A seguinte discussão do Lubavitcher Rebe é sobre as dificuldades da própria tradução. O ato de tradução pressupõe que, para cada palavra em um idioma, equivalentes podem ser encontradas em outro. Mas isso pode ser falso, especialmente quando estamos lidando com ideias que são centrais e exclusivas do Judaísmo. Podemos então cair no erro de equiparar uma ideia judaica com uma derivada de outra cultura, quando as duas são de fato diferentes, mesmo opostas. Este é o caso com as três palavras constantemente em nossas mentes durante os dez dias de Teshuvá. Em inglês são arrependimento, oração e caridade. Até onde esses conceitos diferem dos seus homólogos judeus ‑ teshuvá, tefila e tsedacá ‑, o Rebe enfaticamente explica.
1. O Serviço dos Dez Dias
Nós expressamos a esperança de que, em Rosh Hashaná, D'us nos abençoe com um "ano bom e doce", um ano frutífero em crianças, saúde e sustento.
Mas não há limites para o bem e a bênção. Assim, durante os Dez Dias de Teshuvá, temos a oportunidade, através do nosso serviço, de fazer com que D'us nos conceda ainda maiores benefícios pela Sua "mão plena e expansiva".
Qual é esse serviço? É, como dizemos em nossas orações, "arrependimento, oração e caridade" que evitam o mal e trazem o bem. Mas as palavras "arrependimento, oração e caridade" são enganosas. Ao traduzir os termos hebraicos teshuvá, tefilá e tsedacá, somos conduzidos a uma falsa comparação desses três elementos da vida religiosa, como eles existem no Judaísmo e fora dele.
Na verdade, existem diferenças cruciais. Teshuvá não é arrependimento. Tefilá não é oração. E tsedacá não é caridade.
2. Teshuvá e Arrependimento
"Arrependimento" em hebraico não é teshuvá, mas, sim, charatá. Esses dois termos não são apenas distintos, eles são opostos.
Charatá implica remorso, ou um sentimento de culpa pelo passado e uma intenção de se comportar de uma maneira completamente nova no futuro. A pessoa decide tornar-se "um novo homem". Mas teshuvá significa "voltar" para o velho, para a própria natureza original. Subjacente ao conceito de teshuvá está o fato de que o judeu é, em essência, bom. Os desejos ou as tentações podem desviá-lo temporariamente de ser ele mesmo, de ser fiel à sua essência. Mas o mau que ele faz não é parte, nem afeta, a sua natureza real. Teshuvá é um retorno ao eu. Enquanto o "arrependimento" envolve descartar o passado e começar de novo, teshuvá significa voltar às suas raízes em D'us e mostrá-las como o verdadeiro caráter da pessoa.
Por esta razão, embora os justos não precisem se arrepender, e os ímpios possam até ser incapazes de se arrepender, ambos podem fazer teshuvá.1 Os justos, embora nunca pecaram, devem esforçar-se constantemente para voltar ao seu mais íntimo. E os ímpios, por mais distantes que estejam de D'us, sempre podem retornar, pois a teshuvá não envolve a criação de nada novo, apenas redescobrir o bem que estava sempre dentro deles.
3. Tefilá e Oração
"Oração" em hebraico não é tefilá, mas bacashá. E, novamente, esses termos são opostos. Bacashá significa "rezar, pedir, suplicar". Mas tefilá significa "se conectar". 2
Em bacashá, a pessoa pede a D'us que lhe forneça, de cima, o que lhe falta. Portanto, quando ele não precisa de nada, ou não sente nenhum desejo de um presente de cima, bacashá torna-se redundante.
Mas em tefilá a pessoa procura se unir a D'us. É um movimento de baixo, do homem, alcançando D'us. E isso é algo apropriado para todos e em todos momentos.
A alma judaica tem um vínculo com D'us. Mas também habita um corpo, cuja preocupação com o mundo material pode atenuar esse vínculo. Portanto, esse vínculo tem que ser constantemente fortalecido e renovado. Esta é a função da tefilá. E é necessária para todo judeu. Pois, embora haja aqueles a quem não falta nada e, portanto, não têm nada a pedir de D'us, não há quem não precise se unir à fonte de toda a vida.
4. Tsedacá e Caridade
O termo hebraico para "caridade" não é tsedacá, mas chessed. E, novamente, essas duas palavras têm significados opostos.
Chessed, caridade, implica que o destinatário não tem direito ao presente e que o doador não tem obrigação de dar. Ele dá gratuitamente, pela bondade de seu coração. Seu ato é uma virtude e não um dever.
Por outro lado, tsedacá significa "retidão" ou "justiça". A implicação é que o doador dá porque é seu dever. Pois, em primeiro lugar, tudo no mundo pertence em última análise a D'us. Suas posses não são suas por direito; em vez disso, elas são confiadas a você por D'us, e uma das condições dessa confiança é que você deve dar aos que precisam. Em segundo lugar, temos o dever de agir em prol dos outros quando pedimos a D'us para agir por nós. E se pedimos a D'us pelas Suas bênçãos, embora Ele não nos deva nada e não tenha nenhuma obrigação, então somos obrigados por justiça a dar aos que nos pedem, mesmo que não tenhamos nenhuma dívida com eles. Dessa forma, somos recompensados medida por medida. Porque nós damos livremente, D'us nos dá livremente.
Isto aplica-se, em particular, à tsedacá que é dada às instituições de apoio de ensino da Torá. Pois todo aquele que é educado nessas instituições é uma base futura de uma casa em Israel e um futuro guia para a próxima geração. Este será o produto de sua tsedacá ‑ e seu ato é a medida de sua recompensa.
5. Três caminhos
Estes são os três caminhos que levam a um ano "escrito e selado" para o bem.
Ao retornar ao seu próprio eu interior (teshuvá), anexando-se a D'us (tefilá) e distribuindo as suas posses com justiça (tsedacá), consegue-se transformar a promessa de Rosh Hashaná num cumprimento abundante de Yom Kipur: um ano de doçura e abundância.
(Fonte: Likkutei Sichot, vol. 2, pp. 409-411.)
NOTAS
1.Cf. Rabi Yosef Yitzchak Schneersohn, Kuntres Bikur Chicago, p. 23.
2.Cf. Comentário de Rashi a Gênesis 30:8; Rabi Menachem Mendel Schneersohn (o "Tsemach Tzedek"), Ohr Hatorah, Vayechi 380a.
ADAPTADO POR RABI JONATHAN SACKS; DOS ENSINAMENTOS DO LUBAVITCHER REBE

VICTOR JESSULA escreveu…