A Vingança dos Pivetes

Yaakov Abulafia e Yitzchak Shraga ficaram órfãos em tenra idade, e unidos por seu destino comum, tornaram-se amigos inseparáveis. Passavam seus dias nas ruas de Bagdá, e sustentavam-se tomando o que não lhes pertencia. Não havia crime no bairro que não tivesse seus nomes e, frequentemente, iam parar atrás das grades.
Um dia, eles notaram uma grande multidão se reunindo fora de uma das mansões da cidade. Era a casa do magnata local Avraham ben Chasdai. Os dois se misturaram à multidão e, vendo as mesas abastadas com todo tipo de iguarias, entraram na casa. Eles não perderam tempo e encheram seus pratos.
De repente, o som alto de um sino foi ouvido. Uma banda começou a tocar, e um coral infantil começou a cantar. Todos ficaram de pé quando um jovem de 17 anos, vestido elegantemente, com um talit branco sobre sua cabeça, passou, acompanhado por seus pais e com três rabinos seguindo atrás deles.
Quando o jovem chegou ao palco, a banda parou de tocar e o rabino-chefe abriu um pergaminho e começou a ler: "Nós, abaixo-assinados, estamos dando a nossa aprovação e ordenando o jovem, o senhor rabino Yehuda ben Chasdai. De agora em diante, ele pode instruir e julgar qualquer assunto haláchico [referente à lei judaica]".
O rabino-chefe então convidou o novo rabino para falar. Após suas declarações de abertura, em que agradeceu a seus pais e professores, ele passou a deslumbrar a multidão com um discurso erudito talmúdico e haláchico. Os dois meninos, Yaakov e Yitzchak, ficaram impressionados com o conhecimento desse rapaz, juvenil como eles próprios, e começaram a atravessar a multidão, até que foram avistados pelo jovem orador.
Quando o jovem rabino viu o par, interrompeu seu discurso e interpelou-os: "O que vocês dois estão fazendo aqui?" Com vergonha, eles desapareceram rapidamente.
Estavam ardendo com vontade de vingança. "Vamos emboscar o novo rabino à noite e surrá-lo até ele virar uma polpa", sugeriu Yaakov.
Yitzchak hesitou. "O que vamos ganhar aplicando-lhe uma surra? Ele nos envergonhou em público, o que equivale ao assassinato. [1] Eu tenho uma ideia, devemos fazer o mesmo e constrangê-lo em público, e então tomar a honra e o louvor."
"Mas como?", perguntou Yaakov.
"Nós sairemos de Bagdá e iremos para um local de estudo da Torá por cinco anos, onde estudaremos dia e noite com diligência, até que possamos estar no nível do nosso amigo arrogante. Então, poderemos nos vingar dele", disse Yitzchak.
Seu desejo de vingança era tão forte, que eles fizeram um pacto para executar o plano.
Eles viajaram para a cidade de Borsipa, onde havia uma grande yeshivá. Lá, havia um homem rico que estava disposto a apoiar os dois e os hospedou em sua casa. Lentamente, eles dominaram a linguagem do Talmud e começaram a avançar em sua aprendizagem.
Depois de cinco anos, eles decidiram ampliar seu aprendizado por mais alguns anos. Passaram-se oito anos, e eles se tornaram conhecidos como grandes sábios. Eles estavam em alta demanda entre pretendentes para casamento, e logo se casaram e formaram famílias.
Uma vez alcançado o status de grandes sábios, chegara o momento de executar seu plano. Despediram-se de suas esposas e iniciaram a viagem de volta a Bagdá. Quando chegaram, viram um aviso no boletim da cidade de que o sábio rabino Yehudah ben Chasdai falaria na grande sinagoga.
No dia seguinte, compareceram à sinagoga entre a grande multidão que tinha vindo ouvir. Era uma palestra complicada e conectada à halachá prática. Yaakov e Yitzchak não puderam deixar de notar que a premissa de toda a palestra era falha.
Yaakov queria gritar e refutar o rabino, mas Yitzchak cutucou-o com o cotovelo e sussurrou: "Não o embaracemos em público. É somente em seu mérito que, hoje, estamos onde estamos."
Na conclusão da palestra, eles se aproximaram do rabino: "Nós ouvimos sua palestra, mas temos uma refutação. Se a palestra tivesse se limitado às partes agádicas [narrativas] do Talmud, teríamos permanecido em silêncio, mas, como se trata de uma halachá prática, devemos tornar conhecido nosso argumento."
Eles detalharam seu raciocínio, e Rabi Yehuda exclamou com admiração: "Tais estudiosos, tão conhecedores da Torá, eu nunca havia encontrado!"
"Mas você, sim, já nos encontrou no passado", eles retrucaram. "Você também nos envergonhou em público".
Atordoado com o que ouvira, o rabino insistiu que nunca os havia encontrado.
"Tente lembrar quando você constrangeu duas pessoas que não fizeram nada de errado para você", disseram a ele.
Depois de um momento pensativo, o rabino falou: "Só uma vez na minha vida eu embaracei alguém em público, e isso foi na minha cerimônia de ordenação, quando dois gângsteres locais estavam à minha frente e eu os expulsei. Lamento esse momento desde então."
Os dois sorriram e disseram: "Nós somos os gângsteres!"
O rabino ficou chocado e convidou-os para sua casa para continuar a discussão.
No dia seguinte, Rabi Yehudah reuniu as pessoas da cidade e, numa voz emotiva, contou a história desde o início. Ele também se retratou do que havia dito no dia anterior. "Parece que incorri em erro pelos céus, para que pudesse expiar meu pecado passado", disse ele.
Naquele momento, todos os que estavam ali reunidos receberam sobre si mesmos a firme decisão de não envergonhar publicamente ninguém. Rabi Yaakov Abulafia e Rabi Yitzchak Shraga tornaram-se grandes sábios em diferentes regiões do Iraque.
(Traduzido e adaptado de Sichat Hashavuah 554.)
Elchonon Isaacs Mais desse autor
Sefira Ross é uma designer e ilustradora freelancer, cujas criações originais ilustram muitas páginas de Chabad.org. Residindo em Seattle, Washington, seus dias se passam divididos em multitarefas, entre ilustrações e ser mãe.
[1] Talmud Bava Metzia 58b.
