O Perigo da Suspeita
É uma história fascinante, e daí vem um dos grandes princípios do Judaísmo. Duas das tribos, Reuben e Gad, veem que a terra a leste do Jordão é ideal como pastagem para seus grandes rebanhos de gado. Eles se aproximam de Moisés e pedem permissão para se estabelecer lá, em vez de atravessar o Jordão. Moisés inicialmente fica furioso com este seu pedido. Isso, diz ele, irá desmoralizar o resto do povo: "Seus compatriotas irão à guerra enquanto vocês se sentam aqui?" Eles não tinham aprendido nada com o pecado dos espiões que, ao desmotivar outros por meio de seu comportamento, condenaram uma geração inteira a vaguear quarenta anos no deserto?
Os Reubenitas e Gaditas entenderam a mensagem. Eles explicam que não desejam se isentar das lutas de seus irmãos israelitas. Eles estão plenamente preparados para acompanhá-los para dentro da Terra Prometida e lutar ao lado deles. "Nós não retornaremos para nossas casas até que todos os israelitas tenham recebido sua herança". Moisés faz com que eles se comprometam a fazer isso, e concede seu pedido na condição de que eles cumprissem sua palavra. "Quando a terra for conquistada diante de D'us, vocês poderão retornar, livres de qualquer obrigação diante de D'us e Israel, e essa terra será sua como sua propriedade permanente diante de D'us".
A frase em itálico — literalmente "vocês serão inocentes diante de D'us e Israel" — se tornou, no decorrer do tempo, um axioma ético do Judaísmo. Não é suficiente fazer o que é certo aos olhos de D'us. Deve-se também agir de forma a ser visto como tendo feito o correto aos olhos de um amigo. É preciso estar acima de suspeitas. Essa é a regra de viheyitem nekiyim: "Você será inocente aos olhos de D'us e de Israel".
Como isso se traduz na lei e na vida judaicas? A Mishná em Shekalim fala dos três períodos do ano em que verbas eram separadas das doações coletivas armazenadas no tesouro do Templo. A Mishná afirma:
"A pessoa que fazia a apropriação não entrava na câmara vestindo um manto com franjas, ou sapatos, ou tefillin, ou um amuleto, de modo que, se ele se tornasse pobre mais tarde, as pessoas não diriam que ele se tornou pobre porque cometeu uma ofensa na câmara, e no caso dele se tornar rico, as pessoas não diriam que ele assim se tornou por meio de apropriação indevida das contribuições na câmara —, pois devemos ser livres de qualquer culpa aos olhos das pessoas, assim como devemos ser livres de culpa diante de D'us, como se diz: 'Você será inocente aos olhos de D'us e de Israel' ".
Da mesma forma, a Tosefta afirma:
Quando alguém entrava para retirar a oferta da câmara, eles o revistavam quando ele entrava e quando ele saía, e eles continuavam conversando com ele desde o momento em que ele entrava até o momento em que ele saía.
Não só não deve haver erros quando moedas são retiradas do Tesouro do Templo; Não deve haver suspeita de erros. Portanto, a pessoa que reunia o dinheiro não devia usar qualquer item de roupa em que moedas pudessem ser escondidas. Ele deveria ser revistado antes e depois, e até mesmo se envolver em conversação para que ele não fosse tentado a esconder algum dinheiro na sua boca.
Dois ensinamentos rabínicos do período do Segundo Templo falam de famílias famosas por seus papéis na vida do Templo, e até que ponto elas foram para colocar-se além de qualquer suspeita. A família Garmu era especializada em preparar o pães da proposição. Foi dito sobre eles que "a memória deles era tida em alta estima porque pães finos nunca foram encontrados nas casas de seus filhos, para que as pessoas não pudessem dizer que eles alimentavam-nos da preparação do pão da proposição". Da mesma forma, a família Avtinas era especialista em preparação do incenso usado no Templo. Eles também eram tidos em grande consideração porque "nunca uma noiva de sua família passou perfumada, e quando eles se casavam com uma mulher de outro lugar, eles estipulavam que ela não deveria sair perfumada, para que as pessoas não dissessem que eles se perfumavam a si próprios da preparação do incenso do Templo".
