A Imaginação Cronológica
Quero, neste estudo, olhar para uma das características mais distintivas e menos compreendidas do Judaísmo — a imaginação cronológica.
O mundo moderno foi moldado por quatro revoluções: a inglesa, a americana, a francesa e a russa. Duas delas — a inglesa e a americana — foram inspiradas na Bíblia Hebraica, que nos séculos XVI e XVII, por causa da Reforma e da invenção da impressão, se tornou amplamente disponível pela primeira vez. As revoluções francesa e russa, em contraste, foram inspiradas pela filosofia: a francesa, pela obra de Jean Jacques Rousseau, a russa, pelos escritos de Karl Marx.
Suas histórias são marcadamente diferentes. Na Inglaterra e na América, a revolução trouxe a guerra, mas levou a um crescimento gradual das liberdades civis, dos direitos humanos, do governo representativo e, em última análise, da democracia. As revoluções francesa e russa começaram com sonhos de utopia, e terminaram num pesadelo do inferno. Ambas deram origem ao terror, ao derramamento de sangue e à repressão dos direitos humanos.
Qual é a diferença entre filosofia e visão política no coração do Tanach? A resposta está em seus diferentes entendimentos do tempo.
A parashá Behar estabelece um modelo revolucionário para uma sociedade de justiça, liberdade e dignidade humana. No seu núcleo, está a ideia do Jubileu, cujas palavras ("Proclamem a liberdade em toda a terra para todos os habitantes dela") estão gravadas em um dos grandes símbolos da liberdade, o Sino da Liberdade na Filadélfia. Uma das suas disposições é a libertação de escravos:
"Se seu irmão se empobrece e é vendido a você, não o trabalhe como um escravo. Ele estará com você como um empregado ou um residente. Ele lhe servirá somente até o ano do Jubileu, e, então, ele e seus filhos serão livres para deixá-lo e retornar à sua família e à terra hereditária de seus antepassados. Pois eles são os Meus servos, a quem tirei da terra do Egito; eles não serão vendidos como escravos. Não os subjuguem através do trabalho árduo — vocês temerão o vosso D'us... Porque os filhos de Israel são servos para Mim: são os Meus servos, que Eu tirei da terra do Egito — Eu sou o Senhor vosso D'us."
Os termos da passagem são claros. A escravidão é errada. É um assalto à condição humana. Ser como "à imagem de D'us", significa ser convocado para uma vida de liberdade. A própria ideia da soberania de D'us significa que somente Ele pode reivindicar o serviço da humanidade. Aqueles que são servos de D'us não podem ser escravos de mais ninguém. Hoje, a uma considerável distância de tempo, é difícil retomar o radicalismo desta ideia, derrubando, como fez, os próprios alicerces da religião nos tempos antigos. As primeiras civilizações — Mesopotâmia, Egito — baseavam-se em hierarquias de poder que eram vistas como inerentes à própria natureza do cosmos. Assim como havia (como se acreditava) hierarquia e gradações entre os corpos celestes, assim também havia na terra. Os grandes rituais religiosos e monumentos foram projetados para espelhar e endossar essas hierarquias. A esse respeito Karl Marx tinha razão. A religião na Antiguidade era o manto de santidade ocultando a brutalidade nua do poder. Ela canoninazava o status quo.
No coração de Israel havia uma ideia quase impensável à mente antiga: que D'us intervém na história para libertar escravos — que o Poder supremo está do lado dos impotentes. Não é por acaso que Israel nasceu como uma nação sob condições de escravidão. Israel carregou consigo ao longo de toda a história a memória daqueles anos — o pão da aflição e as ervas amargas da servidão — porque o povo de Israel serve como um eterno lembrete a si mesmo e ao mundo da necessidade moral da liberdade e da vigilância necessária para protegê-la. O D'us livre deseja a livre adoração de seres humanos livres.
No entanto, a Torá não aboliu a escravidão. Este é o paradoxo no coração da parashá Behar. Contudo, certamente a escravidão restou limitada e humanizada. A cada sétimo dia, os escravos tinham direito a descanso e a um gosto de liberdade. No sétimo ano, os escravos israelitas eram libertados. Se eles escolhiam o contrário, eles eram libertados no ano de Jubileu. Durante seus anos de serviço, eles deveriam ser tratados como empregados. Eles não deveriam ser submetidos a trabalhos extenuantes ou que lhes esmagassem o espírito. Tudo o que desumanizasse a escravidão foi proibido. No entanto, a própria escravidão não foi banida. Por que não? Se era errada, deveria ter sido anulada. Por que a Torá permitiu que uma instituição fundamentalmente falha continuasse?
Foi Moisés Maimônides, no Guia para os Perplexos, que explicou a necessidade de tempo na transformação social. Todos os processos na natureza, argumentou ele, são graduais. O feto desenvolve-se lentamente no útero. Estágio por estágio, uma criança torna-se madura. E o que se aplica aos indivíduos, aplica-se às nações e às civilizações:
É impossível ir de repente de um extremo para o outro. É, portanto, de acordo com a natureza do homem, impossível para ele repentinamente romper com tudo a que estava acostumado.
