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Sobre Pais e Professores

Quarta-feira, 19 Julho, 2017 - 10:04

Sobre Pais e Professores

Rabino Jonathan Sacks

Rabino Chefe Jonathan Sacks

Logo abaixo da superfície da Parashá desta semana, há uma história excepcionalmente pungente. Ocorre no contexto da oração de Moshé para que D'us aponte um sucessor como líder do povo judeu.

Uma dica é dada nas palavras de D'us a Moshé: "Depois de ter visto isso, você também será reunido ao seu povo, como o foi seu irmão Aharon". Rashi está intrigado com a palavra aparentemente supérflua "também" e faz o comentário de que "Moshé desejava morrer da forma como Aharon morrera".

Em que sentido Moshé tinha inveja de seu irmão? Será que era porque ele, como Aharon, desejava morrer sem dor? Certamente não. Moshé não tinha medo da dor. Será que era porque ele invejava a popularidade de seu irmão? De Aharon foi dito que, quando ele morreu, foi chorado por "todos os filhos de Israel", algo que a Torá não diz no caso de Moshé. Isso tampouco pode ser a resposta. Moshé sabia que liderança não significa popularidade. Ele não a procurava. Ele não poderia ter feito o que tinha que fazer e, ainda assim, alcançá-la.

Ketav Sofer dá o que certamente é a interpretação correta: Aharon teve o privilégio de saber que seus filhos seguiriam seus passos. Elazar, seu filho, foi nomeado sumo sacerdote em sua vida. Na verdade, até hoje, os cohanim são descendentes diretos de Aharon. Consequentemente, para Ketav Sofer, Moshé desejava ver um de seus filhos, Gershom ou Eliezer, tomar seu lugar como líder do povo. Mas não seria assim.

Rashi chega na mesma conclusão, observando uma segunda pista. A passagem em que Moshé pede a D'us para nomear um sucessor segue diretamente após a história das filhas de Tzelafchad, que pediram fossem autorizadas a herdar a parte na terra de Israel que teria ido ao seu pai, se ele não tivesse morrido . Rashi liga os dois episódios: "Quando Moshé ouviu D'us dizer-lhe para dar a herança de Tzelafchad às suas filhas, ele disse a si mesmo: ‘Chegou o tempo de eu fazer um pedido meu — que meus filhos devam herdar minha posição.’ D'us respondeu: ‘Não foi isso que Eu decidi. Yehoshua merece receber recompensa por lhe servir e nunca deixar a sua tenda.’ Isto é o que rei Shlomo quis dizer quando escreveu: ‘Ele, que guarda o vinhedo, deve comer seu fruto, e aquele que espera pelo seu mestre será honrado’ ". A oração de Moshé não foi atendida.

Assim, com os seus ouvidos sintonizados a todas nuances, os sábios e Rashi reconstruíram uma narrativa que se encontra logo abaixo da superfície do texto bíblico. O que aconteceu com os filhos de Moshé? Estaria ele, o grande líder, interiormente desapontado por eles não terem herdado seu papel? Que mensagem mais profunda o texto nos comunica? Existe alguma relevância permanente no desapontamento de Moshé? D'us de forma alguma lhe proporcionou consolo?

Moshé e Aharon representam os dois grandes papéis na continuidade judaica: horim e morim — pais e professores. Um pai entrega a herança judaica aos seus filhos; Um professor faz o mesmo aos seus discípulos. Aharon era o pai arquetípico; Moshé, o grande exemplo de um professor (até hoje o chamamos de Moshé Rabenu, "Moshé, nosso professor"). Aharon foi sucedido por seu filho; Moshé, pelo seu discípulo Yehoshua.

Os sábios em vários pontos enfatizaram que a liderança de Torá não passa automaticamente em todas as gerações. O Talmud (Nedarim 81a) afirma:

"Tenha cuidado para não negligenciar os filhos dos pobres, pois, a partir deles, a Torá continua, como está escrito: A água fluirá para fora dos seus baldes, o que significa que dos pobres entre elesemerge a Torá. E por que não é usual para os estudiosos darem à luz crianças estudiosas? Rabi Joseph disse: para que não se possa dizer que a Torá é o legado deles. Rabi Shisha, filho de Rabi Idi, disse: para que não sejam arrogantes para com a comunidade. Mar Zutra disse: porque eles agem de maneira descarada em direção à comunidade."