O princípio geral é afirmado no Talmud Yerushalmi:
R. Samuel bar Nachman disse em nome do Rabino Jonathan: Nos Livros Mosaicos, nos Profetas e nos Escritos, achamos que uma pessoa deve cumprir suas obrigações perante os homens, assim como deve cumpri-las diante de D'us. Onde consta isso nos Livros Mosaicos? No versículo: "Você será inocente aos olhos de D'us e de Israel". Onde, nos Profetas? No versículo: "D'us, o Senhor D'us, Ele sabe, e Israel também saberá." Onde, nos Escritos? No versículo: "Você encontrará graça e favor aos olhos de D'us e dos homens". Gamliel Zoga perguntou a R. Yose Bar Avun: "Qual versículo diz isso com mais clareza?" Ele respondeu: "Você será inocente aos olhos de D'us e de Israel".
Essa preocupação tornou-se a base de dois princípios haláchicos. O primeiro é conhecido como chashad, "suspeita" — que refere-se a certos atos, permitidos em si mesmos, mas que se tornam proibidos sob o argumento de que a sua realização pode levar outros a suspeitar que alguém esteja fazendo algo proibido. Assim, por exemplo, R. Shimon bar Yochai, considerou que uma das razões pelas quais a Torá prescreve que a pe'ah [o canto do campo deixado para os pobres] deveria ser reservada somente ao final da colheita, se atribui à "suspeita". Se o dono do campo tivesse reservado um canto não colhido no início ou no meio da colheita, os pobres viriam e levariam o que é deles antes do fim da colheita, e um transeunte passando depois disso, poderia pensar que nenhum canto havia sido deixado para essa mitsvá. Do mesmo modo, os rabinos ordenaram que, se uma casa tem duas portas em lados diferentes, as velas de Chanuká deveriam ser acesas em ambas, de modo que um transeunte, vendo uma porta, mas não a outra, não pensasse que o dono da casa falhara em cumprir a mitsvá.
Um princípio haláchico estreitamente relacionado é a ideia conhecida como marit ha-ayin, "aparências". Assim, por exemplo, antes que os substitutos do leite se tornassem comuns, era proibido beber líquidos tipo leite (feito, por exemplo, de amêndoas) juntamente com a carne, sob o argumento de que as pessoas poderiam pensar que era o próprio leite. Da mesma forma, é proibido no Shabat pendurar roupas que se tornaram úmidas (por exemplo, nas quais caiu água) para secar, para que as pessoas não pensem que foram lavadas no Shabat. Em geral, não é permitido realizar ações que, permitidas em si mesmas, se prestem à má interpretação.
A conexão ou o contraste entre esses dois princípios é questão de algum debate na literatura rabínica. Há aqueles que veem chashad e marit ha-ayin como muito semelhantes, talvez até dois nomes para a mesma coisa. Outros, no entanto, veem-nos como diferentes, até mesmo, opostos. Chashad representa a possibilidade de as pessoas pensarem que você fez algo proibido e, portanto, pensam mal de você. Marit ha-ayin diz respeito a casos em que as pessoas, sabendo que você não é o tipo de pessoa de fazer algo proibido, deduzem uma conclusão equivocada: porque você está fazendo X, então Y é permitido, porque X é facilmente confundido com Y. Assim, para tomar um dos casos mencionados acima, as pessoas que veem você pendurar roupas para secar no Shabat, podem concluir que lavar a roupa no Shabat é permitido, o que não é verdade, é proibido.
