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O poder do porquê

Quarta-feira, 02 Agosto, 2017 - 21:49

 

O poder do porquê

Rabino Jonathan Sacks

Numa palestra TED muito assistida, Simon Sinek fez a pergunta: como os grandes líderes inspiram a ação?1 O que fez com que pessoas como Martin Luther King e Steve Jobs se destacassem de seus contemporâneos, que talvez não fossem menos dotados, nem menos qualificados? Sua resposta: a maioria das pessoas fala sobre o quê. Algumas pessoas falam sobre como. Os grandes líderes, porém, começam com o porquê. Isto é o que os torna transformadores.2

A palestra de Sinek era sobre liderança política e de negócios. Os exemplos mais poderosos, porém, são direta ou indiretamente religiosos. Na verdade, eu argumentei em The Great Partnership (A Grande Parceria), que o que faz o monoteísmo Abrahâmico diferente, é que ele acredita que há uma resposta para a pergunta, por quê. Nem o universo nem a vida humana são sem sentido, um acidente, um mero acontecimento. Como Freud, Einstein e Wittgenstein disseram, a fé religiosa é fé na significância da vida.

Raramente isso é mostrado em uma luz mais poderosa do que em Va-etchanan. Há muito no Judaísmo sobre o quê: o que é permitido, o que é proibido, o que é sagrado, o que é secular. Há muito, também, sobre como: como aprender, como orar, como crescer em nosso relacionamento com D'us e com outras pessoas. Há relativamente pouco sobre o porquê.

Em Va-etchanan, Moisés diz algumas das palavras mais inspiradoras jamais pronunciadas sobre o porquê da existência judaica. Foi o que o tornou o grande líder transformador que ele era, e isso tem consequências para nós, aqui, agora.

Para ter uma noção de quão estranhas as palavras de Moisés eram, devemos lembrar vários fatos. Os israelitas ainda estavam no deserto. Ainda não tinham entrado na terra. Não tinham vantagens militares sobre as nações com quem teriam que lutar. Dez dos doze espiões haviam dito, quase quarenta anos antes, que a missão era impossível. Em um mundo de impérios, nações e cidades fortificadas, os israelitas devem ter parecido ao olho não treinado, indefesos, não testados, mais uma horda entre as muitas que varreram a Ásia e a África nos tempos antigos. Além de suas práticas religiosas, poucos observadores contemporâneos teriam visto algo neles para distingui-los dos jebuseus ou dos perizeus, dos midianitas ou dos moabitas, ou de qualquer das outras pequenas nações que povoavam aquele canto do Oriente Médio.

No entanto, na parashá desta semana, Moisés comunicou uma certeza inabalável de que o que acontecera com eles acabaria por mudar e inspirar o mundo. Atentem às suas palavras:

"Perguntem agora sobre os dias anteriores, muito antes do seu tempo, desde o dia em que D'us criou seres humanos na Terra; perguntem de um lado dos céus ao outro. Já ocorreu alguma outra coisa tão grandiosa quanto isso, ou alguma outra coisa como essa jamais foi ouvida? Alguma outra gente ouviu a voz de D'us falando a partir do fogo, como vocês ouviram, e sobreviveram? Algum D'us já tentou tirar por Si mesmo uma nação para fora de outra nação por meio de milagres, sinais e maravilhas, pela guerra, por uma mão poderosa e um braço estendido, ou por grandes e impressionantes atos, como todas as coisas que o Senhor seu D'us fez por vocês no Egito diante de seus olhos?" 3

Moisés estava convencido de que a história dos judeus era, e permaneceria, única. Em uma era de impérios, um pequeno e indefeso grupo havia sido libertado do maior império de todos por um poder não deles próprios, mas pelo próprio D'us. Esse foi o primeiro ponto de Moisés: a singularidade da história judaica como uma narrativa de redenção.