Se a liderança da Torá fosse dinástica, uma questão de herança, o Judaísmo rapidamente se tornaria uma sociedade de privilégios e hierarquia. Contra isso, os sábios se opuseram totalmente. Todos têm uma parte na Torá. É o patrimônio compartilhado de todo judeu. Em nenhum outro lugar isso está mais claramente expresso do que nas grandes palavras de Maimônides:

"Com três coroas, Israel foi coroado: com a coroa da Torá, a coroa do sacerdócio e a coroa da soberania. A coroa do sacerdócio foi concedida a Aharon... A coroa da soberania foi dada a David... A coroa da Torá, no entanto, é para todo o Israel, como é dito: Moshé nos ordenou a Torá, como uma herança da congregação de Jacob. Quem a quiser, pode obtê-la. Não suponha que as outras duas coroas sejam maiores do que a coroa da Torá, pois é dito: Por mim, os reis reinam e os príncipes decretam a justiça. Por mim, os príncipes governam. Daí aprendemos que a coroa da Torá é maior do que as outras duas coroas."

Esta é uma das grandes declarações igualitárias do Judaísmo. A coroa da Torá está disponível para quem a procura. Houve sociedades que procuraram criar igualdade distribuindo uniformemente o poder ou a riqueza. Nenhuma conseguiu plenamente. A abordagem judaica foi diferente. Uma sociedade de igual dignidade é aquela em que o conhecimento — o tipo de conhecimento mais importante, ou seja, a Torá, o conhecimento de como viver — está disponível igualmente para todos. Desde os tempos mais antigos até hoje, o povo judeu tem sido uma série de comunidades construídas em torno de escolas, sustentadas por fundos comunais, de modo que nenhum seja excluído.

Os sábios estabeleceram uma forte conexão entre o lar e a escola, pai e professor. Assim, por exemplo, Maimônides decreta:

"Um dever cabe a cada estudioso em Israel, o de ensinar a todos os discípulos que procuram instrução dele, mesmo que não sejam seus filhos, como é dito: 'E você deve ensiná-los diligentemente aos seus filhos'. Segundo a autoridade tradicional, o termo 'Seus filhos' inclui discípulos, pois os discípulos são chamados filhos, como é dito: 'E vieram os filhos dos profetas' (Reis II 2:3)."

Na mesma linha, ele escreve em outro lugar:

"Assim como uma pessoa é comandada a honrar e reverenciar seu pai, assim ele tem a obrigação de honrar e reverenciar seu professor, até mesmo em maior medida do que seu pai, pois seu pai lhe deu vida neste mundo, enquanto o professor, que o instrui com sabedoria, assegura para ele a vida no mundo vindouro."

A conexão corre na direção oposta também. Consistentemente, ao longo dos livros Moisacos, o papel de um pai é definido em termos de ensino e instrução. "Você deve ensinar estas coisas com

diligência aos seus filhos". "E ocorrerá, quando seu filho lhe perguntar... então você deverá dizer a ele." A educação é uma conversa entre gerações, entre pai e filho. No versículo em que a Bíblia explica por que Avraham foi escolhido como o pai de uma nova fé, diz: "Porque eu o escolhi, para que ele direcione seus filhos e sua casa depois dele para manter o caminho do Senhor fazendo o que é certo e justo. "Avraham foi escolhido para ser ambos, pai e educador.

A Moshé, portanto, lhe foi negada a chance de ver seus filhos herdar seu papel, de modo que sua decepção pessoal se tornaria uma fonte de esperança para as gerações futuras. A liderança da Torá não é a prerrogativa de uma elite. Não passa por sucessão dinástica. Não se limita aos descendentes de grandes estudiosos. Ela está aberta a cada um de nós, se nós a quisermos e lhe darmos nossos melhores esforços de energia e tempo. Mas, ao mesmo tempo, Moshé recebeu um grande consolo. Até hoje, os cohanim são os filhos de Aharon, assim como todos os que estudam a Torá, são os discípulos de Moshé. Para alguns é dado o privilégio de ser pai; para outros, o de ser professor. Ambos são maneiras pelas quais algo de nós continua no futuro. Pai-como-professor, professor-como-pai: estes são os maiores papéis do judaísmo, um imortalizado em Aharon, o outro tornado eterno em Moshé.

POR RABI JONATHAN SACKS

O rabino Jonathan Sacks é ex rabino-chefe da Grã-Bretanha e da Commonwealth Britânica. Para ler mais escritos e ensinamentos de Lord Rabi Jonathan Sacks, ou para se juntar à sua lista de e-mail, visite www.rabbisacks.org.

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