Essa preocupação com as aparências é — ao menos superficialmente — estranha. Certamente, o que importa é o que D'us pensa sobre nós, não o que as pessoas pensam de nós. O Talmud fala-nos de um encontro emocionante entre o rabino Yochanan ben Zakkai e seus discípulos no seu leito de morte:
Eles disseram-lhe: "Mestre, abençoe-nos". Ele disse-lhes: "Que seja a vontade de D'us que o medo do céu seja tão importante para vocês quanto o medo de [as opiniões dos] seres humanos". Eles disseram : "Isso é tudo?" Ele disse: "Halevai (oxalá) que vocês consigam alcançar esse [nível de espiritualidade]. Vocês podem ver [o quão difícil é], porque quando alguém quer cometer um pecado, ele diz: "Espero que ninguém me veja" [colocando assim o medo dos seres humanos acima do medo de D'us, Que tudo vê]"
Além disso, é proibido suspeitar que as pessoas estejam fazendo coisas erradas. Os rabinos disseram: "Aquele que suspeita de um inocente é [punido sendo] afligido corporalmente" e "Deve-se sempre julgar uma pessoa na balança dos méritos". Por que, então, se é dever do observador não julgar com dureza, devemos nós — os observados — sermos incumbidos do dever de agir acima de suspeição?
A resposta é que não temos permissão para confiar no fato de que outros nos julgarão benevolentemente, mesmo que assim devam eles proceder. Rashi faz um comentário pesado sobre a vida de Moisés:
Se ele deixasse sua tenda cedo, as pessoas diriam que ele teve uma briga com sua esposa. Se ele demorasse, eles diriam: "Ele está planejando tramas malignas contra nós".
Mesmo Moisés, que dedicou sua vida com total altruísmo ao povo de Israel, não conseguiu evitar suas suspeitas. R. Moses Sofer chega a dizer que ele ficou perturbado ao longo de sua vida pelo desafio do comando "Você será inocente aos olhos de D'us e Israel", acrescentando que era muito mais fácil cumprir a primeira metade do comando ("aos olhos de D'us") do que a segunda ("aos olhos de Israel"). Na verdade, ele se perguntou se era possível que alguém o cumprisse na íntegra. Talvez, ele disse, isso é o que o Eclesiastes quis dizer quando ele disse: "Não há um homem justo na terra que apenas faça o que é certo e nunca peque".
No entanto, há uma ideia profunda embutida no conceito de viheyitem nekiyim: "Você será inocente". O sábio Talmúdico Rava era mordaz quanto àqueles que se levantavam na presença de um rolo da Torá, mas não o faziam na presença de um sábio da Torá. Ser judeu é ser convocado para tornar-se um sefer Torá vivo. As pessoas aprendem a se comportar não só dos livros que estudam, mas também — talvez até mais — das pessoas que conhecem. Os educadores judeus falam de "pessoas-texto", assim como de "livros-texto", significando que precisamos de modelos de vida, bem como de instruções formais. Por essa razão, o rabino Akiva costumava seguir o rabino Yehoshua para ver como ele se conduzia em sua vida particular, dizendo: "Isso também faz parte da Torá, e eu preciso aprender". Os princípios gêmeos do chashad e do marit ha-ayin significam que nós devemos agir de forma a nos mantermos como um modelo a ser seguido (ficando acima de suspeitas — a regra do chashad) e que, assim como um livro de instruções não deve ser ambíguo, também assim deve ser nossa conduta (ao não se prestar a más interpretações — a ideia de marit ha-ayin). As pessoas devem poder observar a maneira como nos comportamos e assim, aprender de nós a forma como um judeu deve viver.
O fato de que essas regras se aplicam a todos os judeus, não apenas aos grandes sábios, é um testemunho eloquente do igualitarismo espiritual da halachá. Cada um de nós é convidado a se tornar um modelo a ser seguido. O fato, também, de que essas regras existem — apesar do fato de que somos comandados a não suspeitar que outros estejam praticando transgressões —, nos diz algo mais sobre o Judaísmo, a saber, que é um sistema de deveres, não apenas de direitos. Não podemos dizer, quando agimos de uma maneira favorável à suspeição: "Não fiz nada de errado; Pelo contrário, a outra pessoa — ao alimentar dúvidas sobre mim—, ela é que está errada." Com certeza, ela está. Mas isso não nos exime da responsabilidade de conduzir nossas vidas de uma maneira que esteja acima de suspeita. Cada um de nós deve desempenhar nosso papel na construção de uma sociedade de respeito mútuo.