A segunda foi a singularidade da revelação:

"Que outra nação é tão grande para ter seus deuses perto delas da mesma forma que o Senhor nosso D'us está perto de nós sempre que rezamos para Ele? E que outra nação é tão grande para ter decretos e leis tão justas quanto este corpo de leis que eu estou estabelecendo diante de vocês hoje?" 4

Outras nações tinham deuses a quem oravam e ofereciam sacrifícios. Elas também atribuíam seus sucessos militares às suas divindades. Mas nenhuma outra nação viu D'us como seu soberano, legislador e constituinte. Em outros lugares, a lei representava o decreto do rei ou, nos séculos mais recentes, a vontade do povo. Em Israel, de forma única, mesmo quando havia um rei, ele não tinha poder legislativo. Somente em Israel, D'us foi visto não apenas como um poder, mas como o arquiteto da sociedade, orquestrador de sua música de justiça e misericórdia, liberdade e dignidade.

A questão é por quê. Na parte final do capítulo, Moisés dá uma resposta: "Porque ele amava seus antepassados ​​e escolheu seus descendentes depois deles".5  D'us amou Abraão, não tanto porque Abraão amava D'us. E D'us amou os filhos de Abraão porque eram seus filhos e prometera ao patriarca que Ele os abençoaria e os protegeria.

Anteriormente, no entanto, Moisés havia dado um tipo diferente de resposta, não incompatível com a segunda, mas diferente:

"Veja, ensinei-vos decretos e leis como o Senhor, o meu D'us me ordenou... Observem-nos cuidadosamente, pois esta é a sua sabedoria e entendimento aos olhos das nações, que ouvirão sobre todos esses decretos e dirão: 'Certamente essa grande nação é um povo sábio e inteligente' ". 6

Por que Moisés, ou D'us, se importa se outras nações viam as leis de Israel como sábias e inteligentes? O Judaísmo era e é uma história de amor entre D'us e um povo particular, muitas vezes tempestuosa, às vezes serena, frequentemente alegre, mas próxima, íntima, e até mesmo, voltada para o interior. O que o resto do mundo tem a ver com isso?

Mas o resto do mundo tem, sim, algo a ver com isso. O Judaísmo nunca foi dirigido aos judeus apenas. Em suas primeiras palavras a Abraão, D'us já disse: "Abençoarei aqueles que te abençoam, e aqueles que te amaldiçoarem, Eu amaldiçoarei; por meio de você, todas as famílias da terra serão abençoadas". 7 Os judeus deveriam ser uma fonte de bênção para o mundo.

D'us é o D'us de toda a humanidade. Em Gênesis, falou com Adão, Eva, Caim, Noé, e fez uma aliança com toda a humanidade antes de fazer uma com Abraão. No Egito, seja na casa de Potifar ou na prisão, ou no palácio do Faraó, José continuamente falou sobre D'us. Ele queria que os egípcios soubessem que nada do que ele fazia, era ele mesmo que o fazia. Ele era apenas um agente do D'us de Israel. Não há nada aqui para sugerir que D'us seja indiferente às nações do mundo.

Mais tarde, nos dias de Moisés, D'us disse que faria sinais e maravilhas para que "Os egípcios saibam que eu sou o Senhor".8  Convocou Jeremias para ser "um profeta para as nações". Ele enviou Jonas para os assírios em Ninevê. Ele mandou Amós entregar oráculos às outras nações antes de lhe enviar um oráculo sobre Israel. Na que é talvez a mais espantosa profecia da Bíblia, o Tanach, D'us enviou a Isaías a mensagem de que chegará um tempo em que Ele abençoará os inimigos de Israel: "O Altíssimo os abençoará, dizendo: "Bendito seja o Egito, meu povo, a Assíria, a minha obra, e Israel, minha herança." 9

D'us está preocupado com toda a humanidade. Portanto, o que fazemos como judeus faz diferença para a humanidade, não apenas no sentido místico, mas como exemplos do que significa amar e ser amado por D'us. Outras nações olhariam para os judeus e sentiriam que algum poder maior estava trabalhando em sua história. Como o falecido Milton Himmelfarb colocou:

