Fé e Amizade
Na parashá desta semana, Moshé alcança seu ponto mais baixo. Não é de surpreender. Depois de tudo o que aconteceu – os milagres, o êxodo, a divisão do mar, a comida do céu, a água da rocha, a revelação no Sinai e o pacto que a acompanhou – o povo, mais uma vez, estava reclamando da comida. E não porque eles estavam com fome; simplesmente porque eles estavam entediados. “Se ao menos tivéssemos carne para comer! Lembramos os peixes que comíamos no Egito de graça – e os pepinos, melões, alho-poró, cebola e alho.” Quanto ao milagroso “pão do céu”, embora os sustentasse, deixara de satisfazê-los: “Agora, não temos mais apetite; não há nada para olhar, exceto este maná!”1
Qualquer líder poderia se desesperar em tal momento. O que chama a atenção é a profundidade do desespero de Moshé, a franqueza com que ele expressa isso e a ardente honestidade da Torá ao nos contar essa história. Isto é o que ele diz para D’us:
“Por que Você trouxe este problema ao Teu servo? O que eu fiz para desagradar Você para que Você colocasse o peso de todas essas pessoas sobre mim? Eu concebi todas essas pessoas? Eu lhes dei à luz? Por que Você me diz para carregá-las em meus braços, como uma enfermeira carrega uma criança, para a terra que Você prometeu em juramento aos seus antepassados? (…) Se é assim que Você vai me tratar, por favor, vá em frente e mate-me – se eu tiver encontrado graça em Seus olhos – e não me deixe encarar minha própria ruína.”2
Todo líder, talvez todo ser humano, em algum momento de suas vidas, enfrenta o fracasso, a derrota e o iminente abismo do desespero. O que é fascinante é a resposta de D'us. Ele não diz a Moshé: “Anime-se; reúna suas forças; você é maior que isso.” Em vez disso, Ele lhe dá algo prático para fazer:
“Reúna para Mim setenta dos anciãos de Israel... Eu tomarei parte do espírito que está sobre você e colocarei sobre eles; e eles arcarão com o peso do povo junto com você, para que você não o leve sozinho.”
É como se D'us estivesse dizendo a Moshé: “Lembre-se do que seu sogro, Ytro, disse a você. Não tente liderar sozinho. Não tente viver sozinho. Até você, o maior dos profetas, ainda é humano e os humanos são animais sociais. Aliste outros. Escolha associados. Termine seu isolamento. Tenha amigos."
O que está acontecendo nesse episódio é que, no momento da máxima vulnerabilidade emocional de Moshé, o próprio D'us fala a Moshé como um amigo. Isso é fundamental para o Judaísmo como um todo. Para nós, D'us não é (meramente) Criador do universo, D’us da história, Soberano, Legislador e Redentor, o D'us dos substantivos de letra maiúscula. Ele também é íntimo, terno, amoroso: “Ele cura o coração partido e fecha suas feridas.”3 Ele é como um pai: “Como uma mãe conforta seu filho, assim Eu vou consolá-lo.”4 Ele é como um pastor; “Embora eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum porque Você está comigo”.5 Ele está sempre lá: “D'us está perto de todos os que O invocam – de todos os que O invocam na verdade.”6
Em 2006, na apropriadamente chamada Hope Square, na estação de Liverpool Street, em Londres, um memorial foi erguido em memória do Kindertransport, a operação que resgatou 10.000 crianças judias da Alemanha nazista pouco antes do início da guerra. Na cerimônia, um dos oradores, uma mulher de oitenta e poucos anos, que era uma das pessoas salvas, falou comoventemente sobre o calor que sentia em relação ao país que a abrigara e a seus ‘companheiros kinder’. Em seu discurso, ela disse algo que deixou uma impressão indelével em mim. Ela disse: “Descobri que na Inglaterra um policial poderia ser um amigo”. Foi isso que fez a Inglaterra ser tão diferente da Alemanha. E é o que os judeus descobriram há muito tempo sobre o Próprio D'us. Ele não é apenas um poder supremo. Ele também é amigo. Isso é o que Moshé descobriu na parashá desta semana.
Amigos são importantes. Eles moldam nossas vidas. O quanto eles o fazem foi descoberto por dois cientistas sociais, Nicholas Christakis e James Fowler, usando dados do Framingham Heart Study. Este projeto, iniciado em 1948, acompanhou mais de 15.000 moradores de Framingham, Massachusetts, examinando sua frequência cardíaca, peso, níveis sanguíneos e outros indicadores de saúde, em média, a cada quatro anos. Seu objetivo era identificar os fatores de risco para doenças cardíacas. No entanto, Christakis e Fowler estavam interessados em outra coisa, a saber, os efeitos da socialização. Faz alguma diferença para a sua saúde se você tem amigos e, em caso afirmativo, que tipo de pessoas eles são?
