações para ser seu D'us; Eu sou o Senhor. 5
A palavra-chave da passagem é a palavra keri. Aparece exatamente sete vezes na tochachá — um sinal seguro de significado. Aqui estão dois deles, a título de exemplo:
Se, apesar disso, ainda não Me escutas, mas continuas a ser hostil a Mim, então, na Minha ira, serei hostil a ti, e Eu mesmo te castigarei sete vezes pelos teus pecados.
O que significa a palavra keri? Eu a traduzi aqui como "hostil. "Há outras sugestões. O Targum a lê como "endurecer-se", Rashbam como "recusar", Ibn Ezra como "excesso de confiança", Saadia como "rebelde." No entanto, Rambam dá-lhe uma interpretação completamente diferente, e faz isso em um contexto haláchico : O comando prescreve a oração e o som do alarme com trombetas sempre que o problema bate na comunidade. Pois, quando a Escritura diz: "Contra o adversário que vos oprime, soarás um alarme com as trombetas", o significado é: Clamem em oração e soem um alarme ... Este é um dos caminhos para o arrependimento. A comunidade grita em oração e soa um alarme quando ameaçada por problemas, todos percebem que o mal veio sobre eles como resultado de seus próprios erros ... e que o arrependimento fará com que o problema seja removido.
Se, no entanto, as pessoas não clamem em oração e não soem um alarme, mas apenas digam que é a ordem natural das coisas que tal fato tenha acontecido com elas, e que seu problema é uma questão de puro acaso, então elas escolheram um caminho cruel, que fará com que elas continuem incorrendo em seus erros, e assim, trazendo problemas adicionais sobre elas. Pois quando a Escritura diz: "Se você continuar a ser keri para Comigo, então, na Minha ira, Eu serei keri para com você", significa: Se, quando Eu trouxer problemas para fazê-lo arrepender-se, e você disser que o problema é puramente acidental, então vou acrescentar à sua dificuldade a raiva de ter sido deixado à própria sorte.7
Rambam entende que keri está relacionado com a palavra mikreh, que significa "acaso". As maldições, em sua interpretação, não são retribuição divina. Não será D'us quem faz Israel sofrer; serão outros seres humanos. O que acontecerá é simplesmente que D'us retirará Sua proteção. Israel terá de enfrentar o mundo sozinho, sem a presença abrigada de D'us. Isso, para Rambam, é simples, inescapável medida-por-medida (midá kenegued midá). Se Israel acredita na Providência Divina, eles serão abençoados pela Providência Divina. Se eles vêem a história como mera casualidade — o que Joseph Heller, autor de Catch-22, chamou de "uma sacola aberta de coincidências aleatórias sopradas pelo vento" — então, de fato, eles serão deixados ao acaso. Sendo uma nação pequena e vulnerável, a chance não será amável com eles.
Estamos agora em posição de entender a notável proposição que liga o início de Vayikrá ao fim — e uma das verdades espirituais mais profundas. A diferença entre mikrá e mikreh — entre a história como o chamado de D'us e a história como um evento após outro sem propósito ou significado — é, na língua hebraica, quase imperceptível. As palavras soam o mesmo. A única diferença é que a primeira tem um aleph, enquanto a última, não. (O significado do aleph é óbvio: a primeira letra do alfabeto, a primeira letra dos Dez Mandamentos, o "Eu" de D'us.)
A letra aleph é quase inaudível. Sua aparência em um Sefer Torá no início de Vayikrá (o "pequeno aleph") é quase invisível. Não espere — a Torá está sugerindo - que a presença de D'us na história será sempre tão clara e inequívoca como foi durante o êxodo do Egito e a divisão do Mar Vermelho. Na maior parte do tempo, dependerá de sua própria sensibilidade. Para aqueles que olham, Sua presença será visível. Para aqueles que ouvem, Ela pode ser ouvida. Mas primeiro você tem que olhar e ouvir. Se você optar por não ver ou ouvir, então vayikrá se tornará vayikar. A chamada será inaudível. A história parecerá um mero acaso. Não há nada de incoerente nessa ideia. Aqueles que acreditam nela, terão muitos argumentos para justificá-la. Na verdade, diz D'us na tochachá: se você acredita que a história é acaso, então ela se tornará assim.
Mas, na verdade, não é assim. A história do povo judeu — como até mesmo não-judeus como Pascal, Rousseau e Tolstoi declararam eloquentemente — testemunha a presença de D'us em seu meio. Somente assim, um povo tão pequeno, vulnerável, relativamente impotente, poderia sobreviver e ainda dizer hoje — depois do Holocausto — am Yisrael chai, o povo judeu vive.
E, assim como a história judaica não é mera casualidade, não é mera coincidência que a primeira palavra do livro central da Torá seja vayikrá, "e Ele chamou." Ser judeu é acreditar que o que nos acontece como povo é o chamado de D'us — tornar-se "um reino de sacerdotes e um Nação santa ".
NOTAS DE RODAPÉ
1. Números 23:16.
2. Isaías 6:3.
3. A outra aparece em Deuteronômio 28.
4. Levítico 26:36–38.
5. Levítico 26:42, 44.
6. Levítico 26:27–28.
7. Mishneh Torah, Taaniyot 1:1–3.
POR RABINO JONATHAN SACKS O rabino Jonathan Sacks é o antigo rabino-chefe da Grã-Bretanha e da Commonwealth britânica. Para ler mais escritos e ensinamentos de Lord Rabino Jonathan Sacks, ou para juntar-se a sua lista de e-mail, visite www.rabbisacks.org.
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(NT) Relativo às leis judaicas
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