O Homem que o Rei David Levou para o Tribunal

Na cidade Okop, o berço do Baal Shem Tov, vivia um homem rico chamado Yoel. Ele era um homem temente a D'us, um profundo estudioso da Torá e muito meticuloso no cumprimento das mitsvot.
Certo dia, ele foi tomado por um desejo de cumprir o mandamento de escrever um pergaminho da Torá. Ele não poupou nenhuma despesa, para que sua Torá fosse a melhor das melhores. Ele comprou ovelhas, matou-as e distribuiu a carne aos pobres. As peles foram transformadas em pergaminho que foi usado especialmente para esta Torá.
Yoel contratou um escriba bem conceituado, que era conhecido tanto por ser temente a D'us, como por ser experiente e versado em seu ofício. Todas as manhãs, o escriba mergulhava nas águas purificadoras do mikvê antes de iniciar sua tarefa sagrada. Quando a Torá finalmente foi completada, Yoel decidiu fazer uma grande celebração do siyum ("término”) com uma bela refeição, e convidou todos os líderes de Okop — os rabinos, os líderes comunais, os shochatim (magarefes rituais), os chazanim (cantores) e os patronos ricos da comunidade.
De fato, Yoel estava bem ciente de suas próprias realizações como um erudito. Assim, antes do evento, ele começou a preparar um discurso que iria pronunciar diante de todos os seus convidados de honra.
Berel, o transportador de água de Okop, não fora convidado. Ele era um homem simples e trabalhador, que se levantava cedo todas as manhãs e rezava na sinagoga Chevrah Tehillim. Junto com seus pares, ele recitava o Livro inteiro de Tehilim (Salmos) todas as manhãs, antes de passar o dia tentando ganhar a vida.
Quando Berel ouviu que haveria uma celebração em honra de uma nova Torá, ele ingenuamente assumiu que seria bem-vindo ao evento alegre.
Com uma canção em seu coração, ele colocou seu manto de Shabat desgastado, limpou sua aparência e chegou à casa de Yoel. Desacostumado como estava às sutilezas de jantares finos, ele tomou um assento destinado a um dos convidados mais importantes.
Quando Yoel viu Berel o portador de água sentado em um lugar destinado a um estudioso da Torá, aproximou-se dele com um olhar zangado e sibilou: "Só porque você recita muitos Tehilim, você se vê como um indivíduo de prestígio?" Berel entendeu o recado, levantou-se e saiu da casa.
A refeição e as festividades continuaram como planejadas: talheres e copos de cristal, velas em elaborados candelabros, chalá trançada, vinho encorpado e outras iguarias. Havia uma orquestra que tocava melodias felizes, e os convivas cantaram e dançaram em círculo em honra à Torá.
Quando os dançarinos ficaram exaustos, Yoel se levantou para falar seu discurso. Era uma obra-prima, demonstrando sua proficiência e profundidade de compreensão da Torá, com muitos insights afiados que deleitaram os ouvintes.
Naquela noite, Reb Yoel entrou na cama com um coração alegre: "Graças a D'us, não houve problemas durante o meu discurso. Rolou boca afora sem qualquer tropeço. Os eruditos da cidade não esconderam o espanto que sentiram diante de meus novos insights sobre a mitsvá de escrever um rolo de Torá.
Ainda enlevado com o brilho do dia maravilhoso, Yoel fechou os olhos e adormeceu.
O anjo encarregado dos sonhos visitou a cama de Reb Yoel, e Yoel sonhou que um vento gigante o levava a um lugar distante. Olhando ao redor, ele se viu no meio de um deserto estéril. Ao longe, viu uma cabana bem iluminada. Ao entrar, viu uma mesa ocupada por homens com longas barbas, usando vestes dos juízes.
Aquele que parecia ser o juiz principal chamou Yoel pelo seu nome e disse-lhe que tinha sido convocado para um processo judicial por ninguém menos que o rei David, filho de Jessé, o doce cantor de Israel.
O queixoso levantou-se e começou a dizer: "Estou trazendo uma queixa contra Yoel de Okop por aviltar o meu Livro de Salmos e por envergonhar publicamente Berel, o carregador de água que lê os Salmos diariamente com grande devoção".
O promotor pediu aos juízes que decretassem uma sentença pesada para as ações de Yoel: a morte. Yoel ficou boquiaberto, certo de que ele não mais viveria para ver o dia seguinte.
De repente, um dos homens pediu para falar. Era o próprio Baal Shem Tov. "Que bem haverá se este homem morrer?", perguntou o Baal Shem Tov. "Ninguém nunca saberá o motivo de sua morte súbita, e a riqueza dos Tehillim nunca será conhecida. Deixem-no viver e ser encarregado da missão de retificar suas transgressões, e que todos saibam quão sagradas e preciosas são as palavras do rei David!"
Yoel então sentiu outro vento soprando-o de volta à sua confortável cama.
Quando acordou, ele estava tomado pelo temor e embebido em suor frio.
No dia seguinte, durante os serviços noturnos, Yoel entrou na pequena sinagoga do povo simples, a Chevrah Tehillim. Lá, levantou-se diante de todas as pessoas que ele havia desdenhado até então e pediu perdão a Berel. Então contou=lhes toda a história que se passara, incluindo seu sonho, sem omitir nenhum detalhe.
A partir deste dia, Yoel sofreu uma grande mudança. Ele parou de se gabar de sua perspicácia acadêmica e, em vez disso, uniu-se aos humildes recitadores de Tehillim. Todas as manhãs, ele ia para Chevrah Tehillim e sentava-se entre os simples trabalhadores e lia Tehilim com entusiasmo e calor.
Baseado em Sipuray Tzadikim, impresso em Sichat Hashavuah, nº. 802 (5762).
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