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A grandeza é a humildade

Quinta-feira, 24 Agosto, 2017 - 13:03

 

 

 

A Grandeza É A Humildade

 

Rabino Jonathan Sacks 

 

 

BuSZ3491247.jpgHá um detalhe fascinante na passagem sobre o rei na parashá desta semana. O texto diz que "quando ele assume o trono do seu reino, ele deve escrever para si uma cópia desta Torá em um pergaminho perante os sacerdotes levíticos".1 Ele deve "lê-la todos os dias de sua vida" para que ele Seja temente a D’us e nunca quebre a lei da Torá. Mas há um outro motivo também: para que ele "não comece a se sentir superior aos seus irmãos" (tradução de Kaplan), "para que seu coração não seja altivo sobre seus irmãos" (Robert Alter). O rei tem que ter humildade. O mais alto na terra não deve sentir-se ser o mais alto na terra.

Isto é extremamente significativo em termos da compreensão judaica da liderança política. Existem outros comandos direcionados ao rei. Ele não deveria acumular cavalos para não estabelecer relações comerciais com o Egito. Ele não deveria ter muitas esposas pois "elas desviarão seu coração". Ele não deveria acumular riqueza. Todas essas eram tentações permanentes para um rei. Como sabemos e como os sábios apontaram, foram essas três proibições que Salomão, o mais sábio dos homens, violou, marcando o início do longo e lento deslizamento para a corrupção que marcou grande parte da história da monarquia no antigo Israel. Isso levou, depois de sua morte, à divisão do reino.

Mas estes eram sintomas, não a causa. A causa foi o sentimento por parte do rei de que, uma vez que ele está acima das pessoas, ele está acima da lei. Como disseram os rabinos2, Salomão justificou a violação dessas proibições ao dizer: o único motivo pelo qual o rei não pode acumular esposas é que elas desviarão o coração dele, então eu me casarei com muitas esposas e não deixarei que meu coração seja desviado. E uma vez que a única razão para não ter muitos cavalos é não estabelecer relações com o Egito, eu vou ter muitos cavalos, mas não farei negócios com o Egito. Em ambos os casos, ele caiu na armadilha da qual a Torá havia advertido. As esposas de Salomão realmente desviaram seu coração3, e seus cavalos foram importados do Egito.4 A arrogância do poder é a sua queda. A arrogância leva à nêmesis.

Daí a insistência da Torá na humildade, não como uma mera delicadeza, uma coisa boa para se ter, mas como algo essencial para o papel. O rei deveria ser tratado com a maior honra. Na lei judaica, apenas um rei não pode renunciar à honra devida ao seu cargo. Um pai pode fazê-lo, assim como um Rabino, até mesmo um nassi, mas não um rei.5 Contudo, tem que haver um contraste completo entre as armadilhas externas do rei e suas emoções internas.

Maimônides é eloquente sobre o assunto:

Assim como a Torá lhe concede [ao rei] uma grande honra e obriga todos a reverenciá-lo, assim também ela o ordena que seja humilde e vazio no coração, como diz: "Meu coração está vazio dentro de mim”6. Tampouco deveria tratar Israel com arrogância, pois está dito: "para que seu coração não seja altivo sobre seus irmãos”.7

Ele deve ser gracioso e misericordioso com os pequenos e os grandes, envolvendo-se em seu bem e em seu bem-estar. Ele deve proteger a honra de até mesmo o mais humilde dos homens. Quando ele fala às pessoas como uma comunidade, ele deve falar gentilmente, como é dito: "Ouçam meus irmãos e meu povo..."8 e, da mesma forma, "Se hoje você for servo para essas pessoas..."9 Ele sempre deve se comportar com grande humildade. Não havia ninguém maior do que Moisés, nosso mestre. No entanto, ele disse: "O que somos? Suas queixas não são contra nós."10 Ele devia suportar as dificuldades, cargas, queixas e raiva da nação como uma enfermeira carrega uma criança.11