"Cada judeu sabe quão completamente comum ele é; entretanto, quando tomados em conjunto, parecemos apanhados em coisas grandiosas e inexplicáveis... O número de judeus no mundo é menor do que um pequeno erro estatístico no censo chinês. No entanto, permanecemos maiores do que os nossos números. Grandes coisas parecem acontecer ao nosso redor e para nós." 10

Não fomos convocados para converter o mundo. Fomos chamados a inspirar o mundo. Como o profeta Zacarias disse, um tempo virá quando "Dez pessoas de todas as línguas e nações agarrarão firme um judeu pela bainha de sua túnica e dirão: "Seguiremos com você, porque ouvimos que D'us está com você". 11  Nossa vocação é sermos embaixadores de D'us em todo o mundo, dando testemunho da maneira como vivemos que é possível que um pequeno povo sobreviva e prospere nas condições mais adversas, que construa uma sociedade de liberdade governada pela lei, pela qual todos assumimos responsabilidade coletiva, e a "agir com justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente"12 com o nosso D'us. Va-etchanan é a 'Declaração de Missão' do povo judeu.

E outros foram e ainda estão inspirados por isso. A conclusão que tirei de uma vida vivida na 'praça pública' é que os não-judeus respeitam os judeus que respeitam o Judaísmo. Eles acham difícil entender por que os judeus, nos países onde existe uma verdadeira liberdade religiosa, abandonam sua fé ou definem sua identidade em termos puramente étnicos.

Falando pessoalmente, acredito que o mundo em seu atual estado de turbulência precisa da mensagem judaica: que D'us nos convoca a sermos fiéis à nossa fé e uma benção aos outros, independentemente de sua fé. Imagine um mundo no qual todos acreditassem nisso. Seria um mundo transformado.

Não somos apenas mais uma minoria étnica. Nós somos as pessoas que afirmamos a liberdade ao ensinar nossos filhos a amar, não a odiar. Nossa é a fé que consagrava o casamento e a família, e falava de responsabilidades, muito antes de falar de direitos. Nossa é a visão que vê o alívio da pobreza como uma tarefa religiosa porque, como disse Maimônides, você não pode pensar pensamentos espirituais exaltados se você estiver faminto, ou doente, ou sem casa e sozinho.13  Nós fazemos essas coisas não porque somos conservadores ou liberais, republicanos ou democratas, mas porque acreditamos que isso é o que D'us quer de nós.

Muito está escrito hoje em dia sobre o que e o como do Judaísmo, mas muito pouco sobre o porquê. Moisés, no último mês de sua vida, ensinou o porquê. Foi assim que o maior dos líderes inspirou a ação do seu dia para o nosso.

Se você quiser mudar o mundo, comece com o porquê.

NOTAS

1. https://www.youtube.com/watch?v=u4ZoJKF_VuA.

2. Para uma análise mais detalhada, veja o livro baseado na palestra: Simon Sinek, Start with Why: How Great Leaders Inspire Everyone to Take Action (Comece com o Porquê: Como Grandes Líderes Inspiram Todos a Agir). Nova York, Portfolio, 2009.

3. Deuteronômio 4:32-34.

4. Deuteronômio 4:7-8.

5. Deuteronômio 4:37.

6. Deuteronômio 4:5-6.

7. Gênesis 12:3.

8. Êxodo 7:5.

9. Isaías 19:25.

10. Milton Himmelfarb e Gertrude Himmelfarb. Jews and Gentiles (Judeus e Gentios). New York, Encounter, 2007, 141.

11. Zacarias 8:23.

12. Miquéias 6:8.

13. O Guia para os Perplexos, III: 27.

 

POR RABIno JONATHAN SACKS

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O rabino Jonathan Sacks é o ex rabino-chefe da Grã-Bretanha e da Commonwealth Britânica. Para ler mais escritos e ensinamentos do Rabino Lord Jonathan Sacks, ou para se juntar à sua lista de e-mail, visite www.rabbisacks.org.

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