
Nós somos o que não possuímos (Behar 5778)
Maurice e Vivienne Wohl z”l foram um dos casais mais notáveis que já conheci. Eles eram um estudo em contrastes. Maurice era quieto, introspectivo, reflexivo e reservado. Vivienne era extrovertida e vivaz, uma pessoa do povo no sentido mais verdadeiro. Eles se complementavam perfeitamente: duas metades de um todo.
O que os tornou especiais, externamente, foi que eles eram doadores em uma escala monumental. Em Israel, por exemplo, eles doaram o Wohl Rose Park de 19 acres ao lado do Knesset e o impressionante centro cultural projetado por Daniel Libeskind na Universidade Bar Ilan. Eles dotaram instalações médicas em Tel Aviv e Jerusalém, bem como no King's College e University College, em Londres. Eles apoiavam escolas judaicas na Grã-Bretanha e yeshivot em Israel ‑ e tudo isso dificilmente toca a superfície de sua filantropia.
O que era realmente tocante, no entanto, foi como eles se tornaram um casal, porque Vivienne era trinta anos mais nova que Maurice. Quando eles se conheceram, Maurice estava nos quarenta e tantos anos, um empresário dedicado, aparentemente destinado a uma vida de solteiro. Vivienne, que ainda não tinha 20 anos, era filha de amigos de Maurice que perguntaram se ela poderia trabalhar para ele durante as férias.
Um dia, Maurice se ofereceu para levá-la para o almoço. A caminho do restaurante, passaram por um mendigo na rua. Maurice deu-lhe uma moeda e seguiu em frente. Vivienne parou e perguntou a Maurice se ele seria gentil o suficiente para lhe dar antecipadamente uma quantia substancial ‑ ela disse o quanto ‑ dos salários desta semana. Maurice lhe entregou o dinheiro. Ela então voltou e deu tudo para o mendigo. "Por que você fez isso?", perguntou Maurice. “Porque o que você deu a ele não era o suficiente para mudar sua vida. Ele precisava de algo mais.
Quando a semana chegou ao fim, Maurice disse a Vivienne: "Eu não vou lhe dar o seu salário integral esta semana, porque você deu parte do dinheiro como uma mitsvá e eu não quero roubá-la de você". Mas foi então que ele decidiu que deveria casar com ela, porque, como ele me disse pouco antes de morrer, “o coração dela era maior que o meu”.
Eu conto essa história porque ilustra uma dimensão da parashá Behar que muitas vezes perdemos. Levítico 25 trata de um problema tão agudo hoje, quanto 33 séculos atrás. É sobre as inevitáveis desigualdades que surgem em todas as economias de livre mercado. A economia de mercado é boa na criação de riqueza, mas é ruim em sua distribuição. Seja qual for o ponto de partida, as desigualdades emergem cedo entre os mais e menos bem-sucedidos, e tornam-se mais pronunciadas ao longo do tempo. [1]
A desigualdade econômica leva à desigualdade de poder, e o resultado é frequentemente o abuso dos fracos pelos fortes. Este é um refrão constante dos profetas. Amós fala daqueles que “vendem os inocentes por prata e os necessitados por um par de sapatos; que pisam nas cabeças dos pobres como no pó da terra, e negam justiça aos oprimidos” (Amós 2:6-7). Isaías clama: “Ai dos que decretam decretos injustos e dos autores que prescrevem opressão ... tornando as viúvas suas presas e roubando os órfãos” (Isaías 10:1-2). Miquéias investe contra as pessoas que “cobiçam campos e deles se apoderam, e casas e as tomam; eles oprimem um homem e sua casa, um homem e sua herança.” (Miquéias 2:1-2).
Este é um problema para quase todas as sociedades e idades. O que torna a Torá distintiva é que ela recusa uma resposta unidimensional ao que é um problema genuinamente complexo. A igualdade é um valor, mas assim também o é a liberdade. O comunismo e o socialismo foram tentados e falharam; mas o livre mercado também gera seus descontentamentos. Um princípio que pode ser inferido do Tanach é que o mercado foi feito para servir aos seres humanos; os seres humanos não foram feitos para servir o mercado. A questão fundamental é, portanto: o que melhor serve a humanidade sob a soberania de D’us?
Uma leitura cuidadosa de Behar revela que a abordagem da Torá a essa questão opera em três níveis completamente diferentes. Um é político, um segundo é psicológico e o terceiro é teológico.
O primeiro nível é simples. Behar propõe dois ciclos de redistribuição, Shemitá e Yovel, o sétimo e quinquagésimo ano. A intenção aqui é restaurar um nível do campo do jogo através de uma combinação de remissão da dívida, libertação de escravos e o retorno da terra ancestral aos seus donos originais. Esta é uma maneira de reparar as desigualdades acumuladas sem uma intervenção constante na economia. Essa é a dimensão política.
A dimensão psicológica é o que os revolucionários franceses chamavam de fraternidade. Dez vezes as leis de Behar usam a palavra “irmão”. “Não engane seu irmão.” “Se seu irmão se tornar pobre.” “O redentor mais próximo virá e resgatará o que seu irmão vendeu.” Essa é uma lógica evolucionária sólida. Sabemos do trabalho de W. D. Hamilton e outros sobre seleção de parentesco que o mais básico condutor do altruísmo é a família. Nós fazemos sacrifícios mais prontamente por aqueles mais próximos de nós.