Assim, D'us não pediu aos israelitas que eles, de repente, abandonassem tudo a que tinham se acostumado no Egito. "D'us se absteve de prescrever o que as pessoas, por sua disposição natural, seriam incapazes de obedecer". Mas, certamente, D'us pode fazer qualquer coisa, inclusive mudar a natureza humana. Por que, então, Ele não simplesmente transformou os israelitas, tornando-os capazes imediatamente da mais alta virtude? A resposta de Maimônides é simples:
"Eu não digo isso, porque acredito que é difícil para D'us mudar a natureza de cada pessoa. Pelo contrário, é possível, e está em Seu poder... Mas nunca foi Sua vontade fazê-lo, e nunca o será. Se fosse parte de Sua vontade mudar a natureza de qualquer pessoa, a missão dos profetas e a outorga da Torá teriam sido supérfluas."
Com milagres, D'us muda a natureza, mas nunca a natureza humana. Se Ele o fizesse, todo o projeto da Torá — a adoração livre de seres humanos livres — teria sido tornado nulo e sem efeito. Não há grandeza na programação de um milhão de computadores para obedecer a instruções. A grandeza de D'us residiu justamente n'Ele assumir o risco de criar um ser, homo sapiens, capaz de escolha e responsabilidade — de obedecer a D'us livremente.
D'us queria que a humanidade abolisse a escravidão, mas por sua própria escolha, e isso leva tempo. As economias antigas eram dependentes da escravidão. A forma particular tratada em Behar (a escravidão através da pobreza) era o equivalente funcional do que hoje é chamado de "workfare", isto é, benefícios sociais em troca do trabalho. A escravidão como tal não foi abolida na Grã-Bretanha nem na América ate o século XIX, e na América, não sem uma guerra civil. O desafio ao qual a legislação da Torá foi uma resposta é: como se pode criar uma estrutura social na qual, por vontade própria, as pessoas acabem por ver a escravidão como errada e escolham livremente abandoná-la?
A resposta estava em um único hábil golpe: mudar a escravidão de uma condição ontológica ("O que sou eu?") para uma circunstância temporária. Nenhum israelita foi autorizado a ser, ou ver-se, como um escravo. Ele ou ela poderia ser reduzido(a) à escravidão por um período de tempo, mas esta era uma situação transitória, não uma identidade. Compare com o relato dado por Aristóteles:
"Por analogia, o mesmo deve necessariamente se aplicar à humanidade como um todo. Portanto, todos os homens que diferem uns dos outros, tanto quanto a alma difere do corpo, ou o homem de uma besta selvagem... essas pessoas são escravas por natureza, e é melhor para elas estar sujeitas a esse tipo de controle, como é melhor para as outras criaturas que mencionei. Pois um homem que é capaz de pertencer a outra pessoa é por natureza um escravo...[i]"
Para Aristóteles, a escravidão é uma condição ontológica, um fato de nascimento. Alguns nascem para governar, outros para serem governados. Esta é precisamente a cosmovisão à que a Torá se opõe. Todo o complexo da legislação bíblica é projetado para garantir que nem o escravo nem seu dono devem jamais ver a escravidão como uma condição permanente. Um escravo deve ser tratado "como um empregado ou um residente" — em outras palavras, com o respeito devido a um ser humano livre. Dessa forma, a Torá assegurou que, embora a escravidão não pudesse ser abolida de um dia para o outro, acabaria por sê-lo. E assim aconteceu.
Há profundas diferenças entre a filosofia e o Judaísmo, e uma delas reside em seus respectivos entendimentos do tempo. Para Platão e seus herdeiros, a filosofia é sobre a verdade intemporal (ou, para Hegel e Marx, sobre "inevitabilidade histórica"). O Judaísmo é sobre verdades (como a liberdade humana) que são realizadas no tempo e através do tempo. Essa é a diferença entre o que eu chamo de a imaginação lógica e a cronológica. A imaginação lógica produz a verdade como sistema. A imaginação cronológica produz a verdade como uma história (uma história é uma sequência de eventos estendida através do tempo). As revoluções baseadas em sistemas filosóficos falham — porque a mudança nos assuntos humanos leva tempo, e a filosofia é incapaz de compreender a dimensão humana do tempo. O resultado inevitável é que (na famosa frase de Rousseau) elas "forçam os homens a serem livres" — uma contradição em termos, e a realidade da vida sob o Comunismo Soviético. Revoluções baseadas no Tanach tiveram sucesso, porque elas se processam de acordo com a essência da natureza humana, reconhecendo que leva tempo para as pessoas mudarem. A Torá não aboliu a escravidão, mas deu início a um processo que levaria as pessoas a chegarem por sua própria conta à conclusão de que era errada. Como ela fez isso é uma das maravilhas da história.
Rabino Jonathan Sacks é o ex-rabino-chefe da Grã-Bretanha e da Commonwealth britânica. Para ler mais escritos e ensinamentos de Lord Rabbi Jonathan Sacks, ou para se juntar à sua lista de e-mail, visite www.rabbisacks.org.
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NOTA DE RODAPÉ
[i] Politics 1.5