O exemplo é Moisés, descrito na Torá como "muito humilde, mais do que qualquer outra pessoa na face da terra".12 "Humilde" aqui não significa hesitante, manso, cabisbaixo, tímido, envergonhado, acanhado ou destituído de autoconfiança. Moisés não era nada disso. Significa honrar os outros e considerá-los como importantes, não menos importantes do que você. Não significa manter-se inferior; significa elevar as outras pessoas. É algo como o que Ben Zoma quis dizer quando disse:13 "Quem é honrado? Aquele que honra os outros. "Isso levou a um dos grandes ensinamentos rabínicos, contidos no sidur e que é dito no motsaei shabat:

Rabi Jochanan disse: Onde quer que você ache a grandeza do Santo, bendito seja Ele, lá você encontra a Sua humildade. Isto está escrito na Torá, repetido nos Profetas, e declarado uma terceira vez nos Escritos. Está escrito na Torá: "Pois o Senhor, seu D’us é D’us dos deuses e Senhor dos senhores, o Grande, Poderoso e Inspirador D’us, que não mostra favoritismo e não aceita nenhum suborno." Imediatamente depois está escrito: "Ele sustenta a causa do órfão e da viúva, e ama o convertido, dando-lhe comida e roupa..."14

D’us cuida de todos, independentemente de quem seja, e assim devemos proceder, até mesmo um rei, especialmente um rei. Grandeza é humildade.

No contexto do Jubileu de Diamante da Rainha Elizabeth II, há uma história que vale a pena contar. Aconteceu no Palácio St James em 27/01/05, o sexagésimo aniversário da libertação de Auschwitz. Pontualidade, segundo Luís XVIII da França, é a cordialidade dos reis. A realeza chega a tempo e sai a tempo. Assim também é com a Rainha, mas não nesta ocasião. Quando chegou a hora dela sair, ela ficou. E ficou. Um de seus assistentes disse que nunca havia visto ela prolongar tanto um compromisso depois da hora programada para sua partida.

Ela estava encontrando um grupo de sobreviventes do Holocausto. Ela deu a cada sobrevivente – era um grupo grande – sua atenção concentrada e sem pressa. Ela ficou com cada um até que eles tivessem terminado de contar sua história pessoal. Um após o outro, os sobreviventes vinham até mim em uma espécie de transe, dizendo: "Há sessenta anos, eu não sabia se eu estaria vivo no dia seguinte, e aqui estou hoje, falando com a Rainha." Isso trouxe uma espécie de fecho abençoado para vidas profundamente laceradas. Sessenta anos antes, eles foram tratados, na Alemanha, na Áustria, na Polônia, de fato na maior parte da Europa, como sub-humanos, e, agora, a Rainha estava tratando-os como se cada um fosse um Chefe de Estado visitante. Isso foi humildade: não se mantendo inferior, mas elevando o próximo. E onde você encontra humildade, você encontra grandeza.

Isso é uma lição para cada um de nós. R. Shlomo, de Karlin, disse: "Der grester yetser hora is az mir fargest az mi is ein ben melekh", "A maior fonte de pecado é esquecer que somos filhos do Rei." Dizemos Avinu Malkenu, "Nosso pai, nosso Rei." Decorre daí que somos todos membros de uma família real e devemos agir como se fôssemos. E a marca da realeza é humildade.

A verdadeira honra não é a honra que recebemos, mas a honra que damos.

NOTAS

1. Deuteronômio 17:18.

2. Sanhedrin 21b.

3. Reis I 11:3.

4. Reis I 10:28-29.

5. Kidushin 32a-b.

6. Salmos 109:22.

7. Deuteronômio 17:20.

8. Crônicas I 28:2.

9. Reis I 12:7.

10. Êxodo 16:8.

11. Maimônides, Leis dos Reis 2:6.

12. Números 12:3.

13. Avot 4:1.

14. Megilá 31a.

 

por RABIno JONATHAN SACKS

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O rabino Jonathan Sacks é o ex rabino-chefe da Grã-Bretanha e da Commonwealth Britânica. Para ler mais escritos e ensinamentos de Lord Rabi Jonathan Sacks, ou para se juntar à sua lista de e-mail, visite www.rabbisacks.org.

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