É por isso que, não em pequena escala, desde o início da história judaica até hoje, os judeus têm pensado em si mesmos como uma única família, descendentes de Avraham, Itschack e Jacob, Sará, Rivca, Rachel e Léa. Uma coisa é legislar o altruísmo através de instituições como o sétimo e quinquagésimo ano. Outra é moldar uma sociedade de forma a fazer com que as pessoas se sintam unidas em um laço inquebrantável de responsabilidade compartilhada. Daí as narrativas do Gênesis, focalizando essencialmente o povo de Israel não como uma nação, mas como uma família. Lei e narrativa aqui andam de mãos dadas. Porque todo o povo judeu é uma única família vastamente extensa, portanto devemos ajudar quando um de nossos irmãos ou irmãs se torna destituído. Isso é etnia a serviço da moralidade.
Por fim, e mais profundamente, vem a dimensão teológica. Pois é aqui, em Levítico. 25, que percebemos com lucidez inigualável o que eu acredito ser o princípio mais fundamental do direito bíblico. Atentem bem a estas duas passagens, a primeira sobre a terra, a segunda sobre os escravos hebreus:
A terra não será vendida em perpetuidade, porque a terra é Minha: vocês são estranhos e peregrinos Comigo. (v. 23)
Se teu irmão se tornar pobre e se vender a ti, não o farás como escravo ... Pois eles são Meus servos que tirei da terra do Egito; eles não serão vendidos como escravos. Tu não deves dominá-lo impiedosamente, mas deves temer o teu D’us. (vv. 39-43)
A Torá está fazendo uma afirmativa radical. Não existe tal coisa como propriedade absoluta. Não deve haver tal liberdade de propriedade na terra de Israel porque a terra pertence em última instância a D’us. Nem um israelita pode ter outro israelita como escravo perpétuo, porque todos nós pertencemos a D’us, e o fazemos desde que Ele tirou nossos ancestrais da escravidão no Egito.
É este princípio que sozinho dá sentido à narrativa da Torá da criação do universo. A Torá não é um livro de ciência. É um livro de lei. É isso que a palavra "Torá" significa. Segue-se que o capítulo de abertura da Torá não é uma narrativa científica, mas sim legal. Não é uma resposta à pergunta: “Como nasceu o universo?” É uma resposta a uma pergunta completamente diferente: “Com que direito D’us dá ordens aos seres humanos?” A resposta é: porque Ele criou o universo. Portanto, Ele é dono do universo. Portanto, Ele tem o direito de estabelecer as condições nas quais Ele nos permite habitar o universo. Esta é a base de toda lei bíblica. D’us governa, não pelo poder, mas pelo direito ‑ o direito de um criador em relação à sua criação.
Em nenhum outro trecho da Torá isso é mais claro do que na parashá Behar, na qual se torna a base da legislação sobre a propriedade da terra e a escravidão. A lei judaica baseia-se no princípio de que só D’us tem alguma coisa. O que possuímos, não é nosso, meramente o mantemos em confiança. É por isso que o conceito de tsedek/tsedaká é intraduzível para outras línguas, porque significa justiça e caridade. Em inglês ou português, justiça e caridade são radicalmente diferentes. Nós fazemos justiça porque devemos; nós damos caridade porque podemos. Se eu lhe der £1.000 porque devo isso a você, isso é justiça. Se eu lhe der a mesma quantia, porque, embora não lhe deva nada, acho que você precisa, então é caridade. Um ato pode ser um ou outro, mas não ambos.
No Judaísmo, pelo contrário, o que possuímos não é nosso. Pertence a D’us. Ele apenas o colocou sob nossa guarda. Estamos cuidando disso em nome de D’us. Uma das condições dessa confiança é que, se tivermos mais do que precisamos, devemos compartilhá-lo com aqueles que têm menos do que precisam. Isso é tsedaká: justiça e caridade combinadas.
Foi assim que Maurice e Vivienne Wohl viveram suas vidas. D’us dera sucesso a Maurice, e ele sabia que a riqueza que acumulara não era realmente sua absolutamente. D’us a tinha dado a ele para cuidar, confiando que ele iria usá-la com sabedoria para melhorar a vida dos outros. Maurice, no entanto, foi honesto o suficiente para perceber que ele próprio provavelmente era melhor em ganhar dinheiro do que em doá-lo, e que, se ele não o doasse para as pessoas e as causas que precisavam, ele estaria falhando em seu dever para com D’us e para com seus companheiros humanos. É por isso que, quando ele conheceu Vivienne e viu com que sensibilidade ela entendia as necessidades dos outros e como estava disposta a fazer sacrifícios por eles, ele soube que tinha que se casar com ela. Então, ao longo de seus quase 40 anos juntos, eles usaram as bênçãos que D’us lhes deu para trazer bênçãos para a vida de outras pessoas. Foi um privilégio conhecê-los.
A verdade maior da parashá Behar é que você não pode criar uma sociedade justa apenas por medidas políticas (remissão da dívida, restauração da propriedade ancestral e assim por diante). Existem dimensões psicológicas e teológicas que também são vitais.
Mas em um nível pessoal simples, ela contém uma ideia genuinamente transformadora de vida. Pense no que você possui não como algo que lhe pertence, mas como algo que você mantém em confiança para o benefício, não só de você e sua família, mas também, dos outros. Na vida, não pergunte: "o que posso ganhar?", mas, sim: "o que eu posso dar?" Você viajará mais levemente e com maior alegria. Você irá melhorar a vida dos outros. Você sentirá que sua vida valeu a pena. Dificilmente qualquer um de nós pode dar na escala de um Maurice ou Vivienne Wohl, mas quando se trata de dar, a escala não importa. Seja uma bênção para os outros e você descobrirá que a vida tem sido uma bênção para você.
Nota
[1] Este é o argumento de Thomas Piketty, Capital in the 21th Century, Harvard University Press, 2014.
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IDEA DE MUDANÇA DE VIDA # 29
• Na vida, não pergunte: “o que posso ganhar?”, mas: “o que posso dar?”
• Seja uma bênção para os outros e você descobrirá que a vida tem sido uma bênção para você.