Suas descobertas foram impressionantes. Não apenas ter amigos é importante; como é importante também ter os amigos certos. Se seus amigos são magros, ativos, felizes e têm hábitos saudáveis, a probabilidade é que você também o seja, e o mesmo se aplica ao inverso. Outro estudo, em 2000, mostrou que, se na faculdade, você tem um colega de quarto que se aplica com afinco em seus estudos, a probabilidade é que você também estude mais. Um estudo de Princeton em 2006 mostrou que, se um de seus irmãos tiver um filho, você terá 15% mais chances de também ter um nos próximos dois anos. Hábitos são contagiosos. Eles se espalham através das redes sociais. Até mesmo os amigos de seus amigos e os amigos deles também podem influenciar seu comportamento.7
Jordan Peterson, em seu livro 12 Rules for Life (12 Regras para a Vida), repassou sua própria experiência e a de seus contemporâneos, crescendo na pequena e isolada cidade de Fairview, Alberta. Aqueles que escolheram indivíduos socialmente ascendentes como amigos também escalaram o sucesso. Aqueles que caíram em má companhia se saíram mal, às vezes desastrosamente. Podemos escolher os amigos errados, diz ele, precisamente porque melhoram nossa auto-imagem. Se tivermos uma falha e formos cônscios dela, podemos encontrar uma segurança tranquilizadora se soubermos que as pessoas com quem nos associamos têm a mesma falha. Isso acalma nossa mente perturbada, mas ao preço de tornar quase impossível escapar de nossas deficiências. Daí a sua Regra 3: Faça amizade com pessoas que querem o melhor para você.8
Nada disso seria uma surpresa para os sábios, que apontaram, por exemplo, que as principais figuras da rebelião de Korach estavam acampadas próximas umas das outras. A partir disso eles concluíram: “Ai dos ímpios e ai do seu próximo.” Na direção oposta, as tribos de Yehudá, Issachar e Zevulun estavam acampadas perto de Moshé e Aharon, e elas se distinguiram por suas habilidades na Torá. Por isso, “Feliz o justo e feliz seu próximo.”9 Daí, o axioma de Maimônides:
É natural ser influenciado em caráter e conduta por seus amigos e associados, e seguir as modas de seus concidadãos. Portanto, deve-se assegurar que seus amigos sejam virtuosos e que você frequente a companhia dos sábios, para que aprenda com a maneira como eles vivem e que você se distancie das más companhias.10
Ou, como os sábios dizem mais brevemente: “Faça de si mesmo um mentor e adquira para si mesmo um amigo.”11
No final, foi o que D'us fez por Moshé, e acabou com sua depressão. Ele disse a ele para reunir em torno dele setenta anciãos que suportariam o fardo da liderança com ele. Não havia nada que eles pudessem fazer e que Moshé não pudesse: ele não precisava de sua ajuda prática ou espiritual. Mas eles aliviaram seu isolamento. Eles compartilharam seu espírito. Eles deram a ele o presente da amizade. Todos nós precisamos disso. Somos animais sociais. “Não é bom ficar sozinho”.12
Faz parte da história intelectual do Ocidente o fato de que, desde muito cedo, o Cristianismo se tornou mais helenístico do que hebraico, as pessoas chegaram a pensar que o principal propósito da religião é transmitir informações (sobre a origem do universo, milagres, vida após a morte e assim por diante). Daí o conflito entre religião e ciência, revelação e razão, fé e demonstração. Estas são falsas dicotomias.
O Judaísmo tem crenças fundamentais, com certeza, mas ele é essencialmente fundamentado sobre algo completamente diferente. Para nós, fé é a redenção da solidão. É sobre relacionamentos – entre nós e D’us, nós e nossa família, nós e nossos vizinhos, nós e nosso povo, nós e a humanidade. O Judaísmo não é sobre a alma solitária. É sobre os laços que nos unem uns aos outros e ao Autor de todos. É, no mais alto sentido, sobre amizade.
Daí a ideia da mudança de vida: tendemos a nos tornar o que nossos amigos são. Então escolha como amigos pessoas que são o que você aspira ser.
NOTaS de rodapé
2. Num. 11:11-15.
7. Nicholas Christakis e James Fowler, Connected: the Surprising Power of Our Social Networks and How They Shape Our Lives (sem título em Português, “Conectados: O Poder Surpreendente de Nossas Redes Sociais e Como Formam Nossas Vidas”), Little, Brown, 2011.
8. Jordan Peterson, 12 Rules for Life (sem título em Português, “12 Regras para a Vida”), Allen Lane, 2018, 67-83.
9. Tanhuma (Buber), Bemidbar 13; Bemidbar Rabá, Korach, 18:5.
10. Mishnê Torá, Hilkhot Deot, 6:1.
11. Mishná Avot 1:6.
12. Gênesis 2: 18.
O rabino Jonathan Sacks é o ex-rabino-chefe da Grã-Bretanha e da Comunidade Britânica. Para ler mais escritos e ensinamentos do Lorde Rabino Jonathan Sacks, ou para participar de sua lista de e-mail, visite www.rabbisacks.org.
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