Isso nos leva de volta para onde começamos, com o pedido das tribos de Reuben e Gad para se estabelecerem na terra a leste do Jordão. Moisés, lembramos, aquiesceu ao seu pedido com a condição de que, antes, eles se juntassem às outras tribos em suas batalhas. E eles assim o fizeram. Anos depois, Josué convocou-os e disse-lhes que tinham cumprido a promessa deles e agora tinham direito a retornar ao lugar onde construíram suas casas (Josué 22).
No entanto, por uma profunda ironia histórica, a suspeita foi despertada novamente, desta vez por uma razão bastante diferente, a saber, que eles tinham construído um altar em seu território. As outras tribos suspeitaram que eles estivessem quebrando a fé com o D'us de Israel, ao construir seu próprio lugar de culto. Israel estava à beira da guerra civil. A suspeição era infundada. Os Reubenitas e os Gaditas explicaram que o altar que eles construíram não pretendia ser um lugar de culto, mas, sim, um sinal de que eles também eram parte da nação israelita — uma salvaguarda contra a possibilidade de que, um dia, gerações mais tarde, as tribos vivendo em Israel propriamente dito (a oeste do Jordão) declarariam os Reubenitas e os Gaditas como estrangeiros, uma vez que viviam do outro lado do rio:
É por isso que dissemos: "Vamos nos preparar e construir um altar", — mas não para oferendas queimadas ou sacrifícios. Pelo contrário, deve ser uma testemunha entre nós e vocês e as gerações que se seguirem, que adoraremos ao Senhor no Santuário com nossas ofertas queimadas, sacrifícios e oferendas comunitárias. Então, no futuro, seus descendentes não poderão dizer aos nossos: "Vocês não têm participação no Senhor". E nós dissemos: "Se eles algum dia nos disserem isso ou aos nossos descendentes, nós responderemos: Olhem para a réplica do altar do Senhor que nossos pais construíram, não para holocaustos ou sacrifícios, mas como testemunho entre nós e vocês".
A guerra civil foi evitada, mas por um triz.
A suspeita é uma característica generalizada da vida social, e é intensamente destrutiva. O Judaísmo — do qual um projeto central é a construção de uma sociedade graciosa construída sobre justiça, compaixão, responsabilidade mútua e confiança — enfrenta o problema em ambas as direções. Por um lado, ele nos ordena a não abrigar suspeitas, mas, ao contrário, a julgar generosamente as pessoas, dando-lhes o benefício da dúvida. Por outro lado, ele pede a cada um de nós que aja de uma maneira acima da suspeição, mantendo-se [como os rabinos o colocam] "longe da conduta injusta, de qualquer coisa que a isso se assemelhe, e de tudo que possa meramente parecer se assemelhar a isso".
Ser inocente diante de D'us é uma coisa; Ser inocente diante de outros seres humanos é outra coisa, e muito mais difícil. No entanto, esse é o desafio — não porque busquemos sua aprovação (isto é o que é conhecido como apaziguamento), mas porque somos convocados a ser modelos, exemplos, personificações vivas da Torá e porque somos chamados a ser unificadores — não uma presença divisória — na vida judaica. Como disse Chatam Sofer, não teremos sucesso sempre. Apesar dos nossos melhores esforços, outros ainda podem nos acusar (como eles acusaram Moisés) de coisas das quais somos totalmente inocentes. No entanto, devemos fazer o nosso melhor, sendo benevolentes em nosso julgamento dos outros e escrupulosos na maneira como nos conduzimos.
Rabino Jonathan Sacks foi Rabino-Chefe da Grã-Bretanha e da Comunidade Britânica.
Sefira Ross é uma designer freelance e ilustradora cujas criações originais adornam muitas páginas do Chabad.org. Residindo em Seattle, Washington, seus dias são gastos entre múltiplas tarefas de ilustrações e de ser mãe.

