Um drama em quatro atos
Noach 5779
Rabino Lord Jonathan Sacks
A parashá de Noach encerra os onze capítulos que precedem o chamado a Avraham e o início da relação especial entre ele e seus descendentes e D’us. Durante esses onze capítulos, a Torá dá destaque a quatro histórias: Adam e Chava (Eva), Cain e Hevel (Abel), Noach e a geração do Dilúvio, e a Torre de Babel. Cada uma dessas histórias envolve uma interação entre D’us e a humanidade. Cada uma representa outro passo no amadurecimento da humanidade. Se traçarmos o curso dessas histórias, poderemos descobrir uma conexão mais profunda que a cronologia, uma linha de desenvolvimento na narrativa da evolução da humanidade.
A primeira história é sobre Adam e Chava e o fruto proibido. Depois de terem comido e descoberto a vergonha, D’us lhes pergunta o que fizeram:
E Ele disse: “Quem lhes disse que vocês estavam nus? Vocês comeram da árvore que eu mandei que vocês não comessem?
O homem disse: “A mulher que Você colocou aqui comigo – ela me deu alguns frutos da árvore e eu comi”.
Então o Senhor D’us disse à mulher: “O que é isso que você fez?”
A mulher disse: “A serpente me enganou e eu comi.” (3:11 –13)
Diante do fracasso primitivo, o homem culpa a mulher, a mulher culpa a serpente. Ambos negam responsabilidade pessoal: não fui eu; não foi minha culpa. Este é o nascimento do que hoje é chamado de cultura da vítima.
O segundo drama é sobre Cain e Hevel. Ambos trazem ofertas. O de Hevel é aceito, o de Cain não é – por que isso é assim, não é relevante aqui. [1] Em sua ira, Cain mata Hevel. Novamente, há um diálogo entre um ser humano e D’us:
Então o Senhor disse a Cain: “Onde está seu irmão Hevel?”
"Eu não sei", ele respondeu. "Eu sou o guarda do meu irmão?"
O Senhor disse: “O que você fez? Ouça! O sangue de seu irmão clama a mim do chão (49: 9-10).
Mais uma vez o tema é responsabilidade, mas num sentido diferente. Cain não nega a responsabilidade pessoal. Ele não diz: "Não fui eu". Ele nega a responsabilidade moral. "Eu não sou o guarda do meu irmão." Eu não sou responsável por sua segurança. Sim, eu fiz porque me senti assim. Cain ainda não aprendeu a diferença entre "eu posso" e "me é permitido".
A terceira é a história de Noach. Noach é apresentado com grandes expectativas: "Ele nos consolará" (5:29), diz seu pai Lemech, ao dar-lhe seu nome. Este é o que irá redimir o fracasso do homem, para oferecer conforto para "a terra que D’us amaldiçoou". No entanto, embora Noach seja um homem justo, ele não é um herói. Noach não salva a humanidade. Ele salva apenas a si mesmo, sua família e os animais que leva com ele na arca. O Zohar o contrasta desfavoravelmente com Moshé: Moshé orou por sua geração, Noach não o fez. No final, seu fracasso em assumir a responsabilidade pelos outros o diminui também: na última cena, vemos ele bêbado e exposto em sua tenda. Nas palavras do Midrash, “ele profanou-se e tornou-se profanado”.[2] Não se pode ser o único sobrevivente e ainda sobreviver. Sauve-qui-peut (“salve-se quem puder”) não é um princípio do Judaísmo. Temos que fazer o que pudermos para salvar os outros, não apenas nós mesmos. Noach falhou no teste da responsabilidade coletiva.
A quarta é a enigmática história da Torre de Babel. O pecado de seus construtores não é claro, mas é indicado por duas palavras-chave no texto. A história é emoldurada, começando e terminando, com a expressão kol ha’arets, “a terra inteira” (11:1, 8). No meio, há uma série de palavras sonoras semelhantes: sham (lá), shem (nome) e shamaim (céu). A história de Babel é um drama sobre as duas palavras-chave da primeira sentença da Torá: “No princípio, D’us criou o céu (shamaim) e a terra (arets)” (1:1). O céu é o domínio de D’us; a terra é o domínio do homem. Ao tentar construir uma torre que "alcançaria o céu", os construtores de Babel eram homens tentando ser como deuses.
Essa história parece ter pouco a ver com responsabilidade e parece estar focada em uma questão diferente das três primeiras. No entanto, não acidentalmente a palavra responsabilidade sugere habilidade para resposta. O equivalente hebraico, achraiut, vem da palavra acher, significando “um outro”. A responsabilidade é sempre uma resposta a algo ou a alguém. No Judaísmo, significa resposta ao mandamento de D’us. Ao tentar alcançar o céu, os construtores de Babel estavam, de fato, dizendo: vamos tomar o lugar de D’us. Nós não vamos responder à Sua lei ou respeitar Seus limites, não vamos aceitar a Sua Alteridade. Nós vamos criar um ambiente onde nós governamos, não Ele, onde o Outro é substituído pelo Eu. Babel é o fracasso da responsabilidade ontológica – a ideia de que algo além de nós nos invoca.
O que vemos em Gênesis 1–11 é um drama de quatro atos excepcionalmente bem construído sobre o tema da responsabilidade e desenvolvimento moral, apresentando o amadurecimento da humanidade, ecoando a maturação do indivíduo. A primeira coisa que aprendemos quando crianças é que nossos atos estão sob nosso controle (responsabilidade pessoal). A próxima é que nem tudo o que podemos fazer, devemos fazer (responsabilidade moral). A etapa seguinte é a percepção de que temos um dever não apenas para conosco, mas também para aqueles sobre os quais temos uma influência (responsabilidade coletiva). E finalmente, aprendemos que a moralidade não é uma mera convenção humana, mas está escrita na estrutura da existência. Existe um Autor do ser, portanto, existe uma Autoridade além da humanidade a quem, quando agimos moralmente, respondemos (responsabilidade ontológica).
Esta é a psicologia do desenvolvimento como nós a conhecemos através do trabalho de Jean Piaget, Eric Erikson, Lawrence Kohlberg e Abraham Maslow. A sutileza e profundidade da Torá são notáveis. Foi o primeiro – e ainda é o maior – texto sobre a condição humana e nosso crescimento psicológico do instinto à consciência, do "pó da terra" ao agente moralmente responsável que a Torá chama de "a imagem de D’us".
Notas de rodapé
[1] Para mais informações sobre Cain e Hevel, veja o ensaio “Violence in the Name of God”, Covenant and Conversation: Genesis, p29
[2] Bereshit Rabá 36:3.
Shabat Shalom!
